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Cultivar corpo e mente: nutrição e saúde mental da população negra além do mês de setembro

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Foto: Divulgação

Mais que reforçar Setembro Amarelo, entender como fatores nutricionais aliados a medidas de equidade podem melhorar a saúde mental das pessoas negras, com evidências reais e urgentes.

Por: Dr. Saulo Gonçalves – Nutricionista Clínico

A população negra no Brasil enfrenta, diariamente, desigualdades estruturais que impactam profundamente sua saúde mental. Racismo, discriminação, exclusão e violência são estressores psicossociais que aumentam a vulnerabilidade a quadros como ansiedade, depressão e suicídio. Estudos apontam que experiências recorrentes de discriminação racial afetam comportamentos alimentares — como comer por impulso ou buscar comidas ultraprocessadas — levando a disparidades no consumo de alimentos saudáveis e maior risco de obesidade. Além disso, evidências demonstram que negros e pardos têm acesso reduzido a serviços de saúde mental e piores desfechos clínicos, mesmo entre populações de baixa renda.

Alimentar-se de forma saudável não é apenas uma questão de escolha: é ferramenta de cuidado mental. No Brasil, estudos revelam que negros consomem menos frutas e verduras, enquanto a população branca consome mais insumos frescos e minimamente processados. Essa diferença não se deve só a preferências, mas à combinação de acesso limitado, infraestrutura inadequada e carga de estresse crônico — que afetam a qualidade da dieta e, por consequência, o equilíbrio mental.

Universitários brasileiros, indivíduos negros e pardos consumiam menos vegetais, mas mais bebidas açucaradas do que os brancos. No panorama nacional, não branca, menos escolarizada e sem plano de saúde são fatores associados a menor ingestão de frutas, vegetais e maior prevalência de comportamentos não saudáveis. Mulheres negras e pardas apresentam maior prevalência simultânea de obesidade e desnutrição do que mulheres brancas, refletindo vulnerabilidades acumuladas.

Por que isso importa na saúde mental?

Dieta ruim e insegurança alimentar geram estresse físico e emocional, piorando sintomas ansiosos e depressivos — especialmente em grupos historicamente marginalizados. Entretanto, incorporar nutrientes favoráveis ao cérebro — fibras, vitaminas do complexo B, magnésio — por meio de legumes, verduras, feijões e chás pode ser uma forma de empoderamento e promoção de bem-estar, especialmente quando aliado a reconhecimento da realidade racial.

Chás e ervas como prática acessível

Incluir chás calmantes como camomila, erva-cidreira ou maracujá na rotina pode aliviar sintomas de ansiedade e facilitar o sono. Cultivar essas plantas em casa — como hortelã, alecrim ou manjericão — torna o autocuidado mais acessível, simbólico e emocionalmente fortalecedor.

Promover acesso a alimentos saudáveis e permitir o cultivo doméstico não são apenas ações de saúde pública: são estratégias de justiça racial. Políticas afirmativas, quando conectadas à segurança alimentar, fortalecem a resiliência emocional da população negra e combatem determinantes sociais de saúde mental.

Cuidar da saúde mental da população negra — seja em setembro ou o ano inteiro — passa por enxergar a alimentação como ferramenta de
transformação. Nutrir o corpo e a mente é também confrontar desigualdades e cultivar esperança, pertencimento e resistência.

Cida Bento, autora do best-seller ‘O Pacto da Branquitude’, abre ‘Diálogos Antirracistas’ com entrada gratuita

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Cida Bento (Foto: Douglas Lopes)

A quarta edição do Diálogos Antirracistas, evento tradicional do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), será realizado nos dias 17 e 18 de setembro, o Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Com entrada gratuita, o encontro celebra mais de três décadas de atuação da instituição na promoção da igualdade racial, de gênero e da democracia no Brasil. As inscrições podem ser feitas em eventos.ceert.org.br.

A programação inclui uma conferência com a doutora Cida Bento, autora do best-seller ‘O Pacto da Branquitude’ e cofundadora do CEERT. Sob o tema “CEERT 35 anos – Construindo um Futuro Ancestral”, o evento propõe reflexões sobre juventudes negras, educação, trabalho, justiça racial e justiça climática, destacando o papel histórico do movimento negro na defesa da democracia brasileira.

Entre os participantes estão nomes de destaque de diferentes gerações, como o cineasta Joel Zito Araújo, a diretora executiva do MOVER, Natália Paiva, o pesquisador do CEERT Antônio Carlos (Billy) Malachias, a diretora adjunta educacional do IFSP – Campus Hortolândia, Kênia Cristina Pereira Silva, e a coordenadora do CONAQ, Givânia Maria da Silva, além de outros especialistas e lideranças comprometidas com a promoção da diversidade.

Para Daniel Bento Teixeira, diretor executivo do CEERT, o Diálogos Antirracistas é uma oportunidade de reafirmar o compromisso da instituição com a diversidade e a inclusão. “O Diálogos Antirracistas é uma iniciativa importante para evidenciar a contribuição do movimento negro para a consolidação da democracia brasileira e a atuação do CEERT se conecta com a luta por direitos e enfrentamento ao racismo”, afirma.

Além da capital paulista, o evento se estenderá ao longo do ano para todas as regiões do país, com encontros regionais, debates e rodas de conversa. Uma instalação comemorativa também vai retratar a trajetória de 35 anos do CEERT e sua influência nas conquistas do movimento negro brasileiro.

A edição 2025 se inspira no conceito de Tempo Espiralar, formulado por intelectuais negras, que propõe uma visão de tempo não linear, conectando passado, presente e futuro. Essa perspectiva orienta a ideia de Futuro Ancestral: um futuro moldado pelos saberes, práticas e valores herdados dos antepassados.

O CEERT reforça, assim, seu papel histórico na constituição do que a ativista e intelectual Nilma Lino Gomes define como “Movimento Negro Educador”, mostrando que a história da democracia no Brasil está profundamente atravessada pela luta do povo negro, que segue educando a sociedade para torná-la mais justa e igualitária.

SERVIÇO: 

Evento: Diálogos Antirracistas 2025 

Data: 17 e 18 de setembro de 2025 

Local: Sesc Vila Mariana – R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo – SP Inscrições gratuitas: https://eventos.ceert.org.br/ 

‘Domingo no Parque’: Clássico de Gilberto Gil ganha musical e terá 90% dos artistas negros

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Foto: Leo Aversa/Rolex

A canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, vai ganhar uma adaptação especial para os palcos. O musical estreia em 3 de janeiro de 2026, no Teatro Claro Mais, em São Paulo. O espetáculo será formado por 90% dos artistas negros. A informação da coluna Mônica Bergamo da Folha de São Paulo.

As audições para o elenco acontecem em outubro deste ano. A produção tem texto e direção assinados por Alexandre Reinecke, enquanto a direção musical ficará a cargo de Bem Gil, filho de Gilberto Gil. A trilha sonora não se limitará às composições do baiano: o público poderá ouvir também músicas de Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Caetano Veloso, e Peninha, além de seis faixas inéditas criadas especialmente para o espetáculo.

Em 1967, Gilberto Gil apresentou “Domingo no Parque” pela primeira vez ao público no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, onde ficou em segundo lugar. Depois, a canção entrou no álbum “Gilberto Gil (Frevo Rasgado)”, lançado no ano seguinte. A música é um marco ao retrato das influências do Movimento Tropicalista da época.

Promotor do RS afirma que réu negro não seria criminoso se tivesse levado chibatadas na infância

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Foto: Divulgação

A Corregedoria do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) abriu uma investigação para apurar uma denúncia de racismo contra um promotor que, durante uma audiência do Tribunal do Júri em São José do Norte, teria sugerido que um réu negro não estaria cometendo crimes se tivesse recebido “chibatadas na infância”.

A fala racista aconteceu na última quarta-feira (27). Segundo relatos, o promotor que ainda não teve a identidade revelada, afirmou: “Se o réu tivesse recebido chibatadas quando criança, talvez, não estivesse sendo julgado naquele momento.”

A defensora do réu, a advogada Aisllana Zogbi da Silva, reagiu imediatamente e pediu que a declaração constasse em ata. Para ela, a manifestação do representante do MP-RS foi “absurda”, e ela ainda sugeriu que o promotor estudasse a história do Brasil. Aisllana formalizou denúncia junto à Corregedoria.

Em nota, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul confirmou que “de fato, foi registrada a manifestação verbal” do promotor. “A fala, considerada pela defesa como de cunho racista, foi formalmente consignada nos autos e encaminhada à Corregedoria-Geral do Ministério Público para as providências cabíveis”, comunicou o órgão.

Para o Mundo Negro, o advogado Dr. Hédio Silva Jr. disse que “a nota do TJ não explica porque a Juíza não deu voz de prisão em flagrante. Vou pedir o afastamento cautelar do promotor e representar criminalmente contra a Juíza por prevaricação por não ter dado voz de prisão em flagrante.”

O Ministério Público afirmou ter recebido a denúncia e declarou que não compactua “com esse tipo de conduta”, garantindo que “tomará todas as providências legalmente cabíveis”.

Como a identidade do promotor não foi divulgada, O UOL não conseguiu entrar em contato com a defesa dele. A reportagem também procurou a advogada do réu para mais comentários, mas não obteve resposta.

O réu, que respondia por homicídio qualificado e tentativa de feminicídio, foi condenado a 28 anos de prisão. O júri o considerou culpado por homicídio, mas afastou a qualificadora de feminicídio.

Powerlist Mundo Negro 2025: indique as Empreendedoras negras que movem a economia

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Hoje é o último dia para fazer a diferença. A Powerlist Mundo Negro 2025, principal premiação dedicada a reconhecer mulheres negras no Brasil, está na fase de indicações populares e a categoria Empreendedora precisa da sua voz para colocar no mapa quem move a economia, cria soluções, gera emprego e transforma territórios com visão e resultado. Em anos anteriores, a Powerlist já homenageou trajetórias com forte DNA empreendedor, como Rosângela Silva, fundadora da Negra Rosa, referência em beleza para peles negras, além de nomes como Patrícia Santos, Mônica Anjos e Juliana Olivera e Rosângela Silva, fundadora da Negra Rosa (foto) , histórias que mostram o impacto real do nosso empreendedorismo.

Podem ser indicadas mulheres negras que lideram negócios em qualquer setor, como fundadoras, cofundadoras, sócias ou gestoras à frente de marcas, serviços, plataformas e iniciativas com operação real e impacto comprovado, seja em crescimento, inovação, geração de renda, inclusão ou sustentabilidade.

O processo funciona em etapas para dar transparência e força ao reconhecimento: nesta 1ª fase, que encerra hoje à meia-noite, o público indica e ajuda a definir o Top 5 da categoria; na sequência, a curadoria valida as indicações e prepara a shortlist; por fim, abrimos a votação final para anunciar a vencedora no palco do Powerlist.
Vote: https://powerlist.mundonegro.inf.br/votar/

https://powerlist.mundonegro.inf.br/votar

Arquitetura afro-brasileira: memória, resistência e projeção de futuro

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Programa Aproxima – diversidade e inclusão étnico racial na arquitetura Crédito: Victor Lucena

Rosimeire Cruz

Arquitetos negros retratam as riquezas afro, estabelecendo novas narrativas e oportunidades para estudantes de arquitetura, designers e artistas afro-brasileiros

“Legado” é a palavra que tem permeado as narrativas do povo negro nos meios corporativos. Esse movimento, que contribui para o processo de compreensão da nossa história sob a ótica da participação na construção dos valores materiais que nos cercam, tem promovido uma mudança sistêmica e profunda na sociedade.

Os arquitetos Alexandre Salles, Yara Beatris Elias e Nicholas Oher, Além da galerista e artista plástica Camila Alcântara, são exemplos fundamentais de profissionais que participam desse novo momento — que escancara uma potência de conhecimento com assinatura autêntica, ancestral e marcada por muita luta.

“O design, a arte e a arquitetura negra não são novidade: são parte essencial da cultura brasileira e da história do projeto no país. O que se propõe é que essa presença não se esgote em ciclos ou recortes de ocasião, mas que seja tratada como parte estrutural da paisagem criativa contemporânea”, afirma o arquiteto Alexandre Salles, mestre em semiótica urbana e referência como pesquisador das relações entre arquitetura, cultura e identidade.

“Precisamos de referências e inspirações para atuar com arquitetura e arte. São essas bases que nos ajudam a criar novas formas de expressão sobre o que queremos comunicar. A representatividade é essencial, pois é o estímulo necessário para seguir em busca de um sonho. tendo como exemplo quem chegou antes e mostrou que era possível”, ressalta Yara Elias, arquiteta e urbanista, técnica em design de interiores e edificações, e pós-graduada em engenharia civil.

“Nossa prática é fluida, afetiva e comprometida com um design autêntico. Representatividade, para nós, é a possibilidade de sermos contadores de histórias, traduzindo afetos em forma, cor e matéria. A OHMA existe para afirmar a beleza da diversidade e a organicidade de um país que pulsa em muitas vozes”, pontua Nicholas Oher, arquiteto e urbanista cuiabano, especialista em cores e fundador da OHMA.

“A representatividade na arte contemporânea é fundamental. Eu me enxergo trilhando esse caminho através do meu trabalho como galerista e como artista também. O mercado e o sistema da arte como um todo ganham muito com a nossa presença e o nosso frescor”, contextualiza Camila Alcântara, cofundadora da Lateral Galeria Contemporânea de Arte.

O reconhecimento material e o acesso a bens de consumo continuam sendo pautas centrais para profissionais negros, que frequentemente veem sua história narrada por pessoas brancas que, historicamente, se apropriaram de seu conhecimento, sua arte e, consequentemente, de sua riqueza.

Essa invisibilização não apenas apagou nomes e trajetórias, mas também resultou na ausência de reconhecimento financeiro adequado pelos serviços prestados. A exploração contínua da mão de obra desses talentos, que ainda hoje precisam furar a bolha e demonstrar excelência acima da média para serem reconhecidos por seus feitos, tem promovido desigualdades e atrasos na economia brasileira.

O que a história conta

Do período colonial até a contemporaneidade, arquitetos, artesãos e mestres de ofício negros foram responsáveis por erguer parte significativa do patrimônio arquitetônico brasileiro — de igrejas e casarões coloniais a obras de infraestrutura que ainda hoje estruturam cidades. Esses profissionais, muitas vezes invisibilizados nos registros oficiais, foram os verdadeiros construtores de riquezas que sustentaram o desenvolvimento econômico e cultural do país.

É fato que arquitetos negros potencializam a arte e a cultura afro-brasileira, movimentam a economia do país e promovem reconhecimento cultural para as riquezas produzidas no Brasil. Mas, como reafirma o arquiteto Salles: “falar sobre a presença — ou a ausência — de profissionais negros em espaços curatoriais não é apenas uma questão estatística. É, acima de tudo, uma oportunidade de refletir sobre continuidade”.

Dar visibilidade a essa contribuição não é apenas uma reparação histórica, mas também um passo essencial para as novas gerações se consolidarem na área.  O Programa Aproxima, idealizado por Caroline Martins e Lourenço Gimenes, tem como objetivo promover a diversidade e a inclusão étnico-racial na arquitetura. A iniciativa integra um conjunto de ações voltadas para que a profissão, ainda elitista e majoritariamente ocupada por profissionais brancos, abra espaço para o novo — oportunizar estágio rotativo e estruturado a estudantes negros de arquitetura.

Toda vez que profissionais negros ascendem socialmente e têm a oportunidade de compartilhar seus saberes, a sociedade se beneficia, trilhando um caminho que conduz ao que de fato o Brasil representa: um país de primeiro mundo.

“Coisa de Rico”: A invisibilidade negra e raízes escravocratas da riqueza no Brasil

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Quando pessoas negras viajam, ou frequentam espaços tradicionalmente mais brancos, como lojas, ou restaurantes, elas são lidas quase como impostoras mesmo tendo poder aquisitivo para frequentar tais ambientes. A riqueza de berço, a tradicional, não pertence às pessoas negras pelos motivos que já sabemos, mas em “Coisa de Rico”, um dos livros mais vendidos do Brasil, o antropólogo Michel Alcoforado mostra que até pessoas brancas de classe média podem ser detectadas pelo termômetro da riqueza, pelos símbolos que ostentam para obter a passabilidade como ricas.

Convenhamos que o novo rico é um dos sujeitos mais preconceituosos e racistas, porque busca manter distância de tudo que possa estar relacionado à pobreza e para ele, o corpo negro só pertence a esse lugar.

Como o próprio Michel disse em entrevistas de divulgação do livro, a pessoa que ascendeu ao status de rico há pouco tempo é justamente a que se incomoda com a presença de pessoas diferentes no avião e que muda de bairro quando começa a ter vizinhos não brancos, alegando que a região já foi melhor.

Michel é fruto de um relacionamento interracial. Seus pais puderam colocá-lo nos melhores colégios, ele aprendeu cinco idiomas e teria credenciais para circular onde quisesse, e até circula, mas como contou no programa Provoca, apresentado por Marcelo Tas na TV Cultura, o imaginário brasileiro “não associa pessoas com a sua aparência ou tom de pele a posições de protagonismo ou poder”. Ele exemplifica com o episódio em que uma ouvinte do seu podcast na CBN comentou “achei que você era branco” quando o programa passou a ser transmitido no YouTube e sua imagem deixou de ser apenas ouvida para também ser vista.

Para o antropólogo, essa é uma experiência comum na trajetória de qualquer homem ou mulher negra das camadas médias no Brasil, resultado de um passado racista e de um presente igualmente racista. Isso aparece em situações cotidianas, como o porteiro pedindo mais documentos, a atendente da fila preferencial do aeroporto questionando sua presença ou o executivo lendo seu currículo com desconfiança antes de uma consultoria. São barreiras invisíveis, mas constantes, para pessoas negras que buscam ascender em espaços tradicionalmente brancos.

Coisa de rico: A vida dos endinheirados brasileiros Editora ‏ : ‎ Todavia

A pesquisa de Alcoforado sobre a naturalização da riqueza no Brasil também traz à tona a herança escravocrata. Ele critica a facilidade com que muitos ricos falam sobre a “fazenda de vovó”, como se a fortuna tivesse surgido do nada, sem reconhecer o passado de exploração. Essa narrativa conveniente esconde séculos de escravidão que foram fundamentais para a acumulação de capital de muitas famílias tradicionais do país. A busca por sobrenomes portugueses como sinônimo de berço e de presença “desde sempre” no Brasil é outra forma de apagar origens e consolidar a percepção de uma riqueza natural. Isso relega a um segundo plano a história de outros grupos, como os imigrantes italianos que chegaram no final do século XIX, e invisibiliza a contribuição de povos escravizados, cujos descendentes enfrentam barreiras estruturais para alcançar e legitimar sua própria riqueza e poder.

Michel enfatiza que o principal desafio para romper as desigualdades sociais no Brasil é superar a ideia de que “não precisa de tantas distâncias para viver com os outros”. Ele conecta diretamente essa percepção a uma sociedade estruturada sobre um passado escravocrata, onde as distâncias organizavam as relações e acabaram normalizadas.

As consequências dessas distâncias são drásticas e profundamente raciais. Pessoas negras morrem antes que pessoas brancas, meninos negros têm menos oportunidades de sonhar com o futuro e a sociedade, como um todo, bloqueia talentos e criatividade. É o que Michel chamou durante a entrevista ao Provoca, de um “capitalismozinho” que mata talentos e criatividade, evidenciando o custo social do racismo.

Apesar desse cenário, ele reconhece que houve uma transformação significativa em universidades como a USP e em espaços de poder em São Paulo, impulsionada pelas políticas de cotas e pela luta do movimento negro ao longo de mais de 50 anos. Ele, que cresceu sendo a única criança negra na escola, na natação, na aula de música e nas viagens, observa a mudança com otimismo, mas sem ilusões: ainda não é o espelho da sociedade brasileira, mas representa um avanço importante em relação à sua vivência.

Foto: Renato Parada

Eu gosto de falar sobre novelas, e daí?

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Cap22 - Cena 24 - Jarbas (Leandro Firmino), André (Breno Ferreira), Consuelo (Belize Pombal) e Daniela (Jessica Marques).

Como diriam os jovens, eu estou com “hiperfoco” na novela Vale Tudo. Há muito tempo eu não criava esse hábito de ter um horário fixo para ver algo na TV. Eu vejo pouca TV de forma geral. O que me faz ligar esse aparelho são, além das notícias, os programas em que eu me vejo enquanto mulher negra, com uma família negra. E nisso, pela segunda vez, depois de Amor de Mãe, me dei ao luxo de parar tudo para ver os capítulos do folhetim das 21h, antiga novela das oito. Confesso que a maior motivação era ver a Taís Araújo, uma mulher da minha geração e uma das minhas artistas e intelectuais preferidas do mundo.

Para além de assistir à intérprete da sofrida Raquel, os núcleos familiares negros, ou com personagens negros, mesmo sendo muito diferentes da minha família, me geraram muito interesse, renderam boas risadas e inúmeros papos com meus filhos e amigos (e leitores do Mundo Negro), assim que a novela acabava.

Não assisti outras novelas importantes com representatividade negra que felizmente estão cada vez mais presentes na TV, como Garota do Momento, Vai na Fé e Volta por Cima, mas quando falamos de Vale Tudo, estamos falando de dilemas morais da vida, escolhas que fazemos mesmo lidando com dificuldades, além de coisas triviais como, por exemplo, a Consuelo lidando com gerenciamento financeiro da família e crises de um casamento longo. Também vimos muitas situações de racismo explícito ou simbólico, e discutir se um tapa em racista é válido ou não é um papo que não tem nada de superficial considerando o país em que vivemos.

Novelas brasileiras são um patrimônio cultural, e acusar quem se diverte com elas de alienação seria o mesmo que acusar um fanático por futebol de obcecado. Não deveríamos julgar as pessoas por suas escolhas de como se divertir, quando elas são inofensivas.

Há paixões brasileiras que fazem parte da nossa vida e, no caso das novelas, quando há um núcleo negro representativo, isso é o mais próximo que temos de um seriado negro.

Nossas críticas, que parecem perda de tempo para os mal-humorados, na verdade, são reflexões que também poderíamos fazer lendo um livro, mas em novelas, fazemos isso de forma coletiva no online e offline. A falta de consistência e desenvolvimento de personagens questionáveis faz parte de qualquer produto cultural, como teatro, cinema, quadrinhos e literatura.

Assistir novela é no mínimo uma boa distração para um mundo tão difícil, mas quem tem mais repertório intelectual pode tirar muitos insights sobre a vida e o trabalho por meio dos personagens. Falar sobre novelas é uma das poucas interações online que não geram bate-boca sem sentido.

Mas assim que Vale Tudo acabar, não sei se emendo com a próxima, mas estou pensando em criar um abaixo-assinado para a família da Consu ganhar seu próprio seriado. Há lastros para isso, meu bem. Só basta a Globo querer.

Powerlist Mundo Negro 2025: Vote nas Criadoras Digitais que amplificam nossas vozes. Indicações até amanhã (31)

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Celebração da Powerlist 2024

A voz que move conversas, muda percepções e abre caminhos precisa ser vista. A categoria Criadora Digital do Powerlist Mundo Negro 2025 reconhece mulheres negras que transformam conteúdo em impacto real e fazem da internet um espaço de representatividade, debate e construção de futuro.

Quem pode concorrer. Toda mulher negra que cria conteúdo autoral e consistente em plataformas como Instagram, YouTube, TikTok, LinkedIn e Pinterest pode ser indicada, seja produzindo vídeos, séries, lives, textos, carrosséis ou projetos multimídia, atuando de forma independente ou à frente de marcas e comunidades, desde que a autoria e o protagonismo estejam claros e a atuação seja pública e ativa.

O que conta na avaliação. Buscamos impacto social, cultural ou político traduzido em ideias que informam, educam, mobilizam e elevam narrativas negras, com originalidade criativa, consistência editorial, qualidade estética, construção de comunidade, engajamento genuíno e resultados observáveis como mudanças de percepção, iniciativas coletivas ou repercussões relevantes no ecossistema digital.

Como indicar. A indicação é simples e direta: preencha o formulário com o nome da criadora e o @ principal, descreva em poucas linhas o que ela faz, por que seu conteúdo importa e quais evidências demonstram o impacto, inclua links de peças marcantes e convide a rede a participar. Clareza sobre autoria, propósito e resultados aumenta a força da candidatura e coloca essa história mais perto do palco.

Acesse o site: https://powerlist.mundonegro.inf.br/votar/

Puma Camillê reflete sobre a importância de documentar ‘Capoeira para Todes’: “Cada movimento é revolucionário”

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Foto: @nicfilmes

“Desafiamos e conquistamos nossas vitórias” – Essa foi uma das grandes mensagens deixadas durante a exibição do ‘Capoeira Para Todes: Aniversário de 3 anos’, seguida de um rico bate-papo com a idealizadora do coletivo que leva o nome do documentário, a multiartista Puma Camillê, durante a Mostra de Cinema Negro de Cotia, na Grande São Paulo, na última sexta-feira (29).

A Capoeira Para Todes tem sido um movimento essencial para a comunidade LGBTQIAPN+, que se tornou referência mundial ao inovar com a tecnologia ancestral da capoeira com o estilo de dança voguing, acolhendo grandes talentos que não conseguiam se encaixar em movimentos heteronormativos. Segundo Puma, a homofobia é um traço forte dentro das rodas tradicionais de capoeira, mas quando um corpo passa por uma transição de gênero, isso se torna ainda mais inaceitável. 

Apesar dos desafios que cada pessoa do Capoeira Para Todes pode vivenciar, o público pôde apreciar um documentário que mostra a esperança de ressignificar a sua jornada. Um grupo diverso que celebra o amor e a vida.

“A gente percebeu que a história de pessoas LGBTQIAPN+, trans, sobretudo, na capoeira, não foi documentada, não tem esse registro. O registro da pessoa trans sentada na mesa com uma pessoa de maior idade, trocando, comendo, sambando, são imagens que a gente não vê no filme, que a gente não vê em casa”, disse a Puma durante o evento. 

“A gente percebeu com a nossa existência, que cada movimento, por mais que muito simples que a gente faz, é um movimento revolucionário. Toda vez que a gente sentar na mesa, comer, sambar, sorrir e tá em volta de criança, de pessoas de mais idade, capoeira faz isso por si só. Quando isso é registrado, isso vira um grande marco pela tentativa de realmente silenciar a gente”, destacou. 

Confirmada de ir ao evento presencialmente, essa tentativa de silenciamento foi mais uma vez evidente no dia do evento, que fez com quê Puma desistisse de ir à Mostra, após receber ameaças quando anunciado a sua presença. Para zelar pela segurança da multiartista, foi decidido a realização de uma chamada de vídeo com o público, após a exibição do filme. 

A Mostra de Cinema Negro de Cotia continuará até setembro com a exibição dos documentários ‘Ijó Dudu, Memória da Dança Negra na Bahia’, dirigido pelo Zebrinha (José Carlos Arandiba), e ‘Terreiros do Brincar’, dirigido por Renata Meirelles. Para saber mais, acompanhe no Instagram: @cinemanegrodecotia.

O projeto foi contemplado pelo edital de cultura da PNAB Cotia e é realizado pelo Instituto Gira-Sol, Congada de Cotia e Ayê Produção Cultural, com apoio da Secretaria de Cultura e Lazer do município.

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