Livro “Ayo e as Formiguinhas” busca reforçar o senso de pertencimento e representatividade de crianças negras

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A educadora Tamiris Feereira e sua criação, Ayo (Imagem: acervo pessoal)

A construção da subjetividade negra passa pela quantidade e qualidade da representatividade com que esse indivíduo vai interagir. Na produção de literatura brasileira temos um espelhamento dos anos de colonização europeia, com perpetuação de um padrão eurocêntrico. Pensando em desconstruir isso, a educadora e graduanda em pedagogia pela USP, Tamiris Ferreira, 32 anos, criou a personagem Ayo, que é protagonista do livro “Ayo e as Formiguinhas”. 

Ayo é uma menina preta retinta, de cabelos crespos e que usa birotes (vários coquezinhos), muito esperta, inspirada na filha de 7 anos da autora. Com a constatação de uma lacuna na grade curricular em relação à temas étnico-raciais, Tamiris se sentiu compelida a criar um projeto que suprisse parte desse vácuo. “Desenvolvi durante a pandemia um projeto solo de Educação Afrocentrada, o Xirê de Quintal. E desse Quintal, nasceu Ayo”, explica a educadora. 

Tamires Ferreira explica que a palavra “xirê” tem origem Yorubá, que significa brincadeira, dança, roda, celebração. “Essa escolha vem da ideia de que os nossos quintais são esse lugar festivo, da reunião com os familiares, com os amigos”,diz a criadora de Ayo. 

Tal como “Jeremias – Pele”, de Jefferson Costa e Rafael Calça, Ayo vem como mais uma carismática personagem preta para que pais possam reforçar “uma narrativa educativa, divertida e resgata o senso de pertencimento identitário ao apresentar personagens que se parecem com toda criança negra”, como explicado na descrição da campanha do livro no Catarse.

Sobre a negligência com que as crianças pretas são retratadas na indústria cultural, a autora propõe um exercício interessante: “Na sua infância quantos personagens você admirava e que se pareciam com você? Se você levar muito tempo pra responder, ou não conseguir encher os dedos de uma única mão é sinal de que a mídia e os meios de produção capitalista não se preocuparam em levar às prateleiras produtos que te representassem”, propõe. 

Para que o projeto fosse levado adiante, Tamiris se juntou ao designer gráfico Igor Furqan e ao ilustrador Oberon Bienner, o Oberas. Furgan diz que enxerga as crianças negras com mais autoestima hoje do que antes, talvez resultado dos movimentos de afirmação da identidade negra, o que reforça a importância de se ter cada vez mais personagens e profissionais pretos construindo para o público preto.

“Eu aprendi sobre minha negritude à princípio com o rap. Claro, com situações que eu passei desde novo, com situações que meus parentes compartilhavam, mas a autoafirmação veio por meio do rap”, explica o designer. 

O designer gráfico Igor Furqan (Imagem: acervo pessoal)

Oberas se sentiu atraído pela oportunidade de criar para um projeto que falasse de representatividade para crianças negras e que conversasse com o que já produzia. “O que me chamou atenção foi a originalidade do livro, a proposta afrocentrada e também o fato de eu ter essa vontade de fazer algum trabalho voltado para o público infantil a tempos”, explicou. Crescendo lendo HQs do Pantera Negra e assistindo ao Lanterna Verde John Stewart de Liga da Justiça, Oberas levou os conceitos de representatividade para seu trabalho, o que chamou atenção de Tami. Com a equipe formada bastava refinar ideias a respeito da divulgação e concepção visual da obra.

Tamiris, Oberas e Igor criaram juntos os termos da campanha no Catarse, que envolve, além do livro físico, brindes como, livro digital, áudiobook, kit para colorir, agradecimentos, marca páginas, pôster, camiseta, variando de acordo com a contribuição dos participantes. Igor elaborou o orçamento. Escolhendo a gráfica mais em conta. “A partir daí, o primeiro pensamento foi que o ideal seria encaixar tudo (e quando digo tudo é o valor do nosso trabalho, os brindes, os fretes e a porcentagem do Catarse) no dobro disso”, explicou. 

O ilustrador Oberas (Imagem: acervo pessoal)

Para o futuro a intenção dos envolvidos no projeto é disponibilizar “Ayo e as Formiguinhas” para o público geral, de preferência distribuída por uma editora voltada ao público preto e, quem sabe, uma possível animação.” Eu penso em continuação sim, mas antes quero ver meu primeiro livro infantil como autora nas mãos de muitas crianças pretinhas. E sem dúvida pras continuações esse time está junto comigo”, afirma Tamiris. . 

Como parte da ação de campanha, Tamiris, Oberas e Igor lançaram um manual de brincadeiras africanas ilustradas como ação de divulgação pra campanha. Para receber de forma gratuita, basta procurar pelo Xire de Quintal no Instagram.

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