“Facão” é uma pequena carta de amor ao cinema e as conexões humanas que arte proporciona

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A produção audiovisual brasileira feita por cineastas negros tem ganhado espaço na Wolo TV e revelado pequenas pérolas que costumam passar batidas pelo grande público. Nessa crescente coleção de preciosidades está “Facão”, curta-metragem (ou média-metragem dependendo do país) dirigido por Camila Hepplin.

Facão, interpretado por Heraldo de Deus  é jovem um reservado e solitário, passando por um momento de dificuldade, se arrisca em pequenos delitos para sobreviver. Ao assaltar Pietra (Aíla Oliveira), uma jovem apaixonada por cinema, tem sua vida transformada pelos filmes que encontrou na mochila roubada.

Imagem: Instagram/Camila Hepplin

A sutileza narrativa da produção ecoa por todos os vinte minutos de duração da obra. Logo no início, a apressada e atrasada estudante enche sua mochila de DVDs, cena que é seguida pelo olhar fixo da personagem durante a projeção de um filme na escola. Se estabelece que estamos acompanhando uma apaixonada por cinema sem que isso precise ser dito. O mesmo acontece com a apresentação de Facão, que comete furtos para sobreviver, mas em nenhum momento é mostrado descontrolado e agressivo.

Quando Facão se encontra com Pietra e leva sua mochila, encontra os filmes da garota e essa é a liga para a construção de uma relação que começa a se desenvolver para além do primeiro e traumatizante encontro. Confrontado pela menina, decidida a ter seus filmes de volta, Facão se despe do estereótipo que seu apelido lhe confere.

Os diálogos se instalam com os empréstimos subsequentes de filmes do personagem de Heraldo com Pietra. A paixão pelo cinema estabelece uma conexão que valida a aproximação entre essas pessoas que até aquele instante decidiram lidar (ou foram compelidos?) com a realidade do preto periférico de formas diferentes.  Em determinado momento, após assistir “Faça a Coisa Certa”, de Spike Lee, Facão diz a Pietra que ficou feliz por ver tanta gente preta em um filme e isso soa como uma mensagem ao público do próprio filme de Hepplin. É muito bom ver tanta gente preta produzindo cinema.

Tanto Heraldo de Deus quanto Aíla Oliveira imprimem expressividade parecidas com a que vimos nos atores iniciantes de “Cidade de Deus”. E iniciante aqui, entendam como um elogio à crueza que torna atuação verossímil e menos teatral.

“Facão” é uma pequena carta de amor ao cinema e o quanto ele pode fazer para estabelecer conexões entre as pessoas.

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