Religiosos de matrizes africanas – candomblé, umbanda, quimbanda – são as que mais sofrem com a intolerância religiosa. Segundo os últimos dados coletados pelo Disque 100 (número de telefone do governo para receber denúncias de violações de direitos humanos), das 121 denúncias feitas no primeiro semestre de 2019, 61 eram apenas das religiões de matriz africana. Em seguida, vem os espíritas com 18 denúncias.

Neste 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o MUNDO NEGRO entrevistou o Babalorixá Sidnei de Xangô, 54, também Professor Dr. em Semiótica e Linguística Geral pela USP (Universidade de São Paulo). Morador de Mauá, no Grande ABC de São Paulo, o sacerdote anda pelos lugares públicos com um cajado de Exú, sempre atraindo o carinho dos fiéis de matrizes africanas ou o desprezo dos racistas religiosos.

“Desde a invasão do continente africano para escravização, Exú foi colocado nessa posição de demônio porque o colonizador precisava, de acordo com a cultura dele, espelhar a figura de alguém responsável por todos os males das suas próprias escolhas […] Nós andamos com Exú justamente para naturalizar a sua existência, que faz parte da identidade nacional, já que foram 5 milhões de pretos e pretas escravizades”, explica o professor Sidnei, pertencente ao movimento “Exú Não É Demônio” e autor do livro “Intolerância Religiosa“.

Babalorixá Sidnei de Xangô com o cajado de Exú (Foto: Robson Khalaf)

Leia a entrevista completa abaixo:

Você sempre andou pelos estabelecimentos com a escultura de Exú? Qual o simbolismo que você passa quando chega desta forma em lugares majoritariamente brancos e intolerantes?

Exú é um dos principais símbolos escolhidos pelo racismo religioso para sofrer a satanização. Desde a invasão do continente africano para escravização, Exú foi colocado nessa posição de demônio porque o colonizador precisava, de acordo com a cultura dele, espelhar a figura de alguém responsável por todos os males das suas próprias escolhas. Na cultura yorubá não tem uma figura ancestral, do plano sagrado, para responsabilizar pelas nossas escolhas. O mal entre os yorubás, ele é gerado individual ou coletivamente. E começou há alguns anos o movimento, inclusive no continente africano, de: “Exú Não é Demônio”. Nós, alguns sacerdotes de religiões de matriz africana no Brasil – umbanda, candomblé, quimbanda – decidimos andar com um cajado de Exú e eu sou o representante desse movimento em São Paulo. Nós andamos com Exú justamente para naturalizar a sua existência, que faz parte da identididade nacional, já que foram 5 milhões de pretos e pretas escravizades. Nós andamos com o cajado em madeira, feita por artesões yorubás consagrada. Em qualquer lugar que eu vou: aeroporto, restaurantes, eventos, ando com o pai Exú, e outras lideranças de terreiro também. Às vezes a recepção é positiva, algumas pessoas já conhecem, nós nos identificamos como religiosos de matriz africana, há pessoas que veem e nos abraçam, outras pessoas com um pouco mais de cultura e conhecimento do continente africano, da sua arte, vem e quer tirar fotos. Mas a maioria quer sempre oferecer uma oração. A maioria vem reproduzir o que já sabemos que é o racismo religioso. E sobre tudo, se ver uma pessoa preta carregando o pai Exú, imediatamente ela visualiza naquela pessoa o demônio e quer satanizar, exorcizar. Alguns desviam, alguns oferecem oração – os cristãos fundamentalistas -, alguns falam aquelas palavras “tá repreendido em nome de Jesus”, “tá amarrado em nome de Jesus”. Há três categorias de manifestação: racismo religioso, admiração, e a outra é identificação das pessoas que fazem parte da cultura.

Babalorixá Sidnei de Xangô da Comunidade da Compreensão e da Restauração Ile Ase Sango, em Suzano – SP (Foto: Robson Khalaf)

Recentemente, você foi alvo de ataques de intolerantes religiosos nas redes sociais e expôs os comentários. Além da exposição feita, é comum ataques similares nas redes ou nas ruas?

Eu sou um Babalorixá, um sacerdote, eu não sou diferente de outras autoridades religiosas, de outras autoridades eclesiásticas, autoridades pastorais, eu sou uma autoridade com legitimidade ancestral, com uma história no candomblé, iniciado com mais de 35 anos de trajetória, estudos, formação. Entretanto as pessoas não respeitam esta minha legitimidade. Então não é não-raro, eu sofro sim eventos de racismo religioso, por conta de estar com as minhas insígnias, colares, roupas, o pai Exú. Isso é, sendo um homem preto, então isso tá muito marcado porque em alguma medida ser um sacerdote de liderança de matriz africana, coloca sobre mim mais uma camada da negritude, da qual eu tenho muito orgulho, entretanto num país racista, isso é estigmatizado. Então não-raro as pessoas se levantam e saem de perto de mim, dependendo do lugar que eu me sento, as pessoas olham com espanto, as pessoas repreendem usando o seu discurso religioso. Eu já fui inclusive assertivo, refutando esse tipo de comportamento e a pessoa vem e diz “eu posso fazer uma oração por você”, e eu perguntei um dia a um menino que veio me oferecer no Aeroporto de Congonhas “por que você acha que eu preciso da sua oração? Por que você acha que pode fazer alguma coisa por um homem preto, sacerdote, autoridade tradicional de terreiro, de 54 anos? Por que você pensa que eu preciso que você faça alguma coisa por mim?”. Ele não soube responder porque eles são marionetes do fundamentalismo dessas lideranças religiosas que tem pregado o ódio, que tem deslocado a religião para um campo de batalha, porque na verdade nós sabemos que esse não é o papel da religião. A religião é um lugar de paz, de controle, de harmonia, de conforto, mas infelizmente nós temos vivido isso sobretudo nos últimos nos últimos 10 anos, e isso se agravou nos últimos seis anos.

Professor Sidnei é autor do livro “Intolerância Religiosa”, da coleção “Feminismos Plurais” (Foto: Reprodução)

Nós falamos sobre racismo religioso, que é um recorte racial na intolerância religiosa, mas Bruno Gagliasso e Cleo Pires, por exemplo, ganharam destaque nas mídias por também sofrerem esse preconceito. Como as pessoas brancas e famosas também podem contribuir para o combate ao racismo religioso?

Exatamente. O racismo religioso não é somente sobre as pessoas, ele é sobre a origem, sobre a história, sobre a Gênese, não é sobre a criação de uma prática religiosa. Quando uma pessoa branca sofre intolerância religiosa, ela sofre porque ela é branca porque está se dando entre pessoas brancas. Mas a origem da religião, as insígnias, os símbolos, as roupas são negras e lidas como negras. Então a pessoa branca sofre intolerância religiosa por conta de ter assumido uma religião de origem negro africana. De qualquer modo, aí você tem uma pessoa branca sofrendo intolerância e na amplitude da intolerância, você tem o racismo religioso sobre todos nós, sobre os negros mais uma vez. As pessoas brancas, sobretudo essas pessoas brancas com visibilidade, com representatividade, precisam assumir, é importante que elas assumam. Nós sabemos hoje o quanto nós somos regidos por imagens no Instagram, no Facebook, na internet de uma maneira geral, nós sabemos o quanto o Brasil e os brasileiros se espelham em ídolos. Então foi importante que a Maria Rita assumisse que agora é de candomblé, é importante que o Bruno Gagliasso assuma que é de candomblé, o Paulinho jogador de futebol de Oxóssi, que fez um tributo a Exú e a Oxóssi nas Olimpíadas [de Tóquio], isso é importante. Embora eles sejam brancos e gozem de todos os privilégios, inclusive do privilégio de poder assumir e descartar a religiosidade que quiserem, na hora que quiserem, inclusive poder assumir uma religiosidade cuja ancestralidade é negra, nós sabemos disso, eles precisam se engajar mais politicamente na luta antirracista, se colocando mesmo como pertencentes de terreiro, inclusive dizendo, manifestando como fez o Paulinho, o que é um terreiro. Desde que seja um terreiro que esteja em sintonia com os valores civilizatórios africanos, que seja efetivamente negro, que não seja distorcido. Como fez o babálorixá da Anitta, que se declarou bolsonarista, conservador, homofóbico, aí não ajuda, que imediatamente esse terreiro já deixou de ser negro faz muito tempo. Mas se a pessoa branca pertence a um terreiro efetivamente negro, é importante que ela assuma, que ela fale, que ela dê visibilidade, isso é fundamental para nós.

O livro “Intolerância Religiosa” é finalista do Prêmio Jabuti 2021. (Foto: Reprodução/Instagram)

Infelizmente, o abate do animal ainda é uma grande polêmica. Como e por que essa tradição tem sido criticada, não só pelas pessoas de outras religiões, como também por outros irmãos de religiões de matriz africana?

Olha, são dois motivos associados: hipocrisia e racismo! O racismo vem carregado semanticamente de ódio, de perseguição aos negros, da necessidade de mantê-los numa posição escravagista, de desumanizá-lo. Ora, o Brasil é um dos maiores produtores, consumidores e exportadores de carnes, de aves. Nós somos cerca de 10% de religiosos de matriz africana, contra 80% de cristãos nas suas diferentes denominações, ninguém vai acreditar que nós que consumimos mais carne do que a carne produzida, exportada. Não é possível que alguém pense que nós somos responsáveis pelos problemas relacionados à produção bovina, a produção de aves, até porque a carne quer que nós utilizamos é desrespeito a um modo de alimentação tradicional, a um modo de nutrição que não descarta a dimensão ancestral, espiritual, a dimensão força vital dos animais. Nós também consumimos do mesmo modo que eles consomem churrascaria, compradas em açougues, só que nós coletivamente sacratizamos essa carne antes de consumi-la, nós cuidamos dela, nós escolhemos muito bem essa carne, nós ritualizamos, nos alimentamos também da dimensão espiritual dessa carne. E nós não descartamos nada. Eu nem precisaria estar aqui explicando isso porque o Brasil é um mega consumidor e exportador de proteína animal, mas o racismo, a hipocrisia, a necessidade de perseguição e desumanização de tudo o que se referir aos modos de ser, fazer, estar no mundo negro, precisam ser padronizados mesmo quando isso ainda contribui para a harmonia existencial do mundo, mesmo quando nós estamos falando de rituais de cura, de rituais de busca de saúde. Então é racismo, é ódio, é desumanização dos territórios negres é disso que se trata.

rProfessor Sidnei na posse da Ministra da Cultura Margareth Menezes (Foto: Reprodução/Instagram)

Uma das primeiras sanções do presidente Lula foi da Lei que institui o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Você tem uma perspectiva de que neste governo será possível combater com mais efetividade o racismo e a intolerância religiosa?

Eu penso que sim. Não é só uma data. Nós não temos uma bancada de religiões de matriz africana, nós não temos um juiz adoravelmente macumbeiro, nós não temos políticos, ministros, secretários que se auto declarem abertamente e incisivamente pertencentes às religiões de matriz africana porque sempre há muita vergonha, muito medo. Então uma data é um começo, é fundamental, muda tudo. Nós estamos muito esperançosos, estamos mesmo acreditando na democracia porque a democracia é diretamente proporcional a laicidade, a liberdade religiosa. Uma data para os povos tradicionais, para diferentes nações de candomblé, para as religiões com as suas diferentes matrizes africanas, diferentes origens, é fundamental, é mais um dia de luta no combate à intolerância e ao racismo religioso.

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