Por Dra. Júnia Mamedir
Há perguntas que não nascem nas universidades. Nascem na vida.
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A pergunta que dá origem a este texto surgiu ao longo de mais de duas décadas de atuação como psicóloga, acompanhando mulheres negras, lideranças comunitárias, executivas, mães, educadoras, atletas e profissionais que ocupam posições de grande responsabilidade.
Quem cuida da saúde mental de quem sustenta tantas pessoas?
Essa pergunta ganhou força porque, repetidas vezes, observei um fenômeno semelhante. Muitas lideranças negras chegam aos espaços de autoridade altamente capacitadas, comprometidas e preparadas tecnicamente. Ainda assim, convivem com uma sensação persistente de exaustão, isolamento e necessidade permanente de provar sua competência. Como se ocupar um cargo de liderança exigisse, além da excelência profissional, o abandono de formas de existir que sempre fizeram parte de sua história.
Foi justamente nesse ponto que comecei a perceber algo que, durante muito tempo, esteve diante de nós, mas raramente foi nomeado.
As formas de cuidado construídas historicamente por mulheres negras não são apenas manifestações culturais. Elas expressam uma maneira de compreender o humano, de produzir vínculos, de elaborar conflitos e de sustentar emocionalmente comunidades inteiras.
É essa compreensão que proponho chamar de Epistemologia do Cuidado.
Não como um conceito acabado, mas como uma hipótese de pesquisa que nasce da prática clínica, da escuta e da experiência comunitária.
Ao longo das últimas décadas, intelectuais como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, bell hooks e Patricia Hill Collins demonstraram que mulheres negras sempre produziram conhecimento a partir da experiência, da memória coletiva, da oralidade e da resistência. Suas obras ampliaram profundamente a compreensão sobre identidade, poder, educação, território, racismo e produção de conhecimento.
O que proponho acrescentar a esse diálogo é outra pergunta:
E se esses mesmos processos também forem compreendidos como produtores de saúde mental?
Essa pergunta desloca o debate.
Ela nos convida a olhar para práticas historicamente presentes nas comunidades negras não apenas como patrimônio cultural, mas também como modos de sustentar a vida, preservar vínculos e fortalecer quem exerce responsabilidades coletivas.
Durante muito tempo, aprendemos a imaginar o conhecimento como algo produzido principalmente por textos, teorias e instituições formais. Entretanto, povos afro-diaspóricos também produziram conhecimento por meio da oralidade, da convivência, da memória compartilhada, da observação das relações humanas e da experiência coletiva.
- Nas rodas, aprendia-se a ouvir.
- Nas rodas, aprendia-se a resolver conflitos.
- Nas rodas, aprendia-se a exercer autoridade.
- Nas rodas, aprendia-se que ninguém atravessa a vida sozinho.
Essa tradição não surgiu por acaso. Ela foi construída em contextos marcados pela necessidade de preservar a dignidade, fortalecer pertencimentos e garantir a continuidade da vida diante de sucessivas formas de violência e exclusão.
Talvez por isso tantas mulheres negras reconheçam, quase intuitivamente, a potência do encontro, da escuta e da construção coletiva.
Não porque tenham aprendido uma técnica específica, mas porque foram constituídas por uma tradição em que cuidar sempre foi também uma forma de liderar.
No entanto, quando essas mulheres passam a ocupar cargos de autoridade, frequentemente encontram organizações estruturadas por modelos que valorizam rapidez, individualização, competição e desempenho contínuo.
Nesses contextos, práticas como escutar antes de decidir, compartilhar responsabilidades, construir consensos ou reconhecer o tempo necessário para elaborar conflitos podem ser interpretadas como sinais de fragilidade.
Essa leitura produz um efeito silencioso.
Muitas lideranças passam a acreditar que, para serem reconhecidas como competentes, precisam se afastar justamente das formas de cuidado que sustentaram sua trajetória.
É nesse ponto que a saúde mental começa a ser atravessada não porque o cuidado seja incompatível com a liderança, mas porque ainda persistem modelos que opõem autoridade e humanidade.
Na clínica, tenho observado outro caminho.
As lideranças que conseguem preservar espaços de pertencimento, construir relações de confiança e compartilhar responsabilidades demonstram maior capacidade de enfrentar situações complexas sem romper consigo mesmas. Isso não elimina conflitos. Não reduz a responsabilidade. Nem diminui a exigência por resultados. Mas produz uma forma diferente de exercer autoridade, uma autoridade que não precisa escolher entre firmeza e cuidado.
É aqui que a Epistemologia do Cuidado se apresenta como uma possibilidade teórica.
Entendo a Epistemologia do Cuidado como uma matriz de produção de conhecimento sobre o humano fundamentada na circularidade, na escuta, na ancestralidade, na memória coletiva e na responsabilidade compartilhada.
Ela compreende que a saúde mental não depende apenas de processos individuais.
Também é produzida pela qualidade das relações que construímos, pelos espaços onde nossa palavra encontra acolhimento e pela possibilidade de compartilhar o peso da responsabilidade sem abrir mão da autoridade.
Essa compreensão exige, porém, um cuidado importante:
- Nem toda roda produz cuidado.
- Nem todo encontro fortalece vínculos.
- Circularidade não é ausência de direção.
- Escuta não significa permissividade.
- Cuidado não é improviso.
Espaços de circularidade exigem ética, preparo, responsabilidade e compromisso com a dignidade de todas as pessoas envolvidas.
Quando esses princípios não existem, uma roda pode reproduzir silenciamentos, constrangimentos e disputas de poder.
Por isso, considero que a grande responsabilidade das lideranças negras não está apenas em conduzir pessoas, está em proteger os espaços onde o cuidado acontece.
Ser liderança, nessa perspectiva, significa também ser guardiã da palavra, da escuta e da segurança relacional.
Essa talvez seja uma das maiores contribuições que os saberes afrodiaspóricos oferecem às discussões contemporâneas sobre saúde mental.
Eles nos lembram que cuidar nunca foi apenas um gesto individual.
Sempre foi uma construção coletiva.
Foi essa compreensão que também orientou a criação do Método CEA®️, organizado em três movimentos:Consciência, Escuta e Ação.
O método nasceu da prática clínica e comunitária, mas encontrou, ao longo do tempo, profunda ressonância com essa tradição de cuidado.
A consciência convida ao reconhecimento da própria história, das marcas deixadas pelo percurso e das responsabilidades que acompanham o exercício da liderança.
A escuta amplia nossa capacidade de compreender a nós mesmos e aos outros, criando ambientes onde diferenças podem ser elaboradas sem destruir pertencimentos.
A ação transforma essa elaboração em decisões concretas, coerentes com uma liderança que integra resultado, responsabilidade e cuidado.
O Método CEA®️ não pretende substituir outras abordagens. Representa uma sistematização contemporânea de princípios que encontrei repetidamente na experiência de mulheres negras, comunidades, famílias e lideranças comprometidas com a transformação social.
Talvez esse seja o convite que deixo ao final desta reflexão.
Em vez de perguntarmos apenas como preparar melhores líderes, talvez devêssemos perguntar como preservar a saúde mental de quem assume a responsabilidade de cuidar de pessoas e transformar realidades.
Reconhecer a Epistemologia do Cuidado não significa idealizar o passado nem romantizar a ancestralidade.
Significa reconhecer que existem formas de produzir saúde mental que nasceram da experiência coletiva, da escuta, da responsabilidade compartilhada e da construção de vínculos.
Significa compreender que liderança não precisa ser sinônimo de isolamento. Que autoridade não exige abandono da sensibilidade e que o cuidado não diminui a força de uma liderança. Ao contrário, talvez seja justamente o cuidado aquilo que permite que ela permaneça humana enquanto transforma o mundo.
Referências
- Collins, Patricia Hill. *Pensamento Feminista Negro
- hooks, bell. *Ensinando a Transgredir
- Gonzalez, Lélia. *Por um Feminismo Afro-Latino-Americano
- Nascimento, Beatriz. *Uma História Feita por Mãos Negras
- Carneiro, Sueli. *Dispositivo de Racialidade.
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