Jana Guinond: a versatilidade da mulher negra contemporânea

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“Mãe de Osíris, atriz, pedagoga,  Idealizadora do Programa Usando a Língua e sonhadora em ação”. É assim que Jana Guinond, 46 anos, se define. Ela só esquece de acrescentar a tudo isso,  o fato de ser dona de uma personalidade cativante, inspiradora e bem humorada. Nem tudo foram flores em sua vida. Ela lutou e saiu de uma depressão com a ajuda de mulheres negras que a inspiram.

Grata ao Universo por ser feliz novamente, ela dedica boa parte do seu tempo em projetos ligados à educação e a comunidade negra. Um deles é o Canal “Usando a Língua”,  que concorreu ao prêmio de melhor série educacional no Rio Web Fest, primeiro e único festival de webséries do Brasil.

Ela também já atuou no cinema com os filmes “Última Parada 174” de Bruno Barreto, e “Quebrando as Pernas – boa sorte” de Lucas N.

Seus cachos e sorriso largo podem ser vistos em comerciais e novelas, onde como ela mesma diz, “dá pinta”, vez e outra.

Seu próximo desafio é apresentar seu canal e falar da importância do samba como patrimônio cultural, durante o próximo Social Media Week que acontece agora em Setembro, em São Paulo.

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Novela das oito – a força do querer

Mundo Negro – Qual o segredo para ser tantas em uma só e manter sempre esse alto astral?

Jana Guinond: Apesar de nós mulheres termos que assumir vários papéis na sociedade, não abro mão de conduzir a minha vida da melhor maneira possível. Sou intensa em tudo que faço.

Uma característica muito forte em mim, é de querer aprender sempre, e com a maturidade, isso tem se tornado latente e um dos aprendizados que tive:  é de que sou dona da minha vida, sou responsável pela minha felicidade, não posso fazer as pessoas felizes se não começar por mim, apesar de todos os desafios diários que enfrentamos, no meu caso, como mulher negra, origem pobre, que gosta de ocupar espaços, sem modos, que fala alto (risos).

Foto: Arquivo pessoal

Não abro mão da minha felicidade, adoro estudar, ampliar meu horizonte de mundo, e sempre promovo o movimento do amor, das fofocas positivas, de coisas que façam bem. Eu sei, que muitas vezes, sigo na contramão do que o sistema quer que as pessoas façam.

Eu não me permito entrar em grupos de intolerância, de ódio, de coisas que só prejudicam. Acho que, muito por conta de entender que esse é o caminho da tal depressão que estive um dia, então não quero ver essa mocinha de novo na minha vida. Com a ajuda na época da minha família carnal, espiritual, e de muitas amigas como: Creuzelly Ferreira, Dra Helena Theodoro, Lucia Xavier, Marize Conceição, Iris Jane, Iléa Ferraz, Jurema Werneck, Neide Diniz, Julia Jóia, Élida Aquino que na época me convidou para participar do Coletivo Meninas Black Power.

Retomei as minhas atividades através da criação, em 2013,  do Programa Usando a Língua, com recursos próprios e a ajuda de muita gente, e o programa, na verdade, se tornou um tipo ressurgir das cinzas, um fênix.  Sem falar que faço um resgate de minhas raízes, do universo do samba, presto homenagem ao meu pai (in memoriam) e tivemos a honra de ter a participação de Bira Presidente do GR Cacique de Ramos e o saudoso Almir Guineto um dos fundadores do Cacique.

Jana e Bira Foto: Arquivo pessoal

Voltei a me ver no espelho. Retomei o que sei fazer com muito prazer. Convidei Elza Soares para ser a madrinha, e Martinho da Vila para ser o padrinho do Programa. E eles toparam!!

Como foi sou processo de se descobrir como negra? Como sua família te influenciou nesse sentido?

 Embora soubesse o tempo todo que sou negra. Considerava-me feia e sem jeito. Tornei-me negra no sentido político (não partidário) aos 29 anos de idade, com influência de movimentos sociais e depois do movimento negro. Grupos que devo uma profunda gratidão. Hoje, o que eu puder contribuir para que as pessoas se tornem negras “mais rápidas” através da identidade, eu farei minha humilde contribuição.

Foto: Arquivo Pessoal

Como mãe de um menino negro quais são os maiores prazeres e os maiores medos?

É uma maravilha ser mãe de um menino, porque acabo conhecendo universo que não tinha a menor ideia, e consequentemente, sempre (re)avaliando minhas ações e comportamentos.

Nós temos uma relação de muito diálogo, que eu me emociono quase todos os dias.
É notório perceber, como o sistema é cruel com a população negra, principalmente, com homens negros, que fazem parte das estatísticas  no maior número de genocídios.

E quase todos os dias, eu e meu filho, temos uma questão para refletir e resolver, seja sob o ponto de vista étnico racial, seja do ponto de vista do machismo, enfim, é desafiador, mas a gente enfrenta né?

Você anda muito de bicicleta e tem uma aparência lindamente natural e saudável. Você acha que o autocuidado é uma prática comum entre as mulheres negras?

Eu ando de bicicleta porque, em 2014 fiz um investimento no programa Usando a Língua, e meu filho foi sorteado para uma escola pública de excelência, embora, tivesse três escolas mais próximas de casa,  eu não queria perder a vaga. E respeitar o ser abençoado que é meu filho. Com o transporte caro, comecei a levá-lo de bicicleta.

Durante nossas idas e vindas, mesmo cansada, por conta da idade, passamos a contemplar a natureza, conversar bastante, de observar algumas árvores, com seus frutos e folhas que cada dia estavam diferentes,  o som dos pássaros, mesmo na correria do dia a dia. Agradeço, todos os dias de poder enxergar as belezas no meio do caos.

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Foto: Arquivo Pesosal

Eu só tenho muito receio dessa frase “aparência lindamente natural e saudável” por conta de estar magra. Na verdade, nem posso legitimar isso, porque sabemos que temos a ditadura da moda, o tempo todo em nossas vidas. Que é cruel para todas nós.

Fujo dos padrões de “natural” (porque sou toda trabalhada no truque feminino) e “saudável” (adoro petiscos com uma boa cervejinha), embora reconheça que com a atividade esportiva de 40 minutos diariamente contribua em várias coisas para o meu bem estar.

E considero a  questão do autocuidado seja fundamental para conversarmos, já que somos historicamente impulsionadas em acreditar que não merecemos bons momentos, que inclua o olhar pra nós mesmas. Cuidar de nós.  Passamos boa parte da vida cuidando de outras pessoas e esquecendo nós mesmas. E é necessário mudar essa perspectiva, de considerarmos que merecemos sim, mais do que nunca. Sermos felizes.

As redes sociais abreviam e mudam o sentido e a forma de algumas palavras, como isso te influência como educadora?

No Social Media Week faremos a exibição pela primeira vez em São Paulo do episódio “Segura a Marimba”, no programa abordamos sobre as variações linguísticas, as palavras que mudam conforme o tempo, por exemplo. E a possibilidade de criar mecanismos com a interdisciplinaridade escolar.

 

Quais suas expectativa na participação no Social Media Week?

Tenho brincado com a expressão em tudo que faço de que “darei pinta….”, mas no fundo dá aquele frio na barriga, porque é o maior evento de mídias sociais do Brasil que acontece em São Paulo, na ESPM, Estarei “fora” de casa, mas espero ser acolhida da melhor maneira possível e me sentir em casa e também espero que as pessoas possam acompanhar pela transmissão ao vivo de todo o lugar do Brasil.

A produção do evento me perguntou por e-mail se eu aceitaria ficar na lista de espera, mas eu já me via lá, eu me imaginava participando do evento. Não é que fui selecionada? (risos)

Só que, por conta do meu investimento no Programa Usando a Língua, e a atual situação econômica do País, não pintava trabalho, então não tinha dinheiro para ir, e em uma postagem de desabafo comecei a receber várias mensagens privadas, de pessoas oferecendo ajuda de diversas formas.

Olha, fiquei uns três dias chorando de emoção. Porque vou para o Social Media Week por conta da mobilização das pessoas nas redes sociais, e reforçando, o que acredito, as redes devem ser usadas principalmente para as coisas boas. E é tão bom se sentir amparada, principalmente neste universo do audiovisual que é ainda, elitista, nepotista, machista e racista. Estou muito emocionada.

Quem mora em São Paulo poderá conhecer mais de perto os projetos de Jana Guinond durante Social Media Week – 2017. A palestra dela será no dia 14 de Setembro, quinta-feira, às 17 h.  Inscrição no evento: http://bit.ly/2xK3igU

Contatos

Youtube: Programa USANDO A LÍNGUA

Email: programausandoaligua@gmail.com

Tel. 55 21 979- 238-900

Facebook: Programa Usando a Língua

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Instagram: @programausandoalingua

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Site: www.programausandoalingua.com.br ( em construção)

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