Por Rachel Maia
O Brasil entra em um novo período de atenção climática. O El Niño, confirmado em junho de 2026, tem previsão de permanência até março de 2027, com maior impacto no Norte, Nordeste e no Sul. Como apontam as atualizações de agosto do portal do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), com base nas projeções do NOAA, há probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño extremo no próximo trimestre e 69% de chance de que seja um dos mais intensos desde o início dos registros, em 1950.
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Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pela alteração dos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do mundo, o El Niño nos preocupa, principalmente por tornar ainda mais difícil a vida da população negra, periférica, ribeirinha, quilombola e indígena, historicamente submetida a diferentes formas de vulnerabilidade territorial e social.
De acordo com o Censo 2022 do IBGE, 56,8% da população residente em favelas e comunidades urbanas era parda e 16,1%, preta. Pessoas negras, portanto, representavam 72,9% dos moradores desses territórios. Quando essa realidade se combina a déficits de infraestrutura, saneamento e habitação, além da maior exposição a áreas de risco, a capacidade de resposta aos eventos extremos também se torna desigual.
Racismo ambiental: da previsão à prevenção
Formulado a partir de estudos realizados nos Estados Unidos e posteriormente incorporado ao debate global sobre justiça climática, o conceito de racismo ambiental surgiu na década de 1980 para analisar como critérios sociais e raciais influenciam a distribuição desigual dos impactos ambientais.
No Brasil, esse fenômeno se manifesta em um cenário resultante de décadas de ocupação desigual do território, ausência de políticas públicas e racismo estrutural, que condicionam grande parte da população negra à vida em regiões sem planejamento urbano.
Os estudos sobre justiça climática já nos sinalizam que essas regiões são negligenciadas, o que torna seus moradores mais suscetíveis ao agravamento do colapso socioambiental. Isso aponta para a necessidade de que, nas cidades, as periferias brasileiras recebam maior atenção por concentrarem menor cobertura vegetal, maior impermeabilização do solo e infraestrutura de drenagem insuficiente.
As projeções científicas indicam que eventos extremos deverão se tornar mais frequentes e intensos em decorrência das mudanças climáticas e do aquecimento global. Se a tecnologia já permite melhorar a previsão de onde e quando determinados eventos podem acontecer, o próximo passo é utilizar esses dados para identificar quem estará mais vulnerável e direcionar investimentos preventivos para quem mais precisa.
Pesquisadores brasileiros unem IA e ciência para prever eventos hidrológicos
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), coordenado pelo físico e pesquisador Leonardo Santos, por meio do projeto IFAST, faz uso da inteligência artificial (IA), para aprimorar a previsão de enxurradas e inundações. Assim como, a doutoranda em Ciências da Computação Gislaine Freitas está à frente de uma pesquisa voltada à mobilidade segura, com o desenvolvimento de uma ferramenta de alerta capaz de ajudar a evitar trechos alagados durante períodos de chuva intensa.
Com mais de 50 pesquisadores nacionais e internacionais e 15 instituições envolvidas, a plataforma FloodcastingXAI, em operação desde 2025, está transformando grandes volumes de dados em alertas mais precisos e localizados, possibilitando a antecipação de riscos e a mitigação de impactos em tempo recorde.
Temos um desafio coletivo pela frente: construir políticas de prevenção que culminem na inclusão da população diretamente afetada, tanto na formulação das políticas públicas de prevenção quanto na construção de soluções que combinem ciência, inteligência artificial, planejamento urbano, saneamento e habitação.
No enfrentamento do racismo ambiental, antecipar riscos, ampliar o acesso à informação e direcionar investimentos para os territórios mais afetados não são apenas estratégias de gestão: são escolhas de justiça e responsabilidade social. Pois todo o ecossistema perde quando um de nós não volta para casa ou perde seu lar.
A tecnologia pode ser uma aliada importante na prevenção de eventos climáticos. Quanto antes percebermos que a mitigação dos impactos ambientais deve priorizar quem mais precisa, mais próximos estaremos da civilidade.
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