Por Rosenildo Ferreira
Para construir uma campanha política é necessário contar com um verdadeiro arsenal. Dinheiro é fundamental. Estar associado a um partido político, idem. Afinal, não existe, no Brasil, a figura do político avulso. Contudo, a soma de recursos financeiros e inserção partidária não é suficiente para garantir uma cadeira no parlamento. Isso porque qualquer candidatura séria e comprometida com valores deve ser lastreada em uma ampla base de apoio.
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E é este exatamente o ponto que destaca a jornada eleitoral da socióloga e militante feminista e antirracista, Ruth Lopes, cofundadora do Instituto Mulher Negra & Cia. Até se lançar na campanha para deputada federal pelo PT de São Paulo, Ruth percorreu um longo caminho na militância, no sentido mais amplo que a palavra pode ter. Começando pelo movimento estudantil, no qual, a partir de interlocuções orgânicas na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e na União Nacional dos Estudantes (UNE), ela chegou à direção do Diretório Acadêmico na década de 1990, tornando-se a primeira mulher negra a compor uma chapa vitoriosa.
O rompimento de barreiras, aliás, é parte importante do fio condutor da trajetória dessa paulistana de 62 anos, que mais que um “bicho político”, como ela gosta de se apresentar, se tornou uma construtora de pontes. E foram essas pontes que fizeram com que centenas de conterrâneos aderissem à sua campanha.
O núcleo duro é composto por menos de 10 pessoas e o restante do trabalho acaba sendo tocado por voluntários. Em um tempo no qual existe uma grande descrença em relação aos políticos, e que se reflete na baixa adesão, especialmente de jovens, à campanha eleitoral, conseguir aglutinar pessoas de diversas origens sociais, faixas etárias e orientações ideológicas demonstra que a campanha surgiu a partir de uma outra lógica. “Antes de aceitar o convite para ser candidata, eu busquei cada uma de minhas referências políticas, sociais e intelectuais, para entender se este seria um projeto pessoal ou coletivo”,diz.
A lista inclui a amiga de militância a ex-vereadora Claudete Alves, o jurista Hédio SilvaJr., a escritora, jornalista, pesquisadora e mãe de santo Claudia Alexandre, a psicóloga e ativista antirracista Cida Bento, o professor e militante Helio Santos, o cantor Netinho de Paula, o maestro Josoé Polia, o padre José Enes de Jesus, presidente do Instituto do Negro Padre Batista, a diretoria do Aristocrata Clube, além de outros tantos integrantes da sociedade civil. “Minha intenção era mostrar que não seria uma candidatura avulsa, mas alguém conectado com as causas da negritude, que compõe o maior segmento populacional do país, mas continua alijado dos espaços de decisão e de poder.”
Do ponto de vista prático, a campanha começou a ser desenhada no final de 2025, quando Claudete, cujo mandato preencheu o hiato após a aposentadoria da vereadora Teodosina Ribeiro, na década de 1960,intermediou uma agenda com o deputado estadual Antonio Donato (PT-SP), um dos principais nomes da articulação interna do partido em nível nacional. O encontro foi um pouco tenso. “A Claudete marcou uma reunião com Donato, na qual ele me convidou para sair candidata”, lembra Ruth. “Levei um susto, afinal estava filiada ao PT desde 2022 e nunca havia pensado na possibilidade de assumir tamanho desafio.” Passado o espanto inicial, Ruth conta que ela colocou as coisas de uma forma bem aguda, avisando que não toparia ser “laranja” de ninguém e que só aceitaria entrar na disputa se houvesse condições mínimas de competitividade.
O ato, que poderia ter sido encarado como “sincericídio”, acabou pesando positivamente, como destaca Donato ao lembrar do encontro: “Conversamos sobre a luta antirracista e a necessidade de termos mais mulheres negras no Congresso Nacional”, diz. “E como ela (Ruth) tem uma trajetória de luta e compromisso que a credenciavam, achei que era o nome ideal.” O deputado estadual do PT lembra que para dobrar Ruth ainda levou um tempo. “De cara ela não aceitou, mas começou a fazer um processo de escuta com as lideranças dessa luta e dessa comunidade e viu que não era um desejo pessoal, mas sim uma missão a cumprir”.
Aqui, torna-se necessário fazer um parêntese. Afinal, historicamente, os partidos têm negligenciado as candidaturas de minorias de direitos: mulheres e afro-brasileiros. Foi com isso em mente que Ruth decidiu que só se lançaria à Câmara dos Deputados após ser “abraçada” pela comunidade e pela direção do PT, garantindo condições financeiras para desenvolver a campanha em pé de igualdade com os demais. “Tinha de ser uma campanha enxergada como competitiva e não apenas mais uma para tapar buraco”, diz ela. Como a verba prevista é de apenas R$ 800 mil – montante expressivo, mas metade do considerado ideal por analistas – o jeito foi estruturar um núcleo duro, remunerado, e contar com uma ampla rede de apoio e suporte voluntário, focada na força da militância orgânica.
E é neste ponto que a Ruth socióloga e ativista das causas antirracista e do empoderamento feminino fez a conexão com a Ruth empreendedora e influenciadora digital. Apesar de contarem a mesma história, calcada na determinação, na resiliência e no inconformismo, são jornadas que começaram a partir de pontos distintos. A primeira se deu a partir da consciência cidadã, do desejo de melhorar o mundo e do espírito de luta herdados da família e aprimorados no mundo acadêmico. A segunda foi guiada pelo imperativo de retorno ao mercado de trabalho após quase uma década de afastamento em decorrência de problemas de saúde na família; o agravamento da saúde da mãe, cujo quadro de Alzheimer se deteriorou de forma aguda, emendou com os cuidados com a irmã gêmea Raquel, acometida pela doença de Crohn. “Foi um período difícil. Minha mãe com mais de 90 anos exigindo cuidados extremos, e depois minha irmã, cúmplice e parceira em todas as jornadas, que ficou um longo período no hospital”, recorda.
Para voltar ao mercado de trabalho, Ruth diz que preferiu romper com o passado. “Optei por reescrever, ou melhor, continuar minha história de um novo ponto, para não ficar eternamente colada em projetos importantes, mas que haviam ficado no passado, como a ONG Afrobras, criadora e mantenedora da Faculdade Zumbi dos Palmares, e o Troféu Raça Negra, nos quais participei da criação e da gestão”, explica. “A volta ao game teve como base as pautas que marcaram a minha trajetória pessoal e profissional. Era a cartada final, então tinha de encarar com ou sem medo”. Foi neste contexto que surgiram o Instituto Mulher Negra & Cia., focado no empreendedorismo feminino, a páginaOpinião da Preta e a rede de blogueiros e ativistas Frente Negra Online.
E é esta turma que vem dando sustentação a boa parte das ações e atos da campanha. Do núcleo duro participam profissionais liberais que ingressaram na faculdade graças aos programas cocriados por ela. Tanto a equipe remunerada quanto a de voluntários é multicultural e segue a filosofia de vida adotada por Ruth: “Nem todo preto é meu aliado, e nem todo branco é meu inimigo”. E é com essa capacidade de estabelecer pontes e arregimentar adeptos que a candidata tem conseguido a adesão de personalidades da política, do empreendedorismo e dos movimentos sociais às quais conclama a segurar em sua mão: Marina Silva, Simone Tebet, Ana Estela Haddad e outros tantos agentes do mundo político, acadêmico, cultural e social já repetiram o bordão: Segura na mão da preta! “Ruth tem uma enorme capacidade de aglutinar, de organizar, e tem a sensibilidade política de sacar as bandeiras mais importantes para a campanha. Será uma grande deputada”, diz Donato.
Rosenildo Ferreira é jornalista, empreendedor, ghostwriter e atua como voluntário na campanha de Ruth Lopes, que conheceu em 2003, durante visita da Afrobras à revista IstoÉ Dinheiro, na qual era editor de negócios e colunista de sustentabilidade
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