Essa é uma pergunta que muito me tem sido feita ultimamente. Estamos passando um período muito delicado em que as entidades médicas mundiais e do nosso país nos instruem a ficarmos em nossas casas e sairmos somente para executarmos atividades primordiais, idosos e pessoas com doenças preexistentes devem pedir sempre que possível o auxílio de alguma pessoa fora do grupo de risco para não precisarem sair de casa.
Mas em caso de uma urgência odontológica, como devemos proceder? Nós cirurgiões-dentistas fomos orientados pelas nossas entidades de classe a atendermos somente à procedimentos não eletivos, ou seja, os que causam dor, como por exemplo, a cárie dentária, inflamação pulpar, abscesso dentário, traumatismo dentário, ajustes protéticos quando a mesma estiver machucando e impedindo o seu uso e fios ortodônticos que estejam machucando a mucosa. Estamos devidamente preparados para fazermos estes atendimentos, o uso de EPis (Equipamentos de Proteção Individual) é uma prática rotineira , a desinfecção antes e após os atendimentos do ambiente clínico é uma prática sempre realizada, e bochechos com água oxigenada e o uso de álcool gel está sendo mais enfatizada nos consultórios.
Eu acredito muito na prevenção, os cuidados bucais devem ser mantidos em todas as épocas, neste período de privações devemos tomar cuidados extras visando evitarmos desconfortos desnecessários, mas em caso de necessidade, nós cirurgiões-dentistas estamos prontos para servir a nossa população.
Alguém aqui defenderia ser de responsabilidade de uma menina estuprada convencer o seu estuprador que ele a estuprou? Que estuprar é horrível e ensina-lo pacientemente que não se deve estuprar? Alguém aqui defenderia que uma menina estuprada ao invés de investir na sua recuperação e proteção, deveria gastar sua energia convencendo estupradores que o estupro existe e que o estupro a feriu? Se não, porque acha que os pretos assim devem proceder? Que é de nossa responsabilidade educar branco-supremacista? Que devemos nós, povo preto, combater o racismo com educação, paciência e com fala mansa?
Não devemos educar e convencer que o mal que nos fazem existe, que nossa dor dói. Devemos, por qualquer meio necessário, garantir que nenhum mal seja ainda feito contra nós.
Devemos nos recuperar da dor e impedir, por qualquer meio necessário, que qualquer pessoa nos leve dor. O racismo não se combate com moralidade piedosa baseada em perdão, mas com Quilombo, capoeira e toque de vodu.
Igual no Haiti, igual no Brasil, igual na África, igual nos EUA. O Racismo produz uma economia do perdão que tira do ato racista sua agressividade, fazendo dele um simples equívoco. Cometi. Fui perdoado. Resolvido.
Não há perdão se seu guarda-chuva desfilou na favela em horário de tensão. Não perdoamos o fato de não darem a Maju nenhum dia de paz desde que assumiu esse trabalho. Por fim, deixo esse poema para reflexão de nossa comunidade:
O típico homem negro
o típico homem negro
perdoador e esquecedor
se um bandido
estuprar sua mãe, esposa e filha,
te espancar sem piedade
e escapar com toda a sua propriedade.
Depois
anos depois
a lei ainda falhar para alcançá-lo
você o avista em uma festa
O que você faz?
Perdoa e esquece?
Então você é um típico homem negro,
e é por isso que temos progredido do
Conialismo para o neocolonialismo.
Naiwu Osahon (Nigéria)
Prof. Historia e Filosofia (Licenciado e Bacharel), Poeta, Palestrante, Ativista Criador e Organizador do @wakandainmadureira
O empresário José de Souza Izidoro - Crédito: Arquivo Pessoal
O Mundo Negro sempre acreditou no poder revolucionário das boas narrativas. Se o exemplo arrasta, você vai se emocionar com a história do seu José de Souza, empresário do ramo imobiliário do Rio de Janeiro. Ele mesmo conta sua própria história para gente:
“Meu nome é Jose de Souza Izidoro, Dono da JSI imóveis. Tenho 60 anos, filho de um operário e uma faxineira, hoje sou casado há mais de 25 anos e meu filho está se formando em ciências contábeis, mas a vida nem sempre foi assim.
Eu vim de uma família humilde da baixada fluminense (Duque de Caxias) com 08 irmãos. Desde pequeno sempre busquei dar uma vida melhor para minha família, meu primeiro trabalho foi em uma indústria têxtil voltada para peças íntimas, mas meu sonho nunca parou por ali. Consegui passar no vestibular para a faculdade de matemática e nesse tempo além do salário na indústria, me vi obrigado a vender peças íntimas para aumentar meu sustento e de minha família.
Me formei, comecei lecionar em cursinhos e na própria indústria para os chefes e encarregados dos setores, mas nunca abandonei a prática de vendas das peças íntimas para um sustento extra salarial.
Depois que comecei a mergulhar no mundo das vendas, descobri meu dom para esse tipo de negócio e a renda que a venda de imóveis poderia me proporcionar.
Comecei a trabalhar no ramo através da venda de lotes financiados na região dos lados para pessoas de menor potencial financeiro e descobri que essa era a minha aptidão, pois além de conhecer pessoas, percebi que poderia ajudá-las a conquistar seus sonhos.
Hoje possuo a JSI Imóveis há 23 anos, passamos por diversos momentos de crise no mercado e sabemos que com otimismo e ajuda mútua podemos enfrentar essa do Coronavírus também. Sei da luta que foi para sair de um local sem perspectiva a me tornar um empresário desse ramo, através da minha história procuro inspirar novas histórias de sucesso”.
Ser filho de pai preto e crescer é uma complexidade e um tremendo aprendizado.
São poucos os meus amigos que têm histórias 100% boas sobre seus pais. Muitos poucos. Essa história sempre têm dois lados da morada que a gente vai entendendo quando crescemos, no silêncio. Analisando a sociedade que vivendo e tentando se colocar no lugar do outro.
Se a gente voltar pra época da escravidão a gente rápido deduz que pais pretos não tinham tempo, estrutura e felicidade para quererem ser pais. E isso se carrega até hoje. São tantas porradas que quando a gente nasce, já está tudo planejado: vai repetir a mesma fórmula que eu, porque se não a sociedade vai engolir ele. Isso quando não fogem. Já as mães pretas… outros 500, mesmo passando pelo mesmo rolê… outros 500. Não é atoa que elas movimentão o mundo.
E esse filme, Notas de Rebeldia, da Netflix mostra muito bem isso.
O longa é sobre pais, autoproteção, medos, frustrações, sonhos compartilhados, masculinidades. AMOR!! Que filme. Que cura!!
Eu podia falar que é um filme com uma família preta bem sucedida, sem esteriótipos, um filme que rema total contra a maré em todos os sentidos. Roteiro, direção e atuação. Só assistam. Assistam com seus pais.
Sobre Notas de Rebeldia
Para realizar o sonho de se tornar sommelier, Elijah (Mamoudou Athie) antes precisa lidar com as expectativas de seu pai, que espera que ele toque a churrascaria da família.
Com Mamoudou Athie, Courtney B. Vance e Niecy Nash. Roteiro e direção de Prentice Penny.
Em um programa do canal LCI, da França, dois médicos conversavam sobre a possibilidade de a vacina BCG poder combater o novo coronavírus. Um deles, então, propôs que os testes deveriam ser feitos no continente africano, “onde não há máscaras nem tratamento nem reanimação”.
Drogba, Eto’o e Demba Ba, três das maiores referências do futebol africano neste século, se juntaram para mostrar revolta com a fala dos médicos na TV francesa. Eles usaram as redes sociais para desabafar sobre o preconceito.
Demba Ba, fez uma postagem chamando a atenção para o preconceito demonstrado na fala, Eto’o comentou na sequência. Depois, foi a vez de Drogba se pronunciar em suas redes sociais. Em texto mais longo, o marfinense afirmou que a “a África não é um laboratório de testes” e que as falas dos médicos são racistas e humilhantes. E pediu que todos ajudem a combater a COVID-19 também no continente.
“Nos deixe nos salvar deste vírus louco, que está abalando a economia mundial e devastando a saúde da população pelo mundo. Não tomem os africanos como cobaias humanas! É absolutamente nojento… Os líderes africanos têm a responsabilidade de proteger a população dessas conspirações horríveis. Que Deus nos proteja, escreveu o ex-jogador”.
Let us save ourselves from this crazy virus that is plummeting the world economy and ravaging populations health worldwide. Do not take African people as human guinnea pigs! It’s absolutely disgusting…
Há algum tempo nós estamos acompanhando a trajetória dos nossos no Big Brother Brasil, que além de sofrerem uma perseguição que é explicada por “falta de afinidade” precisam enfrentar momentos de puro constrangimento devido as falas das brancas da casa.
E ontem não foi diferente, Thelma soltou um sorriso amarelo e teve que se explicar diante da pergunta da sister Gizelly, que questionou se ela usava barro em vez de base para se maquiar.
Segundos de silêncio, e alguns sorrisos se desfizeram. Mas, gargalhadas dominaram o quarto.
Thelma, que riu de constrangimento respondeu “É a minha base gente” Gizelly e Gabi continuaram fazendo piadas sobre a tonalidade do produto espalhado no lençol. E ao notar o desconforto no tom de Thelma, Gizelly tenta amenizar a situação “Não é a cor, é a quantidade”.
Muitas pessoas estão usando o termo “Racismo estrutural” na tentativa de inocentar Gizelly, ou até mesmo dizendo que a sister realmente se referiu a quantidade de base que a Thelma usa e não a cor.
Mas aos “passadores de pano”, esclarecemos que o termo utilizado por maquiadoras sobre o excesso de produto é “reboco” nunca foi “barro”.
E para relembrar: Gizelly junto com Ivy ridicularizou e riu do pente garfo do Babu.
Este episódio com a Thelma despertou gatilhos em muitas mulheres pretas das redes sociais. Afinal, quantas mulheres negras já foram constrangidas em uma rodinha por suas amigas brancas? Muitas.
“Como você penteia esse cabelo?” “Tem base pro seu tom de pele?” ”Fulana deve usar pó de café como base” ”Por que não afina esse nariz com make?”
Piadas com nossos corpos, peles, cabelos e traços sempre foram recorrentes, intencionalmente ou não isto é racismo.
Mulheres brancas sendo racistas e ridicularizando suas amigas pretas não devem ser absolvidas de culpa com a justificativa de que “foi só uma fala racista” a pessoa que reproduziu a tal fala deve se responsabilizar por ela.
Em casos como estes notamos o esforço da branquitude em encontrar justificativas para o racismo, seja em falas ou atitudes. E aí se nota que algo está muito errado.
No último dia 30 de março, fomos surpreendidos pelo rapper baiano Baco Exu do Blues com o lançamento do seu novo EP “não tem bacanal na quarentena”, gravado em apenas 3 dias em estúdio montado na sua casa.
Pra quem não sabe, ele pretendia lançar seu novo álbum – Bacanal – no primeiro semestre de 2020, mas foi adiado por conta da pandemia provocada pelo coronavírus. Então, não tem bacanal na quarentena.
Inspirado pelo isolamento social, o EP é composto por 9 faixas e aborda o momento atual do planeta em meio à pandemia, traz críticas ao governo brasileiro, menções aos constantes panelaços, a Babu Santana e Cardi B, que recentemente viralizou nas redes com um vídeo falando sobre o “Corona Vairus” e as sempre necessárias críticas sociais que são recorrentes no trabalho de Baco.
Entre as colaborações, estão artistas como 1LUM3, Maya, Lellê, Aisha e Dactes.
Na faixa 8 –“Tropa do Babu”, o rapper faz menção a uma fala de Babu Santana, que está confinado no BBB:
“O mundo passou por cada coisa
Você ainda se surpreende com o mundo?
O quê que foi o nazismo? O quê que foi o nazismo?
O quê que foi a escravidão? Você ainda se espanta com o mundo?
O quê que são as favelas? E você ainda se espanta com o mundo?
Não se espante! Segure na sua convicção
Que a gente, o mundo precisa de pessoas com convicções”.
Na última faixa do EP – “Amo Cardi B e Odeio Bozo” Baco Exu do Blues rima: “O papa é pop, quarentena é pop e Cardi B fez mais que o presidente” e traz uma participação especial da cantora.
(Créditos: Reprodução)
A capa do EP traz um urso de máscara descartável ao lado de uma embalagem de álcool gel 70.
O trabalho está disponível no YouTube e nas plataformas musicais:
Jovem Preto Rico (prod. JLZ)
Tudo Vai Dar Certo (part. 1LUM3 / prod. DKVPZ)
Ela É Gostosa Pra Caralho (part Maya / prod. Nansy Silvz)
Preso Em Casa Cheio de Tesão (part. Lelle / prod. Nansy Silvz e PG)
Humanos Não Machucam Deuses (prod. Nansy Silvz)
O Sol Mais Quente (part. Aisha / prod. Nansy Silvz)
Dedo No Cu e Gritaria (part. Celo Dut, Piva e Vírus / prod. DKVPZ)
NegraLi e Cidade Negra - Crédito: Reprodução Instagram
O cabelo crespo uma vez foi odiado pelas próprias pessoas negras. Essa repulsa ao natural foi construída pela régua eurocêntrica de beleza . Sobretudo nos anos 2000, os cabelos cacheados e crespos se tornaram os mais buscados na Internet e praticamente sustentam o mercado de produtos capilares. Como isso acontece?
A mudança veio a partir do “Black is Beautiful” , movimento do ativismo afro-americano nos anos 60 e 70, onde a própria comunidade negra resolveu abraçar o que foi odiado, trazendo acolhimento a um tipo de beleza demonizada por pessoas brancas. O nosso cabelo natural sempre foi crespo, mas hoje ele tem um novo significado fruto de reflexões das vítimas de racismo.
O mesmo acontece com a palavra negro que “a Internet” decidiu cancelar por conta de um vídeo do ator Babu, que faz todo sentido, tem alguns dados reais, mas ignora aspectos brasileiros do ponto de vista semântico. A real é que é possível usar os dois termos. Tá tudo bem.
Se vier gente de fora tentando te ensinar a como falar de si mesmo, escute com educação, mas não ignore a jornada que seu povo atravessou no Brasil. A gente não tem tempo para lidar com opressão linguistica importada.
O que esse texto aqui pretende é mostrar que a palavra negro tem um valor revolucionário para uma geração de afro-brasileiros que, até então, se definiam como morenos, entre outras dezenas de nome, por medo ou vergonha da sua origem africana.
Prova disso são os 10 motivos que destaco abaixo:
1) Site Mundo Negro
Sim vamos dar biscoito para gente. O site Mundo Negro foi o primeiro de portal de notícias brasileiro criado para comunidade negra nascido no final dos anos 90, mas que deslanchou no começo dos anos 2000. Antes de Redes Sociais, influenciadores negros, arrobas e hashtags, a gente estava aqui sustentando o termo negro que era quase ofensivo até mesmo entre os nosso na época. Fomos ameaçados de morte, hackeados, derrubados, mas estamos firmes e fortes sendo a única mídia preta com selo de verificação nas principais redes sociais e o principal: mudando a vida dos nossos por meio das notícias que pautam até a grande mídia.
2) Teatro Experimental do Negro
Grupo fundado por Abdias Nascimento com participação de Ruth de Souza e outros atores negros que sem esse projeto, a gente provavelmente não os conheceria.
Nascido em 1944, no Rio de Janeiro, o TEN tinha a proposta de valorização social do negro e da cultura afro-brasileira por meio da educação e arte, criando um novo estilo de dramaturgia, com uma estética própria, não uma mera recriação do que se produzia em outros países.
3) Movimento Negro Unificado
Se a vida de ativista negro já está difícil com esse atual presidente, imagine o que significou criar, do zero, um grupo negro com enfoque político durante a ditadura militar. O Movimento Negro Unificado (MNU) foi pioneiro na luta do Povo Negro no Brasil. Ele foi fundado em 18 de junho de 1978 e foi lançado publicamente no dia 7 de julho (do mesmo ano) em evento nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo em pleno regime militar.
4) NegraLi
Um dos principais nomes do Rap Nacional. Consenso pelo talento, mas também pela postura de uma mulher que se ascendeu financeiramente, mas não esqueceu de onde veio. Suas músicas falam da quebrada, do ser mulher, sempre trazendo poesia a cinzenta vida de quem mora na periferia. NegraLi representa a mulher negra brasileira contemporânea e consciente.
5) Um Sorriso Negro
Esse é um hino que mostra que a felicidade negra é a resistência. “Negro é a raiz da liberdade”, trecho imortalizado pela voz de Ivone Lara ( autoria Adilson Barbado, Jair de Carvalho e Jorge Portela ) deixa o nosso coração sempre quentinho.
6) Negro Drama
O grupo de Rap mais famoso do Brasil usa em suas letras o termo negro e preto. E se eles fazem isso a gente também pode, né?
Negro Drama é uma das músicas mais famosas do Racionais MC’s e mudar para Preto Drama além de não ter necessidade, não mudaria nada no sentido da letra.
7) Camiseta 100% Negro e o “Preto é cor, negro é raça “
Quem foi adolescente ou estava na casa dos 20 anos, nos anos 90 sabe do auê que foi quando as camisetas 100% negro viraram tendência na comunidade negra. Havia ainda o slogan ‘Preto é cor, negro é raça”, mostrando um momento singular da identidade negra brasileira. A branquitude se revoltou, inclusive, fazendo camisetas para desmerecer o nosso amor próprio.
8) Cidade Negra
O maior grupo de reggae brasileiro, com muitas músicas exaltando o amor e a negritude. O Cidade Negra foi a minha primeira referência brasileira de dreads e mostram o lado poético de grupos compostos por homens, fora do cenário do samba e rap.
9) Grupo Raça Negra
O pagode salvou a saúde mental de muitos jovens negros dos anos 90 e começo dos 2000. Os grupos falavam da nossa realidade por meio de canções de amor, os músicos negros de origem periférica ganham espaços grandes em importantes programas de televisão. Se chamar Raça Negra naquela época foi algo muito corajoso e que deu certo.
10) “A carne mais barata do mercado é a carne negra”
Vai ter coragem de dizer que Elza Soares tem a mente colonizada ao usar o termo negro? Essa música tem uma das letras que mais representa a realidade negro-genocida do Brasil. A carne negra, a pele negra, os corpos negros, são a base da pirâmide econômica, mas estão no topo de todas as estatísticas que mensuram homicídio e violência.
As falas do Babu sobre questões raciais são bem importantes, mas a gente precisa entender o contexto das coisas. Somos plurais e brasileiros. Esse é o ponto de partida para essa discussão.
Quer mais embasamento teórico para essa discussão, leia o artigo do nosso colunista Ale Santos.
O querido Babu Santana conseguiu movimentar as redes sociais com uma grande discussão no dia de ontem, graças a uma explicação sobre sua preferência pelo termo preto e não, Negro. O volume exagerado das discussões e de pessoas tomando para si o entendimento apresentado em um programa popular de televisão reflete uma triste realidade: a maior parte das pessoas do nosso país não tem conhecimento algum sobre a realidade de pessoas pretas no país. É um exército de gente que passa a vida absorvendo conhecimentos variados e até se formaram em universidades, mas não tomam ciência que existe uma experiência de vida distinta da chamada “padrão”.
As contradições sobre o uso de Negro ou Preto não são novas. Porém, quando alguma dessas pessoas são confrontadas com um tipo de explicação como a de Babu, elas podem reproduzir um comportamento problemático: o único amigo negro. Basicamente eles se confortam na única, talvez a primeira, explicação que aprendem como se fosse uma máxima da sociedade e continuam ignorando o desconhecimento sobre toda a discussão.
A gente vẽ esse comportamento, por exemplo, com o vídeo do Morgan Freeman sobre a consciência humana, levado ao pé da letra por gente como um escudo rígido para proteger sua preguiça e má vontade de entender a questão de forma mais ampla ou também com um vídeo, bem difundido, de Nabby Clifford falando como eram pejorativas, as expressões que encontrou no Brasil “lista negra, magia negra… mercado negro”
Nabby não está errado em sua observação, mas reparem que no início do vídeo ele declara sua identidade dizendo “eu sou Africano, de Gana”. Ocasionalmente, se você chama alguém assim de negro ele retorna com “minha cor não é negra, minha cor é preta”, todavia a discussão não é, explicitamente, sobre a cor de alguém.
Como bem lembrado por Babu, antes, e até hoje, em alguns lugares na África, o termo Negro não faz sentido, pois eles são Yorubás, Nigerianos, Egípcios, Axantes, Dogons, Khoisan… ou seja, eles não precisam de um termo étnico, pois já estão compreendidos dentro de uma identidade africana. Identidade que foi negada para os seus descendentes em diáspora. Sem conexão com o país ou grupo étnico original, alguns movimentos têm trabalhado por décadas para abraçar essas pessoas que estavam no limbo da auto-afirmação. Por isso a gente parte para uma discussão que vai além da etimologia e chega ao campo da semântica. Um exemplo simples da diferença entre esses conceitos é a palavra macaco, a etimologia descreve que o vocábulo se refere à uma espécie de primatas. Então porque ela se tornou ofensiva aos negros? A resposta disso reside na construção histórica do racismo que comparava o crânio de pessoas pretas com esses tipos de animais, chegando ao cúmulo de aprisionar um homem em um zoológico na jaula de um chimpanzé (Ota benga) para validar a teoria racial da época.
Agora, o princípio do Negro é a palavra latina Niger, que significa “escuro ou preto”, o mesmo radical que deu origem ao nome da Nigéria (Nigerianos são, basicamente “nigririanos”). Como lembra a psicóloga e escritora Grada Kilomba em seu livro “Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano”, apesar de ser essa a sua gênese, logo nos primeiros séculos após as colonizações, passou a ser utilizado nos EUA e na Europa como ofensa para “pessoas de cor” que foram escravizadas. Um entendimento, provavelmente irrigado pela visão cristã que antagonizava a luz e sombra como símbolos de Deus ou o Demônio. Kilomba afirma que o significado atribuído carrega uma “cadeia de termos associados à palavra em sí: primitividade, animalidade, ignorância, preguiça, sujeira…”. Uma construção conceitual que demorou séculos e sofreu diversas variações, como neger, negro, nigger, nigrum, noir, nègre – os dois últimos sendo as definições francesas que compartilhavam a mesma compreensão norte-americana que resultou na palavra Nigga, a N-Word.
A história da escravidão em solo estadunidense atribuiu violência à palavra negro, por isso a intelectualidade preta do país construiu sua identidade como Black people ou Afro-Americanos – a lei de uma gota de sangue permitiu que isso funcionasse, pois o país materializou em leis segregacionistas qualquer pessoa descendente de um africano, mesmo que seus traços não sejam tão aparentes.
Enquanto aqui em nosso país, isso se mostrou complexo demais, pois existem muitas pessoas pobres, lidas como brancas, que podem ter uma descendência (mesmo que distante) de um negro. As definições que surgiram de sociólogos e antropólogos racistas na época do império e durante o movimento eugenista trabalharam para impedir a construção de uma maioria dentro do país. Era comum que uma pessoa escravizada, mesmo com pele escura, assumisse a identificação de parda ou, quando os traços africanos não eram intensos, de branco para se afastar da classe social mais preterida. – Vale lembrar aqui de Joaquim Nabucco que descreveu seu amigo Machado de Assis como um branco, tipo grego.
A negação da negritude em solo brasileiro foi absurda, o país não queria vender a ideia de que aqui existia um número exorbitante de Africanos e pretos, nossa sociedade partiu ora da descendência, ora da marca para determinar que essas pessoas seriam “cabras, mestiças, cafuzas, crioulas, boçais, mulatas…”, algumas dessas palavras, usadas como eufemismos para negar aqui a existência de povos africanos, ganharam maior utilização na hierarquização da sociedade que as utilizadas em outras sociedades escravocratas (neger, negro, nigger, nigrum, noir, nègre – aliás aqui, o relativo à ofensa Nigga é Crioulo). Os brasileiros podiam ser qualquer coisa, menos negros, como escreveu um dos maiores propagadores do racismo científico no país, Raimundo Nina Rodrigues: “A supremacia imediata ou mediata da Raça negra” era considerada nociva à nacionalidade brasileira. Para isso, as oligarquias e a elite que estava no poder implantou o projeto da consciência eugênica e vendeu a ideia de que os mestiços não eram negros.
“Negro era sujo, eu era limpa; negro era burro, eu era inteligente; era morar na favela e eu não morava e, sobretudo, negro tinha os lábios grossos e eu não tinha. Eu era mulata, ainda tinha esperança de me salvar” – Relato encontrado no livro Tornar-se Negro.
Foi a partir desse contexto que os movimentos negros criaram uma tensão contrária, trabalhando não apenas para ressignificar o sentido de ser negro no país, mas abrangendo todos os descendentes de africanos que eram chamados por vários termos racistas no passado. Essa era a forma de pesar na balança e “mostrar o peso econômico da massa negra organizada”, como escreveu José Correia Leite, um dos mais importantes nomes da história negra brasileira. Eu sempre, sempre trago o trecho de um dos livros mais importantes da intelectualidade preta brasileira, “O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado”. Nele o autor nos ensina: Um brasileiro é designado preto, negro, moreno, mulato, crioulo, pardo, mestiço, cabra – ou qualquer outro eufemismo; e o que todo mundo compreende imediatamente é que se trata de um homem de cor, um negro não importa a gradação da cor da sua pele.
Esses cabras, pardos, mulatos seriam os equivalentes aos descendentes de Yorubás, Nigerianos, Egípcios, Axantes, Dogons, que perderam sua identidade na escravidão brasileira. Assim as lutas dos movimentos nacionais de igualdade racial assumiram o termo negro como um Ideal de Ego, um conceito evidenciado por Neusa Santos Souza no livro que é um marco para a psicologia social negra em nosso país, Tornar-se Negro.
Esse foi um entendimento coletivo, construído há muitas mãos e por décadas. Nomes como Isildinha Baptista e Virgínia Bicudo, fizeram as bases para o estudo da perspectiva sobre a realidade dos negros brasileiros e trouxeram evidências que os padrões fenotípicos (os traços) são decisivos no nosso plano das relações interpessoais.
Em algum momento outros grupos em outros países também estabeleceram um significado para sua própria negritude. No Senegal e em outros países que foram colonizados pela França, surgiu o movimento literário Négritude que negava a colonização e ressalta a cultura negra. Também há o episódio emblemático da libertação do Haiti e sua constituição de 1805 que determinava “todos os cidadãos haitianos, de aqui em diante, serão conhecidos pela denominação genérica de negros” (les Haïtiens ne seront désormais connus que sous la dénomination génériques de Noirs.)
Enfim, a construção da identidade negra, a negritude que discutimos é um conceito brasileiro diante de todo o contexto vivido pelos movimentos em nossa longa história. Agora vamos voltar ao ponto mais importante da discussão, desenhada pela cena em que Babu discorre sobre o tema com as participantes do BBB. Quanto dessa e de outras histórias sobre os negros do nosso país você conhece? Quanto disso tudo que conversamos você aprendeu na escola ou nos debates políticos da sua emissora preferida?
Negros vivem em dois mundos: nós conhecemos a realidade que uma sociedade racista nos impõe e também observamos a realidade que os brancos ao nosso redor vivem, nós lemos e estudamos seus filósofos, ouvimos suas músicas, assistimos seus pontos de vistas em programas de TV, conhecemos a história de momentos dramáticos dos povos brancos, entendemos de mitologia grega, nórdica, sabemos da linhagem da rainha da Inglaterra e mesmo assim temos que explicar coisas tão triviais do tipo “posso chamar alguém de preto?”
Agradeço imensamente ao Babu, pois se você leu esse texto e descobriu coisas que nem imaginava que existia, foi por conta da discussão que ele começou. Sobre a resposta da pergunta, ela varia. Tem gente que gosta de ser chamada de preta, tem gente que prefere ser identificada como negra. Na dúvida, faça como a gente faz com qualquer pessoa branca, só chama pelo nome.
Bruno Candido, Carmem Virgínia e Michelle Fernandes - Crédito (Reprodução Facebook)
A criatividade é uma das grandes virtudes da comunidade negra. Inovar agora é questão de sobrevivência e vamos apresentar aqui três casos que podem te dar uma luz num túnel aparentemente sem fim, mas que tem saída sim.
Carmem Virgínia – Altar Cozinha Ancestral
“Eu mulher preta, favelada, sem nenhum tostão e com um sonho de ter um Altar! Realizo isso com 15 mil reais, em pouco tempo transformo esse lugar num dos restaurantes mais falados do Brasil. A minha luta foi sempre tentar transformar essa falácia toda em volta de mim em dinheiro!”.
Carmem Virgínia ficou conhecida nacionalmente por sua função de jurada no programa Cozinheiros em Ação, no canal GNT.
O seu restaurante Altar Cozinha Ancestral, em Recife, foi altamente impactado por conta do surto do coronavírus. Sua primeira opção foi fechar as portas para evitar o contágio e entregar sua comida por meio do serviço de delivery, mas foi sua fé que a fez optar em manter as pessoas que ela gosta em casa e ir até seus clientes.
Muito religiosa, Carmem foi escutar os que seus orixás e ela resolveu fechar as portas por agora e fazem atendimentos em domicílio.
“ Vou diminuir, tornar mais íntimo, acolhedor, cuidar das vidas que querem se alimentar de minha comida! Também escolherei meus clientes. Vou fazer uma revolução que começa hoje! Decidi isso porque não há dinheiro que pague vida, eu não tenho cabeça pra lidar com consciência pesada por estar tirando pessoas que gosto de dentro de casa num momento desse”, explica a Chef.
https://www.instagram.com/p/B-aLNfznx4E/
Contatos da Carmem Virgínia
No Instagram: @carmemvirginia
E-mail: donacarmemvirginia@gmail.com
Bruno Cândido – Candido Advocacia
Bruno Cândido é um dos nomes mais conhecidos dentro do ativismo negro sobretudo em atender vítimas de casos de racismo, mas seu trabalho vai além.
“O Escritório é especializado em casos discriminatórios, desde a discriminação sofrida por pessoa a empreendimentos que tem a equidade e diversidade como pilar, em especial afroempreendedores oferecendo assessoria jurídica comercial e plena. Com a pandemia o impacto negativo foi imediato, abalando a economia, cancelando e suspendendo contratos, desde o início do isolamento até o momento foram cancelados 3 contratos, 4 suspensos e 2 clientes retroagiram não fechamento de propostas”, detalha Cândido.
Junto com sua equipe Bruno quer montar planos especiais, pré pagos, mas com preços acessíveis, para pessoas que precisam da sua assessoria. Vale lembrar que essa época de crise pode gerar várias situações onde a atuação de um advogado se faz necessária. A ideia a princípio é fazer um pacote de serviços de forma que ele ajude seus clientes, mas também garanta uma receita para poder manter seus funcionários.
“O momento é crítico, e conforme a história cíclica das crises econômicas e população de países em latente desigualdade, a assistência jurídica se revela mais necessária que nunca, as áreas jurídicas trabalhista, previdenciária, tributária, família, relação de consumo e criminal terão demandas em massa por nítidas violações de direitos fundamentais e sociais inclusive a sobrevivência de pequenos e médios empresários” alerta o advogado.
Michelle Fernandes é uma das afroempreendedoras mais famosas do Brasil por conta de sua forma inovadora de empreender.
Seu negócio vai além do vender turbantes. Ela vai para eventos, feiras, rodas de conversa, ensinar mulheres negras a abraçar sua negritude ensinando como usar o acessório de forma muito especial.
https://www.instagram.com/p/B9QF5uVFbpi/
A pandemia não poupou as vendas da empresária que agora faz uma campanha de financiamento coletivo para manter seu negócio pelos próximos 5 meses.
Uma doação de R$ 200 por exemplo, te dá um ingresso no workshop online da marca, voucher de compras no valor de $50 e o e-book Rainha Krioula.