
Ninguém descansa por sobra de tempo.
Eu passei o feriado num sítio na Serra do Mar. Tomei banho de cachoeira, fiquei olhando pássaro, meditei e fiz tai chi. Dormi numa cabana, acordei sem despertador, com barulho de bicho no lugar do alarme, e fui dormir depois que o sol se pôs.
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Não dá para viver sempre assim, e não vou escrever aqui que dá. Mas de vez em quando é exatamente desse jeito que se avança mais rápido, e por isso quero chamar essas coisas pelo nome certo. São ferramentas.
Você, negro e negra que está lendo agora, quando foi a última vez que você descansou sem estar doente? Descanso escolhido, marcado na agenda e protegido, igual a compromisso que você não desmarca. Dormir porque o corpo desabou é outra coisa, e folga tirada para resolver pendência também.
O feriado acabou e o país volta ao trabalho depois de semanas de barulho em grupo de família e em linha do tempo. Estamos em novembro, que carrega o dia 20, e as nossas agendas enchem de convite para falar sobre nós. Quero puxar aqui um assunto que quase nunca entra nessas rodas porque parece pequeno demais diante do resto, e que para mim é dos maiores. O direito de ficar bem.
Há mais de um século, um médico negro de Salvador chamado Juliano Moreira, apontado como fundador da psiquiatria brasileira, fez um movimento que hoje parece óbvio e que na época dele era quase inconcebível. Enquanto a ciência brasileira explicava o sofrimento mental do povo pela mestiçagem, ele apontou para outro lugar: alcoolismo, sífilis, verminose, falta de saneamento, falta de escola. Tirou a causa do corpo negro e pôs na condição de vida. Com descanso a conta é a mesma: quem não descansa raramente é quem não quer, e quase sempre é quem não tem o tempo protegido por ninguém.
Vale abrir a palavra, porque dentro dela está a história toda. Em latim, otium era o tempo de recomposição e de estudo, o tempo de quem podia parar. A vida de trabalho e de comércio chamava-se negotium, literalmente a negação do ócio. Nós herdamos a palavra negócio e perdemos de vista a palavra que ela nega.
E a conta do ócio que ninguém nos deu aparece em exame. O ELSA-Brasil, uma das maiores pesquisas de saúde do adulto já feitas no país, mostrou que quem relata discriminação racial tem a artéria mais dura e a parede da artéria do pescoço mais grossa, que são dois sinais de envelhecimento do sistema circulatório. São mais de 13 mil pessoas medidas. Em outro braço do mesmo estudo, com quase 6 mil participantes pretos e pardos acompanhados por quatro anos, quem relatou discriminação ganhou mais peso no período.
Leia de novo o que isso significa. A tensão que você sente no corpo, aquela que você aprendeu a chamar de normal, está sendo medida em milímetro de parede de artéria.
E tem a conta da região inteira. Nas Américas a pessoa vive em média 77 anos, mas vive com saúde até os 64. São doze anos e meio de vida com o corpo já cobrando a conta. É a menor fatia de vida saudável entre todas as regiões do mundo, e essa distância está aumentando.
Porque descanso tem dose, e dose se mede. Em 2024, o JAMA Network Open, revista da Associação Médica Americana, publicou um estudo com 342 adultos com a pressão no limite. Metade fez tai chi, metade fez exercício aeróbico, durante um ano. A pressão caiu nos dois grupos e caiu mais no tai chi: cerca de 7 pontos na máxima, contra 4,6 do aeróbico. E 12 em cada 100 pessoas do grupo do tai chi desenvolveram hipertensão, contra quase 18 em cada 100 do grupo do exercício.
Agora a ressalva honesta, que importa mais que o número. Foram quatro sessões de uma hora por semana, durante um ano, acompanhadas dentro de hospital, e isso não é a rotina de quem pega dois ônibus para trabalhar. O que o estudo entrega não é a prescrição, é a direção: a prática lenta não perdeu da corrida.
Tem uma parte disso que eu quero dizer sem rodeio, porque é novembro. Descanso não precisa ser justificado por doença evitada. Banho de cachoeira é bom porque a água é fria e o barulho é alto. Pássaro é bonito de olhar. Dormir sem despertador é um dos melhores prazeres que existem.
Eu trabalho com beleza, opero rosto todo mês, e muita gente me procura para fazer toxina botulínica, o famoso botox. Às vezes o que algumas pessoas precisam é de boas noites de sono. Corpo descansado aparece antes de qualquer procedimento: muda a pele, muda o olhar, muda a postura de quem entra na sala. Essa parte do resultado não está no bisturi nem na seringa.
No mês em que a nossa conversa pública fica cheia de luta, e ela precisa estar cheia de luta, eu quero deixar registrado que estar bem também faz parte do projeto. Prazer não é prêmio que se recebe depois de sofrimento cumprido. A nossa geração pode ser a primeira da família a tratar descanso como coisa que se marca na agenda, e isso também é conquista.
Então vamos ao exercício desta coluna, que não custa nada e cabe em dez minutos. A ideia é transformar descanso em dado, por sete dias, com a tecnologia mais antiga que você tem, que são dois dedos e um relógio.
1. Escolha um horário fixo, de manhã, antes do café e antes de pegar o celular. Tem que ser o mesmo horário todo dia, senão o número não compara.
2. Sente, fique quieto cinco minutos, e conte o seu pulso por sessenta segundos inteiros, com dois dedos no punho. Anote o número.
3. Faça dez minutos de prática lenta. Pode ser tai chi por vídeo gratuito, caminhada devagar sem destino, ou respiração contada, puxando o ar até quatro e soltando até seis.
4. Conte o pulso outra vez, do mesmo jeito, e anote.
5. Anote numa linha só como você dormiu na noite anterior, de zero a dez.
6. No sétimo dia, olhe os sete pares de números e a coluna do sono juntos.
Isso não trata hipertensão e não substitui consulta. O que isso faz é te entregar dado seu, na sua letra, sobre uma coisa que você sempre tratou como sensação. Quando você chegar na consulta com sete dias de pulso anotado, a conversa muda de lugar, e eu digo isso como quem recebe gente no consultório.
Agora, por que dois dedos e não o relógio, que faz isso sozinho? Porque o relógio lê o seu pulso com luz atravessando a pele, e a melanina absorve justamente a luz que a maioria desses aparelhos usa. No oxímetro de dedo, aquele pregador que mede oxigênio e que todo mundo viu na pandemia, isso já está provado: um estudo publicado em 2020 no New England Journal of Medicine encontrou quase três vezes mais casos de oxigênio baixo no sangue que o aparelho não acusou em pacientes negros, e a agência reguladora americana propôs regra nova de aprovação por causa disso. Nos relógios e pulseiras a resposta ainda está dividida. Uma revisão de dez estudos achou perda de precisão em pele escura em quatro deles, nenhuma diferença em outros quatro, e um achou que o aparelho registrava metade das leituras no tom mais escuro da escala.
Repare no que isso significa. O aparelho já está vendido e no seu pulso, e a pergunta continua aberta.
E aqui entra o que eu faço. Eu pesquiso inteligência artificial aplicada ao rosto, e a primeira coisa que se aprende nessa área é que modelo não tem opinião, tem amostra. Sensor que registra menos dado em pele escura alimenta máquina que sabe menos sobre nós, e máquina que sabe menos erra calada, porque devolve um número com a mesma cara de certeza. E se a amostra vier de gente que dorme pouco e adoece cedo, o modelo aprende que é isso o esperado e entrega de volta como previsão. Nada disso exige má intenção de ninguém. Basta repetir o mundo como ele está.
Por isso o exercício aqui é com dois dedos e um relógio qualquer. Não é saudosismo, e eu não sou contra o aparelho, que mede muita coisa bem. É que o número que você conta com a mão é seu, não dependeu de calibragem feita sem você, e vale igual na mesa do médico.
E uma linha para quem decide, que não é o leitor, é quem assina escala e contrato: tempo é insumo de saúde, e programa de bem-estar que entrega aplicativo de meditação sem entregar tempo protegido dentro do expediente está comprando tranquilidade de relatório.
Uma coisa importante, para fechar. Se o seu cansaço não melhora com descanso, ele não é cansaço, e precisa ser visto. Procure a unidade básica de saúde mais perto de você, que atende sem custo e pede exame. Se o peso for na cabeça, o CAPS do seu município atende sem encaminhamento, e o CVV atende no 188, a qualquer hora, também sem custo.
Comece hoje, no horário em que você acordar amanhã. Conte o seu pulso, faça os dez minutos, conte de novo e anote. No sétimo dia me conte o que você viu. E se este texto serviu, manda para alguém da sua família que anda dormindo mal e dizendo que está tudo bem. Se der, marque com essa pessoa um dia de cachoeira antes que o ano acabe.
Escrevo do negro para o negro e como estamos no nosso mês, o da Consciência Negra, gostaria de deixar aqui um pedido-alerta para não esquecermos do que nos trouxe até aqui, o que nos manteve firmes, coesos e o que pavimentará o nosso futuro: não se distraia, estude.
Eu sou Dr. Lucas Diniz, cirurgião plástico facial pela USP, CRM-SP 194459, RQE 111712, pesquisador de Inteligência Artificial para Cirurgias Craniofaciais da perspectiva da população negra.
Este texto é informativo e educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico formal.
Fontes
Rigidez arterial e carótida. Racial discrimination is associated with greater arterial stiffness and carotid intima-media thickness: the ELSA-Brasil study. Dados de 13.284 participantes para velocidade da onda de pulso e 9.850 para espessura da íntima-média da carótida. Disponível no repositório ARCA da Fiocruz: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/53632
Peso e índice de massa corporal. Discriminação racial prediz o aumento do peso corporal e do IMC em indivíduos pretos da coorte ELSA-Brasil. Ciência e Saúde Coletiva. 5.983 participantes pretos e pardos, comparação entre a primeira visita (2008 a 2010) e a segunda (2012 a 2014). Disponível no repositório ARCA da Fiocruz: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/58910
Expectativa de vida. Pan American Health Organization. Health in the Americas 2026. Expectativa de vida de 77,1 anos e expectativa de vida com saúde de 64,5 anos, a menor proporção entre as regiões da Organização Mundial da Saúde, p. 3. doi.org/10.37774/9789275131565
Tai chi e pressão arterial. Li X, Chang P, Wu M e col. Effect of Tai Chi vs Aerobic Exercise on Blood Pressure in Patients With Prehypertension: A Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open. 2024;7(2):e2354937. Queda de 7,01 mmHg na sistólica no grupo de tai chi e de 4,61 no aeróbico, e hipertensão em 12% contra 17,7%. Registro ChiCTR1900024368. doi 10.1001/jamanetworkopen.2023.54937
Oxímetro e viés racial. Sjoding MW, Dickson RP, Iwashyna TJ, Gay SE, Valley TS. Racial Bias in Pulse Oximetry Measurement. New England Journal of Medicine. 2020;383(25):2477-2478. Duas coortes, com 10.789 e 37.308 pares de medidas. doi 10.1056/NEJMc2029240
Regra nova de aprovação. Food and Drug Administration. FDA Proposes Updated Recommendations to Help Improve Performance of Pulse Oximeters Across Skin Tones, janeiro de 2025. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-proposes-updated-recommendations-help-improve-performance-pulse-oximeters-across-skin-tones
Relógios e pulseiras. Koerber D, Khan S, Shamsheri T, Kirubarajan A, Mehta S. Accuracy of Heart Rate Measurement with Wrist-Worn Wearable Devices in Various Skin Tones: a Systematic Review. Journal of Racial and Ethnic Health Disparities. 2023;10(6):2676-2684. Dez estudos e 469 participantes. doi 10.1007/s40615-022-01446-9
Juliano Moreira. Oda AMGR, Dalgalarrondo P. Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo científico. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2000;22(4):178-9, de onde vem a atribuição do sofrimento mental a alcoolismo, sífilis, verminose, condição sanitária e falta de escola: https://www.scielo.br/j/rbp/a/wzF5QyZ7pVvVVF5VqRHwSHf/


