Mundo Negro

Indígenas rebatem vídeo que sugere consentimento na colonização

Fotos: reprodução/Sheyden

Vídeo de Beatriz Bueno relativizou a violência contra mulheres indígenas e foi contestado por criadores indígenas

Um vídeo publicado no Instagram por Beatriz Bueno, criadora do Parditude, usa o cunhadismo para relativizar a ideia de que a miscigenação no Brasil colonial resultou de violência sexual contra mulheres indígenas. “Ao contrário de muitas pessoas que hoje saem afirmando que a miscigenação é só estupro, a gente precisa refletir sobre um hábito que existia nas populações indígenas”, diz ela na gravação, em que também transfere parte da responsabilidade pela violência colonial para os próprios povos indígenas. “A questão do consentimento não estava só ligada a um homem português que obrigava essa indígena por meio de um abuso, mas também aos hábitos dos próprios homens indígenas, de usarem as mulheres como objetos”, afirma.

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O Parditude, conceito formulado por Beatriz, defende o reconhecimento das pessoas pardas como grupo racial próprio e é alvo de críticas de pesquisadores das relações raciais e de setores do movimento negro. No vídeo, ela baseia sua fala no livro “50 tons de racismo”, de Janaína Bastos, tema de uma aula paga que divulgou como parte do clube do livro que mantém no YouTube.

As respostas vieram de perfis como o de Juca Juká (@kran_j_susuarana), com 70,1 mil seguidores, e o de Karuãn (@karuan_tataneady), desenvolvedor da rede social Etnias, que rejeitam a leitura de consentimento e apontam a ausência de fontes indígenas no conteúdo.Beatriz baseou sua fala no livro “50 tons de racismo”, de Janaína Bastos, tema de uma aula paga que ela divulgou no mesmo vídeo como parte do clube do livro que mantém no YouTube.

Juca Juká contestou diretamente a tentativa de associar as relações coloniais a uma escolha das mulheres indígenas. “Você queria falar sobre o cunhadismo como se fosse consentimento”, disse no vídeo, em que também criticou a base da pesquisa apresentada. “Você tem que ir atrás de quem tem essa vivência, de quem conhece isso a fundo”, afirmou.

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A leitura dos criadores encontra respaldo em lideranças indígenas de referência nacional. A deputada federal Célia Xakriabá, primeira indígena eleita para a Câmara por Minas Gerais, tem afirmado publicamente que a miscigenação brasileira não pode ser dissociada da violência colonial. “O Brasil foi invadido. Toda a miscigenação é fruto de violência”, declarou em 2025, durante sessão na Câmara dos Deputados. Em outra ocasião, a parlamentar lembrou que o estupro das mulheres indígenas é parte da história do país e definiu a mãe do Brasil como indígena.

A escritora Eliane Potiguara, considerada a primeira mulher indígena a publicar um livro no Brasil e fundadora do Grupo Mulher-Educação Indígena, construiu parte de sua obra como contraponto à objetificação e à exploração sexual impostas às mulheres indígenas desde a colonização. Mesmo o antropólogo Darcy Ribeiro, que não era indígena e difundiu o termo cunhadismo no livro “O Povo Brasileiro”, de 1995, associa a formação dos primeiros mestiços a sequestros, escravização e estupros de mulheres indígenas.

Ao levar o debate para a produção do conhecimento, Karuãn afirmou em vídeo que o cunhadismo nunca existiu entre os povos indígenas e que a leitura divulgada por Beatriz reflete a apropriação de saberes originários por pesquisadores de fora. “Enquanto o poder do conhecimento indígena estiver na academia, sendo utilizado pelo acadêmico não indígena, o extrativismo vai continuar”, disse. Na legenda de sua publicação, ele questiona onde estão os estudos que consideram a perspectiva das próprias mulheres indígenas e resume a crítica ao afirmar que “não basta pesquisar o indígena, é preciso pesquisar com o indígena”.

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