No próximo dia 25 de junho, a Amazon Prime Vídeo lançará a série “Manhãs de Setembro“, que conta a história de Cassandra, personagem interpretada pela cantora e atriz Liniker. Na trama, é mostrada a trajetória Cassandra, uma mulher preta, trans e cantora, que se descobre mãe.

Cassandra acaba de conquistar sua independência, seu apartamento, namorado e empregos, fazendo cover musical à noite e entregas durante o dia. Contudo, sua paz começa a ficar ameaçada com a chegada de Leide (Karine Teles) e Gersinho (Gustavo Coelho), uma criança com 10 anos de idade que sempre sonhou em conhecer seu pai, que, na verdade, é mãe.

A história foi gravada nas ruas do Uruguai, por conta da pandemia, mas representou um cenário muito familiar para os brasileiros: as ruas de São Paulo de forma real e visceral, com uma discografia e dublagem com vozes negras, de acordo com as próprias roteiristas.

O Mundo Negro conversou um pouco com as protagonistas Liniker e Karine Teles sobre suas interpretações e as histórias únicas que foram mostradas, e matou algumas curiosidades sobre a série com o diretor Luis Pinheiro e as roteiristas Josefina Trotta e Alice Marcone.

Na entrevista, as atrizes falaram um pouco sobre o desafio em mostrar as duas mães de forma tão sensível e profunda:

A série apresenta Cassandra muito além de ser uma mulher trans, como uma pessoa com os problemas e desafios de uma mulher preta que se torna mãe. Quanto existe entre a personagem e o público da própria Liniker?

Liniker: Muito! O trabalho foi de humanizar essa personagem justamente por saber do corre que é ser uma mulher preta na sociedade e dar conta de tudo para poder sobreviver, seja profissionalmente, seja fazendo com que o afeto se torne parte das nossas vidas, quando muitas vezes não é, já que estamos desassociadas de sociedade, família, romance, carinho e pessoas que acolhem. Cassandra dialoga com muitas pessoas que conheço e que estão na minha vivência cotidiana, essa personagem vai além de ser uma mulher trans, ela foi construída com uma humanidade que precisa ser legitimada e foi de onde eu parti. Consegui ver minha mãe nela, uma mulher preta que no corre criou dois filhos sozinhas e deu todo suporte que pode. Então, nessa Cassandra, a nova mãe, que vai sempre atrás do corre, eu vejo muito da minha.

Como foi passar, atuando com uma criança, esse incômodo da Cassandra em ser sempre chamada de pai, além de fazer essa distinção entre a mãe cis e a mãe trans?

Liniker: Acho que desafiador. Porque a Cassandra tava sendo invadida e esse incômodo vinha daí, mas tinha algo além disso, que é uma criança que estava procurando um pai. Isso mexe com a trajetória e identidade da Cassandra todos os dias. Então, a dureza dela em se permitir ser mãe é porque esse título vem junto com a invasão de uma criança que ela nem sabia da existência, trazendo a Leide que também fez parte de um passado dela. Então, eu sinto que a Cassandra tem um trabalho de educar, mesmo não querendo, tanto a criança quanto ao recorte de gênero dela. É algo complexo.

Para a própria Leide, não?! Educar a Leide em conjunto com a criança?

Karine Teles: Total! Tem uma dificuldade nessa personagem [Leide] em encontrar em mim o apoio para não julgar as atitudes repreensíveis dela. Acho que a Leide cumpre um papel de explicitar a ignorância e o preconceito, mesmo tendo suas dores e estar sozinha com o filho, mas são atitudes que eu no lugar da Cassandra ficaria até mais incomodada do que ela ficou. Por isso, a parceria da Liniker como atriz foi fundamental, porque tínhamos confiança uma na outra e nos momentos de conflito foram primordiais, já que foram os mais delicados.

A série passa por Vanussa até Alcione. Como essa relação da música para com a Cassandra mostra a conexão com o seu próprio filho?

Liniker: Acho que é o lugar seguro dela, onde ela canta e dança com as amigas. Acho que é o lugar em que a Cassandra pode se humanizar e dentro da dureza e ter lazer porque, muitas vezes, pessoas pretas, acha que é só trabalhar e dar conta, mas a música traz para a Cassandra, por 30 minutos ou 10 minutos, uma conexão com ela mesma.

Para a Liniker também? Como é a Liniker nesse espaço?

Com certeza! Para a Liniker também. A música é meu trabalho, minha sobrevivência e onde eu consigo reformular todas as violências que eu sofro, todos os recortes que tenho e onde existe um lugar no mundo que é meu.

Imagem/Reprodução: Amazon Priem vídeo

A série, mesmo sendo filmada em um outro país, mostra referências a figuras brasileiras que tiveram suas falas silenciadas de forma dolorosa, como a ex-vereadora Marielle Franco, que foi lembrada em alguns capítulos da história.

Confira a entrevista com o diretor e as roteiristas:

Marielle Franco é referenciada na série, o que isso quis dizer?

Luis Pinheiro [Diretor]: Tudo que fazemos é politico e acaba se referindo à politica, tínhamos que nos posicionar, de uma certa maneira, às barbaridades que aconteciam no Brasil – mesmo tendo essa série sendo gravada em outro local. Então, não é algo que é uma bandeira de frente, nossa série não é politico, mas temos orgulho de colocar o ícone de Marielle Franco na série, como outras representações que estão nas imagens representando nosso anseio politico.

Como foi a escolha dessas atuações, vozes e interpretações na série?

Josefina Trota [Roteirista]: Não só as atrizes são negras, a voz que interpreta a Vanusa é da atriz Elisa Lucinda, que é uma mulher e atriz negra, as dubladoras para outros países para dublar a Liniker são atrizes trans e isso está no DNA da série.  E na discografia pensamos em mulheres fortes e autoras, já que a maioria da nossa sala é mulher, então pensamos em trazer essa força para qualquer coisa que envolvesse a série.

Qual a expectativa para o público receber essa série, que é tão forte e tão bonita?

Alice Marcone [Roteirista]: Quero que mobilize afetos e pessoas, que sentimentos em diversas pessoas e segmentos do público. Nas diversas pessoas e pessoas diferentes, com expectativas diferentes. Nós temos uma história muito universal tratando de um tema como maternidade e conselhos diferentes sobre isso. Qualquer pessoa em qualquer lugar pode se identificar com isso, mas nós estamos trazendo de forma única, personagens únicas e convivências únicas que são quebradas pelo afeto e podem ser demostradas em nosso país e país afora.

Manhãs de Setembro estará disponível a partir de 25/06 na Amazon Prime Video. Confira o trailer:

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