A arte de Beyoncé servirá como base de estudos – mais uma vez. Nesta segunda-feira (25), a Human Rights Campaign, maior organização de direitos LGBTQIA+ dos Estados Unidos, anunciou o lançamento do Renaissance: A Queer Syllabus, uma extensa coleção de artigos acadêmicos, ensaios, filmes e outras peças de mídia enraizadas nos estudos negros queer e feministas inspirados no álbum ‘RENAISSANCE’, de Queen B.
O plano de estudos servirá como um recurso educacional projetado para homenagear, analisar a alegria, inovação e legado da comunidade queer negra, além de destacar os desafios e a luta por direitos no mundo contemporâneo. O programa será compartilhado com 30 faculdades e universidades historicamente negras dos Estados Unidos, incluindo Howard University, North Carolina A&T University, Prairie View A&M University e Shaw University.
O projeto de pesquisa tem curadoria de Justin Calhoun, Leslie Hall e Chauna Lawson, pesquisadores do Human Rights Campaign. “O ‘Renaissance: A Queer Syllabus‘ inspira-se no renomado álbum de Beyoncé e na essência inclusiva da comunidade LGBTQ+. Assim como a música que celebra vozes diversas, este recurso visa mergulhar no rico espectro de experiências e expressões LGBTQ+“, diz a descrição.
O lançamento do material de estudos chega em um momento no qual a HRC denuncia também ‘o aumento perigoso e sem precedentes nos ataques legislativos anti-LGBTQ+’ nos Estados Unidos. “Acho que quando você destaca algo [com] um estado de emergência, você entende a situação e quão importante é [o] plano de estudos”, disse Calhoun, gerente de programa. “Isso traz um senso de urgência e realidade para o que realmente está acontecendo com a juventude queer, especialmente a juventude queer negra.”
Um dos principais nomes do futebol mundial da atualidade, o atacante Vinivius Jr. se emocionou ao falar durante uma entrevista coletiva concedida pela Seleção Brasileira na manhã desta segunda, 25, sobre os casos de racismo que vem sofrendo durante a temporada do campeonato espanhol.
A entrevista acontece um dia antes do amistoso entre Brasil e Espanha, que será realizado na próxima terça-feira, 26, no estádio Santiago Bernabéu, em Madri. Ao responder que “a falta de punições” é o que frustra mais, o jogador ainda afirmou desejar: “que as pessoas negras possam ter uma vida normal, como as outras. Quero seguir lutando por isso. Se fosse por mim, eu já teria desistido, fico em casa, ninguém vai me xingar, fazer nada comigo… Eu vou para os jogos com a cabeça centrada no jogo para fazer o melhor para minha equipe, mas nem sempre é possível. Tenho que me concentrar muito todos os dias…”, disse ele ao ir às lágrimas.
Durante a entrevista coletiva, o jogador também lembrou da história do próprio pai: “Meu pai sempre teve dificuldade por ser negro. Entre ele e um branco, sempre vão escolher um branco. Tenho lutado bastante por tudo que tem acontecido comigo. É desgastante por estar meio sozinho. Já fiz tantas denúncias e ninguém é punido, nenhum clube é punido. A cada dia, luto por todos que passam por isso. Se fosse só por mim e pela família, não sei se continuaria. Mas fui escolhido para defender uma causa bem importante e que eu estudo a cada dia para que no futuro meu irmão de cinco anos não passe pelo que estou passando.”, destacou.
Em um caso recente, em março deste ano, o jogador voltou a ser vítima de ataques racistas cometidos por torcedores europeus. Vini Jr. compartilhou o vídeo que mostra torcedores do Atlético de Madrid, antes do início da partida contra Inter de Milão, pela Liga dos Campeões, entoando um canto em que chamam o brasileiro de ‘cimpanzé’. Em nota, a Laliga afirmou que deve denunciar o caso à Procuradoria de Combate ao Ódio.
Os casos de racismo sofridos por Vini Jr. levaram o Ministério da Igualdade Racial do Brasil a cobrar o governo espanhol e a LaLiga a tomar providências contra os crimes cometidos, na maioria dos casos, por torcedores. Atualmente o jogador integra o Comitê Antirracista da FIFA.
Foto Gilberto Gil: Reprodução
Foto SZA: Barbara Jadeh
Atrações principais do Lollapalooza 2024, o cantor brasileiro Gilberto Gil e a norte-americana SZA subiram aos palcos do festival no último domingo, 24, no Autódromo de Interlagos, na Zona Sul de São Paulo. Os shows foram bastante elogiados pelo público, com Gil se apresentando no início da noite no palco secundário e SZA no palco principal por volta das 22h.
A apresentação de SZA deixou o público em êxtase, começando pelas roupas usadas pela equipe de ballet e pela própria cantora, que homenageavam o Brasil. Com uma frase gravada em português, a cantora agradeceu aos povos indígenas durante o show que teve quase 1h30 de duração: “Gostaria de agradecer todo o povo indígena e o Brasil por me receberem hoje. Obrigada”. A artista premiada no Grammy deste ano pelo trabalho com o álbum ‘SOS’, lançado no final de 2022, entregou dança, em uma coreografia que misturava samba e salsa, enquanto arrasava nos vocais e deixava a plateia emocionada.
O setlist do show incluiu músicas queridas do público como “Love Galore” (feat. Travis Scott) ,“The Weekend” e “Brooken Cocks”, do álbum ‘CTRL’, lançado em 2017, “Nobody Gets Me”, “Snooze”, “Kill Bill”, e “Good Days”.
O brasileiro Gilberto Gil, que também se apresentou pela primeira vez no festival, reuniu públicos de todas as idades para assistir ao seu show, que teve canções como “Não Chore Mais”, que contou com uma homenagem à Preta Gil, filha do artista, além de “Estrela”, “Nossa Gente (Avisa Lá)”, “Andar com fé eu vou” e “Palco”.
O veterano da música brasileira viveu um momento inusitado, quando precisou deixar o palco para apertar o cinto da calça: “Vou ali ajeitar meu cinturão pra não deixar a calça cair aqui. Vou ali e já volto”, disse bem humorado. Ele também destacou a presença jovem do festival: “Obrigada pela presença jovem, bonita, querida, da turma toda”.
Do Rap ao Reggae
O rapper Rael nomeou seu show no Palco Alternativo de ‘Raelpalooza’ e levou bandeiras com as cores da bandeira da Etiópia, usadas pelos fãs de reggae, para o palco e plateia, além de surpreender o público com participações de outros rappers consagrados como Mano Brown, que cantou ‘Eu Te Proponho’ e ‘Vida Loka (Parte 1)’, além de Emicida, com quem cantou “O Hip Hop É Foda”. Rael também homenageou Bob Marley cantando Stir It Up e Djavan, ao cantar ‘Linha do Equador’.
A rapper Mc Soffia, Vulgo FK, além da funkeira Mc Dricka foram as atrações principais do domingo no palco Perry’s by Johnnie Walker.
Homenagem à Michael Jackson
O funkeiro Mc Livinho fez um tributo a Michael Jackson durante seu show no Lollapalooza. O cantor dançou ao lado de Rodrigo Teaser, sósia do Rei do Pop, além de reproduzir diversas coreografias de músicas de Michael Jackson com seus bailarinos. O show de Livinho também contou com a participação de Mc Davi.
Em nota oficial publicada nas redes sociais, a assessoria do cantor Anderson Leonardo, vocalista do grupo Molejo, informou que o cantor voltou a ser hospitalizado no último domingo, 24, e está em estado grave. O músico faz tratamento contra um câncer desde 2022.
Segundo a assessoria de Anderson, “devido ao agravo da doença”, ele precisou ser hospitalizado no domingo, confirmando que o estado de saúde é grave e pedindo orações pelo cantor. Anderson havia sido internado no dia 27 de fevereiro, e passou 21 dias hospitalizado para realizar um tratamento de imunoterapia.
Em outubro de 2022, o vocalista do grupo Molejo foi diagnosticado com um tumor inguinal, um tipo raro de câncer localizado na região da virilha e que pode afetar o pênis e o ânus.
Na época em que recebeu o diagnóstico, Anderson agradeceu o apoio dos fãs: “Alô, meus amigos maravilhosos! Muito obrigado pelo apoio! Estamos aqui com Alice, ela veio aqui trazer alegria pro papai neste momento, né, Alice”.
Em 1999, aos 18 anos, a atriz, diretora, roteirista e escritoraRenata Di Carmo, se tornou a primeira mulher negra do Brasil a ser contratada como autora-roteirista pela TV Globo, para trabalhar nos programas de humor Zorra Total e Escolinha do Professor Raimundo.
No mercado audiovisual há 25 anos, a Renata contou sua percepção em relação as mudanças com o aumento da contratação de profissionais negros. “É outro mercado, fruto de muito trabalho nosso e das construções que fizemos. A questão é falar de paridade. Não se trata de inclusão, se trata de direitos, de uma sociedade democrática, que precisa se rever”, disse em entrevista ao Mundo Negro.
“A entrada de novas realidades agrega e traz qualidade para as obras, que se tornam mais ricas, sensíveis e inteligentes. Sem dúvida temos um cenário bem diferente hoje, das que estavam no audiovisual, na política, na militância, nas artes, em todos os espaços. É outro cenário, mas ainda distante do que precisa ser. Em relação a tomada de decisões e poder econômico, por exemplo. Em relação a uma adesão contínua, forte e estruturada”, destaca.
Foto: Luciana Zacarias
A cineasta ainda reforça a importância de não ser uma mudança oportuna. “Não deve se tratar de fetiche sobre a negritude, mas de qualidade. É esquisito como isso ainda perdura. Não deve se tratar de uma fase, mas do entendimento da precisão de ter esses profissionais inseridos, produzindo, crescendo. Sei que quando contamos histórias estamos falando de Brasil, e ele é amplo, plural e diverso. Por isso é absurdamente rico”, afirma.
Hoje, aos 44 anos, Renata continua realizando grandes projetos e está atuando em três produções diferentes: a série ‘Toda Família Tem‘ da Amazon Prime Video como roteirista-chefe, a série spin-off de ‘Cidade de Deus‘ do Max (antiga HBO Max) como roteirista, e a série ‘Candelária‘ da Netflix com roteiro e redação-final.
“‘Toda Família Tem’ é uma comédia e conta a história de uma família negra brasileira. Traz o protagonismo de um jovem negro, nas relações com o mundo, as descobertas da idade, as relações com seus familiares e com as mulheres que o cercam. A proposta foi valorizar os subtextos que existem no contexto dessas relações familiares, mostrando a dinâmica desses afetos. É um projeto que na escrita dos diálogos, na construção das narrativas, desenvolvimento das personagens e escolhas feitas, foi pensando em camadas”, conta ao Mundo Negro. Série ainda não tem previsão de estreia.
Foto: Reprodução/Instagram
Já o spin-off de ‘Cidade de Deus’, Renata diz que a produção aposta em personagens femininas fortes. “Apesar de seguir com nosso Buscapé conduzindo a história brilhantemente, as personagens são variadas, assumindo os dois lados, há uma antagonista também. Vocês vão ver os desdobramentos que podem surgir a partir da atuação dela. Tá tudo plantado nessa temporada que vem aí. Fiquei bem contente quando isso foi encampado. Fora isso também dá espaço para personagens que não foram explorados no filme, algo que pensamos. É o depois, mas com muitas especificidades que são da série”, diz. A previsão de estreia é em 2024.
Enquanto a série ‘Candelária’, tem uma pegada afrofuturista. “Traz a visão das crianças vitimadas na chacina, reverbera seus futuros ceifados. Tem uma ludicidade inerente ao universo infantil, mas com o peso, a seriedade e respeito que precisa ter para contar essa história; o importante para nós foi sobretudo imprimir a visão de que eram crianças. Algo óbvio, mas esquecido muitas vezes nas coberturas que acompanhamos e na forma como a sociedade lidou com o acontecido. Candelária tem um estudo de linguagem sensível, escolhas muito pensadas”, relata a cineasta. Produção também será lançada em 2024.
“A gente não pode banalizar nem normalizar a perversidade que é esse momento, que é o como se dá esse crime”. Anielle Franco, Ministra da Igualdade Racial e irmã de Marielle Franco, usou suas redes sociais para um desabafo após a prisão dos três suspeitos de serem mandantes do assassinato da vereadora e seu motorista Anderson Gomes, neste domingo, 24, seis anos após o crime que acontecem em março de 2018.
A Polícia Federal (PF) desencadeou uma operação na manhã deste domingo (24) que prendeu, em caráter preventivo, os irmãos Domingos Brazão, atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Chiquinho Brazão, deputado federal do Rio de Janeiro, e Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil do Rio. Segundo informações divulgadas pela PF eles seriam os “autores intelectuais dos crimes de homicídio”.
“Eu tô indignada, eu tô triste, eu tô chateada, eu tô com raiva. (…) após assistir a coletiva e ter acesso a alguns pedaços da investigação, com o sigilo sendo quebrado, a gente tá aqui com algumas reflexões importantes desse momento difícil pra família de indignação, de raiva, de revolta. A gente não tá surpresa como a maneira que esse crime se deu, mas a gente tá surpresa como que isso foi arquitetado”, comenta Anielle
Para ela, uma das principais motivações dos assassinos era o foco que Marielle tinha no bem-estar coletivo e justiça social.” É inadmissível uma vereadora ser assassinada com cinco tiros na cabeça porque defendia uma justiça social de qualidade, defendia interesses coletivos, ser assassinada por uma pessoa que pensava em seu benefício próprio apenas e não estava nem aí para o coletivo. A gente não pode banalizar nem normalizar a perversidade que é esse momento, que é o como se dá esse crime. A gente não pode”.
A Ministra ainda reforça a importância da democracia no combate ao crime. “É por isso que é tão importante falar e defender uma democracia robusta, firme, de qualidade porque são em lugares onde as pessoas deveriam estar cuidando da população, cuidando dos interesses coletivos e não cuidando de mandar matar ou zombar de uma mulher que foi assassinada ou fazer falas como a que eu ouvi de um deputado agora no ano passado de 2023 que a morte chegaria pra mim, assim como chegou pra minha irmã, porque eu defendo o coletivo, justiça social e os mais vulneráveis desse país”.
“Eu estou indignada, eu estou triste, eu estou chateada, eu estou com raiva, Tô surpresa com muitas das informações que saíram hoje, mas também tô cada vez mais certa de que a gente tá no caminho correto, no lado certo da história, lutando por esse país, lutando por quem mais precisa e, sim, defendendo o legado e a memória de Marielle, que não merecia, assim como ninguém, ser assassinada da maneira que foi”, finalizou Anielle.
A Polícia Federal (PF) desencadeou uma operação na manhã deste domingo (24) visando os suspeitos de serem os mandantes do brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Três mandados de prisão foram efetuados, juntamente com 12 de busca e apreensão, todos realizados no Rio de Janeiro.
Entre os detidos estão os irmãos Domingos Brazão, atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Chiquinho Brazão, deputado federal do Rio de Janeiro, e Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil do Rio.
A ação recebeu a autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e foi conduzida em uma operação conjunta envolvendo a Polícia Federal, a Procuradoria Geral da República e o Ministério Público do Rio de Janeiro.
Batizada de Operação Murder, em referência a “assassinato”, os investigadores explicaram à CNN que a Murder Inc. foi uma organização criminosa que atuou como executora a serviço das máfias de Nova York nos anos 1930.
O motorista Anderson Gomes também foi vítima fatal do crime, ocorrido em março de 2018.
Segundo informações divulgadas pela PF, foram detidos os “autores intelectuais dos crimes de homicídio”. O nome dos mandantes foi revelado por meio da delação premiada do ex-policial Ronie Lessa. Como Chiquinho Brazão é deputado federal, ele possui foro privilegiado, levando o caso à Suprema Corte.
A operação ainda está em curso para cumprir mandados de busca e apreensão na sede da Polícia Civil do Rio e no Tribunal de Contas do Estado.
Família agradece o empenho da justiça brasileira
Em nota assinada pelo Instituto Marielle Franco e Luyara Franco, filha de Mariele a família da vereadora comemora o avanço das investigações:
“Neste Domingo de Ramos (24), dia de celebrar nossa fé, a luta por justiça, e na liturgia o domingo que antecede a Páscoa sobre recomeços e ressurreição, acordamos com a notícia da operação conjunta da Procuradoria Geral da República, Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Federal.
Reconhecemos o empenho da Procuradoria Geral da República, da Polícia Federal, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e do Ministro Alexandre de Moraes do STF para avançar por respostas sobre o caso, agora aguardamos o resultado da condução da investigação e a eventual denúncia dos mandantes e de todos os responsáveis pelas obstruções da justiça.
Neste dia de dor e esperança, nossa família segue lutando por justiça. Nada trará nossa Mari de volta, mas estamos a um passo mais perto das respostas que tanto almejamos!”
Hoje, 23 de março, os leitores do Estadão acordaram e se depararam com a seguinte chamada do artigo assinado por Fernando Reinach: “Cotas raciais restauraram o racismo onde ele havia sido abolido”. E logo veio uma série de críticas, uma delas, mais específica com a problemática já no título: “O racismo havia sido abolido?”, perguntou uma internauta nos comentários do post do Instagram.
No primeiro parágrafo, além da ironia do autor em colocar um emoji de um punho para cima com o tom de pele negra retinta, ele inicia o texto afirmando que “o Brasil optou por combater discriminação racial com discriminação racial. Uma das consequências é que o racismo voltou aos vestibulares depois de uma batalha de décadas para extingui-lo”.
Mauro Baracho, mestre em Antropologia Social e colunista do Mundo Negro, apontou o descontentamento com a publicação do artigo. “Eu fico impressionado como alguém tão incompetente tem uma coluna em um dos maiores jornais do Brasil. Mas que o Estadão tem trabalhado contra a política de cotas arduamente ninguém pode negar. Para destruir as cotas lançam mão até de desonestidade intelectual”, afirma. Só neste mês, o Estadão publicou cerca de três artigos contra as cotas raciais.
Para Soraia Cardoso, conselheira fiscal no Pacto de Promoção da Equidade Racial, é importante ser uma pessoa branca competente para falar sobre um assunto tão importante para o Brasil. “Para ler e concordar com a opinião de uma pessoa não negra e não indígena, há de ser algum estudioso respeitado do tema, como a Lilia Moritz Schwarcz ou Lia Vainer Schucman, por exemplo. De resto é puro suco de racismo e a história de quem não é nem aliado à causa”, pontua.
“Estão replicando, de forma orquestrada, o movimento anti-woke dos EUA. Estejamos atentos e unidos, pois esses fascistas estão ocupando diversas mídias e partidos políticos”, alertou a executiva e palestrante Adriana Alves. O uso do termo woke, que em português significa acordei. O termo ressurgiu com o movimento Black Lives Matter, há dez anos, para representar a importância política de “estar alerta para a injustiça racial”, na luta contra o racismo e a brutalidade policial. No entanto, foi muito criticado por pessoas brancas.
Dez anos nos separa de um dos acontecimentos mais brutais da história da violência policial do Rio de Janeiro. Em 16 de março de 2014, Cláudia Silva Ferreira foi arrastada por 350 metros num carro da Polícia Militar, pelas ruas do bairro de Madureira, na Zona Norte carioca. Cláudia, mulher negra, tinha 38 anos, era auxiliar de serviços gerais, tinha filhos e um marido. Num domingo, ao sair de casa para comprar pão, foi atingida por dois tiros, por causa de confronto entre policiais e traficantes no Morro da Congonha. Após ter sido baleada ela foi colocada, pelos próprios policiais no carro oficial para ser socorrida no Hospital Estadual Carlos Chagas, contudo durante o percurso o compartimento da viatura abriu, Cláudia ficou pendurada por um tecido e foi arrastada, tendo sua pele dilacerada no asfalto. Mesmo sob o grito de alerta daqueles que viram a situação, os policiais não pararam. Essa brutalidade foi filmada por um cinegrafista amador e amplamente divulgada na mídia. Ela perdeu sua vida pelo Estado.
Uma década após o crime teve um desfecho: a Justiça inocentou os policiais acusados, que respondiam por homicídio e por remover o corpo do local. O juiz Alexandre Abrahão Teixeira, do 3º Tribunal do Júri, concluiu que eles eram inocentes das acusações citadas. “Erro de execução” concluiu o juiz. Esta frase está ecoando na minha cabeça, assim como outros trechos de narrativas proferidas durante o julgamento. Voltaremos nelas daqui a pouco. Antes disso vou levantar outras questões.
Quantos metros e por quanto tempo um corpo de uma mulher negra pode ser arrastado? Porque alguns corpos são cuidados e acolhidos, enquanto outros são alvo das mais brutais violências? O que afinal é a Justiça? A Justiça tem uma cor? Não pretendo aqui responder sistematicamente essas questões, mas sim expor uma breve reflexão que passa por essas questões.
Uma das provas usadas no processo criminal que trata este texto foi o laudo do Instituto Médico Legal, o documento conclui que a causa da morte foram os tiros e desse fato, o juiz Alexandre Abrahão afirmou que os agentes de segurança pública (os PMs) agiram em legítima defesa, uma vez que estavam em confronto com traficantes. O argumento supremo e muito antigo da guerra às drogas. “Diante do conjunto probatório existente nos autos, infere-se que os acusados agiram em legítima defesa” , conclui o juiz.
Já sobre a retirada de Cláudia do local do crime, a Justiça entendeu que os policiais tiveram a intenção de socorrer. A Agência Brasil reproduziu algumas falas dos PMs, vou me concentrar numa, pois já será suficiente (e acredito que você irá concordar comigo). “No banco traseiro da viatura havia alguns armamentos. A população estava revoltada e tentou tomar para si as armas, bem como agredir os policiais. Como os agentes tinham que socorrer Cláudia, não houve tempo hábil para retirar as armas do banco. Em razão disso, eles a colocaram, dentro da caçapa da viatura”, afirmou Wagner Cristiano Moretzohn, o comandante do 9° Batalhão da Polícia Militar à época. No instante em que li este trecho do depoimento do comandante, meus olhos lacrimejaram e minha garganta doeu, eram os sinais do meu corpo ao imaginar e recriar a cena na minha mente.
Crédito: Kilomba Collective
Acredito que você esteja desconfiado sobre o real motivo que guiou os vizinhos de Cláudia tentarem impedir que os policiais a levassem. O desespero sólido. A dor e a angústia dos filhos, que esperavam a sua mãe com os pães, no instante no qual souberam que ela poderia estar morta.
Os representantes da Segurança Pùblica não cumprem com suas funções quando o sujeito é negro. Ao invés de proteger, promove a morte de certos grupos. Como argumenta o filósofo camaronês Achille Mbembe, existe uma estrutura de dominação muito atual que se fortalece e se renova cada vez mais e ela está disfarçada de soberania e da preservação da ordem social vigente, fornecendo ao Estado “autorização” para operar o direito de matar. Assim, o conceito de necropolítica de Mbembe explica os modos de dominação do Estado, e de que forma esse Estado promove a vida ou a morte a depender do grupo social.
Não é exagero afirmar que o Brasil mata sistematicamente corpos negros. Promover segurança pública é um conjunto de ações de controle da criminalidade e da violência por meio do sistema da justiça, esse sistema é composto de entidades ligadas ao Poder Executivo e ao Judiciário, que trabalham em etapas relacionadas e contínuas de controle social que especificam o papel do Estado no cumprimento da ordem pública. Sendo representante do Estado nas ruas, o policial deve, de acordo com a lei, tratar os indivíduos sem distinção de classe, cor, gênero etc. Contudo, isso é só um sonho. No recorte racial, os negros são as maiores vítimas de violência policial.
Para escrever este texto, precisei ler diversas matérias publicadas tanto em 2014 quanto aquelas que eram publicadas a partir das mudanças no processo criminal, como por exemplo, quando foi realizada a reconstituição do crime, ou mesmo nos momentos em que novas testemunhas eram ouvidas e por fim a divulgação da sentença de absolvição dos policiais envolvidos. No conjunto de notícias que li, notei novas mortes, pelo silenciamento do indivíduo enquanto sujeito ativo. O nome da vítima era substituído por “mulher arrastada”, ou em lugar do nome dela a utilização da palavra “corpo”. Não. Não foi um corpo colocado na viatura da polícia, mas sim a Cláudia com seu corpo negro e sua história. Mais uma vez, vemos o processo de aniquilação de quem somos ou poderíamos ser.
A cada nova leitura ou finalização de um parágrafo eu lembrava do trabalho de mestrado da pesquisadora Amanda Quaresma de título Os corpos gritam para ninguém. O ponto inicial da autora foi o grupo documental de laudos produzidos pelo Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, na Bahia. Sua pergunta central foi questionar: os laudos elaborados pelo Instituto Médico “permitem a construção de verdades que abranjam outras narrativas, que não as produzidas pelo Estado?” A pesquisa da Amanda Quaresma centrada no processo criminal da “chacina do Cabula” e seu resultado têm grandes contribuições para inúmeras reflexões, mas a que queria trazer aqui é uma das conclusões que ela chega: “todo o processo de produção de laudos periciais é permeado por um racismo antinegro, que valida narrativas e ficções de uma polícia que mata, enquanto apaga histórias de comunidades inteiras”.
Por fim, gostaria de apontar uma última ideia: se a Cláudia fosse uma mulher branca, será que seria tratada da mesma forma pelo Estado? Em março, mês marcado pela constituição do Dia Internacional das Mulheres, nós mulheres negras brasileiras, vimos e sentimos o desfecho cruel do crime que Cláudia foi vítima. Precisaria de mais um texto, ou talvez, muitos outros para continuar esta ideia. Mas como prometi que iria terminar, deixo a reflexão sobre os feminismos e suas histórias como movimentos políticos, para o outro momento.
‘Passinho: O Ritmo dos Sonhos’, a nova série brasileira Disney+, apresentará o famoso passinho, dança originária do funk carioca que se popularizou em 2010. O responsável por assinar a direção de coreografia é o Edson Damazzo, mais conhecido como Bibiu, famoso por também ser o coreógrafo da cantora Ludmilla. Ele se tornou o negro a coreografar uma série musical da Disney.
Bibiu conta que ficou surpreso com o convite da produtora Boutique Filmes. “Eu achei que era furada, que deveria ser caô, porque não estava acreditando, ainda mais com o nome Disney, mas depois fui vendo que era verdade. E, claro, que aceitei de cara”.
Ele conta com uma equipe para montar as coreografias. “Junto comigo eu tenho um time muito forte. Como a série é sobre passinho, decidimos trazer pesos de nomes da cena para poder somar com o meu trabalho: VN trazendo toda a bagagem do passinho e a Celly como consultora. Então eu recebo a cena, o roteiro, dirijo os atores com a movimentação, intenções, tudo voltado para câmera, junto com as movimentações de passinho que o VN trás pra mim, e juntos montamos a cena”, diz Bibiu.
Edson Damazzo (Foto: Divulgação)
Com uma equipe majoritariamente negra no elenco e nos bastidores, Edson mostra sua felicidade com uma série sem estereótipos racistas. “Estamos falando de uma série musical histórica no Brasil. Primeiro que é a única produção atualmente que a Disney está fazendo. Temos um elenco 90% preto. Nossa equipe nos bastidores é formada por 90% de mulheres pretas, uma série da Disney no Brasil, falando sobre uma cultura periférica, onde o preto não está matando e nem roubando”, celebra. “Uma empresa que eu cresci vendo príncipe e princesas brancos, onde os protagonistas eram brancos. Essa série vai acender a chama de muitas crianças que vão se ver em lugar que não estão acostumadas”, completa.
Além disso, Edson também acredita que as pessoas negras e periféricas vão se sentir representadas e com esperança de sonhar sempre mais alto. “Vivemos em um racismo estrutural, onde você cresce sabendo que pra chegar lá, você vai ter que lutar dez vezes mais, ser forte, e muitos de nós desiste no meio do caminho, porque não tem muitas referências pretas que venceram. Então, chegou a hora de nos vermos em outros lugares, podemos sim ser protagonistas em uma série da Disney, temos talentos, temos histórias, nós existimos e resistimos”, reflete.
Dirigido por Jéssica Queiroz (Mila no Multiverso) e Marton Olympio (Anderson Spider Silva), as gravações da série ‘Passinho: O Ritmo dos Sonhos’ iniciaram no final de fevereiro e vão até abril. Serão sete episódios com cerca de 30 minutos. Ainda não há previsão de estreia.
Elenco da série Passinho: O Ritmo dos Sonhos (Foto: Alile Dara Onawale)
Mais sobre a série
‘Passinho: O Ritmo dos Sonhos’ conta a história de Mercedes (Giulie Oliveira), filha de bailarinos e apaixonada por dança, que tem o sonho de mostrar seu talento no Duelo do Passinho, importante competição interescolar deste movimento de dança, no Rio de Janeiro. Para isso, ela precisa participar de um grupo e, até então, a única saída seria entrar para o Bonde dos Brabos, os melhores dançarinos da escola e que sempre foram os únicos representantes, da instituição, no concurso.
Mercedes duela com Lucão (Fumassa Alves), o líder dos Brabos, mas apesar de ter vencido, não é aceita na equipe por ser menina. Essa é a gota d´água para ela montar seu próprio bonde e, com a ajuda de Dida (Digão Ribeiro), inspetor da escola, mas também um relíquia do Passinho, ela vai fazer de tudo para vencer a seletiva e representar a escola no, tão esperado, Duelo do Passinho.
Outros grandes nomes estarão presentes na trama, entre eles: Duda Pimenta, Tatiana Tiburcio, André Ramiro, João Victor Menezes e João Gabriel D’Aleluia.