Luedji Luna canta sobre humanidade e amores das mulheres negras em novo CD

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Por: Guilherme Soares Dias

“Eu sou a preta que tu come e não assume (…), por acaso, eu não sou uma mulher?”. Os versos certeiros da música “Ain’t I A Woman?” ajudam a resumir o grito que “Bom mesmo é estar debaixo d’água”, segundo CD de Luedji Luna traz. Com sua voz doce e marcante, a cantora baiana fala de amores e desamores, além de cantar a mulher negra como musa. São 12 músicas entre inéditas, poema de Conceição Evaristo, recitado pela própria escritora, e uma canção de Nina Simone que falam sobre a humanidade da mulher negra por meio do amor.

A música tema do disco “Bom mesmo é estar debaixo d’água” é leve, dançante e poética e gruda fácil na cabeça. “Goteira” fez parte de uma gravação de voz e violão que já tem mais de 600 mil views no Youtube. As demais canções são novas e esbanjam nos arranjos que remetem ao jazz. Sai a percussão que era a base do primeiro CD “Corpo no mundo” e entra a bateria, o sopro e instrumentos de cordas. O novo CD não tem nenhuma música solar e que poderia se transformar num hit dançante como era “Banho de Folhas” no primeiro álbum. Luedji firma-se com o novo trabalho como expoente da nova MPB, música preta brasileira, com mistura de jazz, reggae e sons africanos.

Parte do novo CD foi gravado no Quênia. “Arrisquei bastante na sonoridade. Fui para África em busca disso. Deixei músicos livres a partir de sua sonoridade. São músicos instrumentistas do jazz. As células da bateria são ritmos bastante africanos”, considera. A cantora diz que ama estar no continente africano e que o Quênia é como Wakanda, o reino do filme Panteras Negras. “É chique, foda. Consigo me comunicar com as pessoas”, afirma.

Conceição Evaristo recitando “A noite não adormece nos olhos das mulheres” traz o tom de poesia-denúncia do disco. Luedji parece cantar com um sorriso de canto de boca e brinca com as palavras. “Eu danço na dança das tuas marês”, canta no refrão da música tema do disco.  Em entrevista exclusiva ao Guia Negro, a cantora que acabou de dar a luz ao primeiro filho, diz que está vivendo a vida de dona de casa, mas com saudades da rua. A pandemia, segundo ela, contribuiu para que seja mãe em tempo integral. “Estou morrendo de saudades do palco, mas feliz que ainda não tive que me separar do baby”, divide.

Histórias de amores e desamores

A cantora ressalta que o CD traz canções de várias paixões, de vários amores, produzidas nos últimos três anos enquanto percorria o Brasil e o mundo cantando o primeiro CD. “São músicas feitas pós-verão em Salvador ou em Salvador, no avião. Tem uma série de histórias em cada letra”, conta. Luedji diz que quis mostrar seu lugar de mulher negra, bissexual, uma vez que há pouco repertório de mulheres negras falando por si mesmas dos próprios sentimentos. “Há apagamentos de vivências amorosas e afetivas. É muito difícil de ver retratado na cinematografia a mulher negra sendo amada, sendo musa, falando em primeira pessoa. Quero construir esse imaginário”, reivindica.

“Bom mesmo é estar debaixo d’água” é um disco mais maduro, segundo a cantora, e que fala mais sobre ela, sobre o “nós, mulheres negras”, e traz seus causos e histórias. Trazendo como referência a água, elemento ligado às emoções e a Oxum, orixá africano ligado ao amor e a maternidade, o disco é fluído, com canções que dialogam entre si e que apresentam múltiplas vozes pretas e femininas acerca do tema. A canção “Manto da noite”, por exemplo, foi composta em homenagem a “uma mulher preta retinta”. Já “Lençóis” é de co-autoria da escritora Cidinha da Silva e conta com a participação da poeta brasiliense Tatiana Nascimento

A cantora diz que o disco não fala apenas sobre “solidão da mulher negra”, mas sobre desejo, sexo, desamor. “É um mergulho sobre esse sentimento. Um disco denso, cantar essas músicas me custa muito. É reviver essas experiências”, diz. A busca, segundo ela, é tirar o amor do lugar de clichê, apesar de admitir que ele também é isso, mas com proposta de discutir a humanidade, a partir do dar amor e da ausência de recebê-lo. “Reafirmar a humanidade da mulher negra. Somos seres dignos de sermos amadas”.

A música “Ain’t I A Woman?” foi composta para um homem que repetia o padrão de querer apenas sexo e não avançar para o relacionamento. “É uma crítica a esse lugar da objetificação, mulher negra só como corpo. Uma relação que não consegue se desenvolver. Não tenho nada contra sexo casual, adoro, mas se tivesse uma variável… Era muito a repetição desse padrão de ser a preta que todo mundo come e ninguém assume”, dispara. 

Na música “Origami”, um instrumento de Madasgacar chamado marvan, utilizado pela tribo Masai, de onde vem um grupo que canta no fim da canção, “carimba” o passaporte africano do disco. A produção é um dos exemplos de que música é linguagem universal, uma vez que não tinha músicos brasileiros no estúdio.

A gravação ocorreu no início da gestação da cantora, que diz que sempre quis fazer música para o mundo. “Música está nesse lugar da universalidade”, reforça. Com o novo filho musical no mundo, Luedji quis trazer um pouco de leveza para esse 2020 tão difícil. “Cogitei adiar o lançamento para 2021, mas acho que merecemos um pouco de alívio”. E “Bom mesmo é estar debaixo d’água” traz isso.

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