Gestação e o mito de que a mulher preta é mais forte

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Foto: Thinkstock

Uma década depois de ter sido a mãe eu me pego em dualidade comigo mesma entre querer ser mãe novamente e não querer lidar com tudo mais uma vez.

Após assistir o filme italiano “18 Presentes” que narra a história de Anna (Benedetta Porcaroli), uma garota que vai descobrindo a história da mãe, que morreu logo após seu nascimento, por meio de presentes deixados à ela para cada aniversário. Junto com as lembranças, há cartas que a guiarão em diferentes momentos da vida. Contando assim, de forma resumida, parece tranquilo, mas não se engane: o drama de 1h54 de duração pega muito mais pesado e eu entrei em colapso de tanto chorar.

A premissa do filme é verdadeira. O roteiro é inspirado na história da italiana Elisa Girotto. No dia do nascimento da filha, Anna, ela foi diagnosticada com um câncer de mama avançado. O casamento com o pai da menina, Alessio Vincenzotto, aconteceu um mês depois de receber a notícia. Sabendo da gravidade do caso, ela começou a preparar presentes para que fossem entregues à filha a cada aniversário, até atingir a maioridade. Elisa morreu aos 40 anos em setembro de 2017, pouco depois de Anna completar 1 ano de vida.

Ainda assim, não parece ter motivos suficientes para desencadear uma crise de choro, não é mesmo?

Bom, tentarei explicar, mas fui expulsa de casa aos 16 anos quando engravidei. Passei anos sem falar com a minha mãe. Tive uma gravidez difícil, de muito choro. Não tenho sequer uma foto grávida e preciso me esforçar pra me lembrar de como era a minha barriga durante os 9 meses de gestação.

E quando chegou a hora mais importante na vida de uma mãe, a violência obstétrica veio e me atingiu em cheio.

Voltemos rapidamente à noite de domingo, dia 16 de maio de 2010. Nessa data por volta das 23h eu comecei a sentir dores de contração. A meia noite fui para o hospital. Passei a madrugada em uma pré sala de parto, ao meu lado tinha uma mulher branca mais velha, também em trabalho de parto.

Duas enfermeiras nos acompanhavam madrugada a dentro. A moça mais velha gritava muito de dor, eu apenas me retraia. As enfermeiras passavam de um lado para o outro falando “a novinha vai ter o bebê primeiro que você”, “para de gritar, seja forte como ela”, “a moreninha é forte, nem grita”. Às 5h50 meu filho nasceu, ali, na sala de pré parto, depois de eu gritar falando “ele vai nascer”. Eu nem sei como é uma sala de parto. Permaneci ali até as 8h30, suja de sangue com o meu filho no colo.

Hoje aos 26 anos e depois de contar essa história inúmeras vezes de como eu praticamente fiz o meu parto, consigo enxergar a violência que sofri. A tal da violência obstétrica sobre a mulher, e principalmente sobre a mulher preta por ser considerada mais forte.

Voltando para o filme, ele desencadeou todo aquele choro porque hoje, uma década depois, eu sinto uma imensa vontade de ser mãe novamente. Ver no filme como aquela gravidez foi desejada, planejada e cultuada foi como um murro no meu estômago mostrando que eu nunca tive nada disso.

Coisa que talvez fosse, digamos, simples de resolver se não fosse um grande cisto no ovário em 2016 e lá fui eu passar por uma cirurgia, quase que uma cesariana com direito a corte e a famosa anestesia raque e um terrível pós operatório. Segundo o médico são poucas as minhas chances de voltar a engravidar.

Todo esse texto são reverberações que vem de dentro pra fora de mim. Sem adolescência, sem uma gravidez planejada e sem poder ter uma lembrança bonita do considero ser o momento mais importante na vida de uma mulher, o nascimento do seu filho.

A mulher preta realmente é muito forte.

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