No livro “14 de Maio”, Hélio Santos contesta o colorismo com dados e defende a união entre pardos e pretos

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No livro “14 de Maio”, Hélio Santos contesta o colorismo com dados e defende a união entre pardos e pretos
Helio Santos (Foto: Divulgação

Em entrevista ao Mundo Negro, um dos maiores intelectuais da questão racial no Brasil fala sobre sua nova obra, “14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo”

Temas ligados à questão racial são sempre garantia de engajamento nas redes sociais, com debates acalorados, julgamentos e acusações. Quando falamos de um país negro como o Brasil, falta discutir soluções embasadas em dados e em fatores históricos, por meio de conteúdos que reconheçam que a questão racial não deve ser tratada nesses fóruns públicos a partir de experiências pessoais, e sim como uma luta coletiva por igualdade.

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Hélio Santos, um dos nomes mais importantes para a reflexão sobre o Brasil negro na perspectiva social e econômica, traz em sua nova obra, 14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo, um conteúdo precioso e necessário. É a contribuição de quem viveu e estudou a negritude com profundidade e produz uma literatura ancorada em dados cruzados com aspectos históricos e políticos.

“Conclamo pessoas pardas e pretas, das mais diferentes tonalidades, a permanecermos juntas. Somos uma mesma família. Se não bastassem os dados socioeconômicos que nos vinculam como grupo historicamente discriminado, temos barreiras históricas, psicológicas e políticas a superar, e só as superaremos juntos. Não nos iludamos”, reflete o intelectual.

Santos é doutor em administração pela FEA-USP, professor e escritor. Pesquisador e ativista da questão racial, publicou o livro A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso (2000). Tem colaborado com diversas organizações da sociedade civil voltadas à equidade racial, como Oxfam Brasil, Instituto Ethos, Fundo Baobá e Pacto pela Democracia, entre outras. Atualmente, preside o Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra). É também Doutor Honoris Causa pela UFBA.

“Eu me formei ouvindo intelectuais negros como o professor Hélio Santos. A vida me deu a sorte de ser um de seus milhões de aprendizes”, diz o rapper Emicida no prefácio do livro.

Nesta entrevista, concedida à nossa editora-chefe Silvia Nascimento, ele explica a proposta da obra e fala sobre a influência das redes sociais nas lutas coletivas da comunidade negra, o impacto econômico do racismo e o pardismo, tema ao qual dedicou um capítulo completo do livro.

14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo terá um evento especial de lançamento em São Paulo:

Data: 23 de junho de 2026 (terça-feira)

Horário: 19h

Local: Itaú Cultural — Av. Paulista, 149, Bela Vista, São Paulo (SP)

Ingressos: retirada a partir da data do evento, às 12h, pelo site do Itaú Cultural (@itaucultural). Limite de 2 ingressos por pessoa.

1) Professor, o título do livro fala sobre o dia após a abolição, considerado “o mais longo da História”. Sua obra analisa o Brasil destacando o papel do movimento negro nas conquistas do nosso povo. Tenho a impressão de que a Geração Z, massivamente digital, por vezes desmerece antigas conquistas e cria teorias sobre questões que são consenso entre nossos acadêmicos e ativistas mais maduros. As redes sociais, na sua visão, têm contribuído para nossas lutas ou mais confundido?

O 14 de maio é uma alegoria que trabalho há muito tempo e, de fato, é um dia que ainda temos conosco. É o dia mais longo, e dele restam pedaços em qualquer cidade do país a que a gente vá. O livro tem um componente histórico, sem dúvida. É memória do movimento negro. Mas não abrimos mão de ser propositivos. Apresentamos sugestões e encaminhamentos, até porque acreditamos que as políticas afirmativas pontuais se esgotaram. Elas precisam alcançar outro patamar.

Sobre as redes sociais: a profusão de narrativas pulverizadas por essa revolução digital é um instrumento com que a minha geração não contou, mas que precisa se tornar uma ferramenta eficaz, e não um mero painel exibicionista. Proponho a ideia de desenvolvermos influenciadores orgânicos, aqueles e aquelas que trazem uma pegada que fortalece a autoestima e que buscam o empoderamento educacional, econômico e político.

Eu gosto da Geração Z. As pessoas mais velhas dessa geração ainda não têm 30 anos. São proativos, inovadores, gostam de causas, e já nascem na época da internet. Acredito que um jovem negro periférico tem condições de ser um influenciador orgânico, e isso é inovador. Hoje temos poucos. Algumas pessoas imaginam que ter milhões ou centenas de milhares de seguidores é, por si só, relevante. Será relevante se essa pessoa for sensibilizada nessa direção. Quanto aos que não estão, faço uma autocrítica: cabe a mim, a vários setores da sociedade e às organizações negras estimulá-los, atraí-los, desenvolver modelos em que eles se sintam bem. Vejo um grande potencial. Não podemos abdicar da juventude. A Geração Z, antes de ser um problema, é um grande potencial.

2) Falamos muito sobre o Pacto da Branquitude. O Pacto da Negritude ainda é uma utopia? Como as dificuldades econômicas, que mantêm a prosperidade distante de muitos de nós, dificultam nossa união enquanto povo?

Esta pergunta é muito mais complexa do que parece. O pacto da branquitude é um acordo não verbalizado pelo qual os descendentes de europeus mantêm privilégios. Ora, um pacto da negritude não pode ser o contrário, isto é, criar mecanismos para manter privilégios. Não teríamos como fazer isso, mesmo que desejássemos.

A gente não pode esquecer que, para cada dez anos de Brasil, sete se passaram sob a escravidão. As dificuldades econômicas e educacionais estão na base, na forma como a abolição se deu. O CEDRA, Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais, acaba de mostrar que, mantidas as atuais tendências e condições, só em 2399, daqui a 376 anos, a renda média do trabalhador negro se igualará à do trabalhador branco. Essa geração que está aí não está disposta a esperar quase quatro séculos.

Mas veja como o pacto da negritude tem de se dar: no campo político. Hoje, segundo o ex-ministro da Fazenda Haddad, temos uma evasão fiscal em torno de R$ 800 bilhões, isso sem considerar a sonegação. Não haverá recurso para desenvolver os programas massivos que defendo. As políticas afirmativas que temos hoje são importantes, mas não dão conta. Nós não somos o problema da desigualdade; somos parte da solução. O Brasil será aquele país gigante que ouvi celebrar a minha adolescência e juventude inteiras na medida em que a população negra tiver participação adequada. Isso pede uma nova cultura de desenvolvimento.

O nosso pacto da negritude não se parece com o da branquitude: este existe para preservar os brancos; aquele, para preservar o Brasil, porque redime a todos. Essa é a diferença.

3) O senhor dedicou um capítulo ao pardismo, conceito muito confundido com o de colorismo. A que o senhor atribui o crescimento desse movimento no Brasil?

A identificação negra vem desde o primeiro censo, de 1872, há 154 anos, portanto 16 anos antes do fim da escravidão. Ali foram definidas duas categorias: pretos e pardos. Essa distinção não foi pautada pelo movimento negro, como muitas vezes somos acusados. Quem conduziu aquele primeiro censo, ao criar as duas categorias, já intuía que a mistura era uma marca nossa, secular.

No centro dos equívocos dessa polêmica em torno da categoria parda está a ideia do colorismo. O colorismo, como sabemos, dispõe as discriminações raciais numa escala de cor: as pessoas de pele mais escura sofreriam mais discriminação e teriam menos oportunidades; as de pele mais clara, menos discriminação e mais oportunidades. No nosso livro, provo que isso é mentira. Apresentamos dados quantitativos que mostram que, no Brasil, não é verdade.

A primeira coisa que precisamos saber é que, pelo último censo, o Brasil tem 92 milhões de pardos e 21 milhões de pretos. Ou seja: para cada 100 afro-brasileiros, 82 são pardos e 18 são pretos.

4) Ainda sobre o tema, a que o senhor atribui o crescimento específico do movimento do pardismo nos últimos anos?

A autodeclaração, hoje utilizada em múltiplas instâncias da vida nacional, resulta de uma luta árdua e foi um dos ganhos políticos mais relevantes da epopeia contra o racismo. Antes de tudo, é preciso reconhecer que não vivemos um momento de crise da identidade racial. Ao longo do século XX, em particular nos anos 1980 e 1990, nossa identidade se firmou no sentido de unificar quem se autodeclara preto e pardo, constituindo o grupo afrodescendente, afro-brasileiro ou negro. Podemos usar qualquer uma dessas três denominações.

Desracializar uma sociedade descaradamente racista é o sonho de muita gente que sempre defende o Estado “neutro” para manter privilégios. Esse crescimento tem a ver com isso. É fundamental reconhecer, também, que o próprio ativismo negro tem contribuído para esse falso debate do colorismo. Os equívocos do pardismo incluem violências de algumas bancas contra pessoas pardas. É o que venho chamando de “ativismo de banca”: avaliadores que priorizam os pretos e vetam pardos legítimos. Esse ativismo é prejudicial e integra o que chamo, no capítulo, de equívocos do pardismo.

O que quero frisar é o seguinte: conclamo pessoas pardas e pretas, das mais diferentes tonalidades, a permanecermos juntas. Somos uma mesma família. Se não bastassem os dados socioeconômicos que nos vinculam como grupo historicamente discriminado, temos barreiras históricas, psicológicas e políticas a superar, e só as superaremos juntos. Não nos iludamos.

5) Neste momento global de retrocesso da diversidade, o que o senhor diria a quem acha que essa pauta está morrendo e não vale mais a pena lutar?

Hoje, no Brasil, os ativistas que batalham por diversidade e inclusão vêm sendo taxados de “identitários”, em tom de censura, sofrendo restrições à direita e também à esquerda. Ora, os marcadores de raça, gênero, geração, orientação sexual e outros não são meros cacoetes ideológicos, como o vendaval conservador soprado do Norte Global quer fazer crer. É preciso entender que diversidade não é salada de frutas: requer gestão.

Em 2023, a Suprema Corte dos Estados Unidos, de perfil bem conservador, vetou as cotas raciais nas universidades depois de mais de 50 anos de vigência. Desde então há uma cruzada contra essas políticas, reforçada pela eleição de Donald Trump. Não conheço maneira mais eficaz de operar contra a espécie humana do que se opor àquilo que me parece ser a sua decência: as diferenças, que consagram a nossa identidade.

Por outro lado, é preciso lembrar que, aqui no Brasil, as cotas raciais só foram formalmente autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal há 14 anos. Nós, do movimento negro, não defendemos “pautas identitárias”, termo impreciso, vago e malicioso. Defendemos, e continuaremos a defender, pautas afirmativas reparatórias. A diversidade racial é instrumento básico para o desenvolvimento do Brasil, até porque somos maioria. Esse discurso que aí circula foi importado e está mal colocado, embora muita gente navegue nessa onda. O movimento negro não é identitário: nossa pauta, repito, é afirmativa e reparatória.

Ficha técnica

Título: 14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo

Autor: Hélio Santos

Editora: Selo Zahar (Companhia das Letras)

Páginas: 160

Formato: 14 x 21 cm, brochura

Capa: Alceu Chiesorin Nunes

ISBN: 978-65-5979-273-3

Lançamento: 23 de junho de 2026

Preço (pré-venda): R$ 64,90

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