Cartas de Redenção: a subjetividade como semente do amor negro

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Cartas de Redenção: a subjetividade como semente do amor negro
Foto: Divulgação/Netflix

Escrevo como homem negro, ciente de que não falo do lugar de quem vive a experiência das mulheres negras, mas do lugar de quem as ouve, lê e não se exime de expor o próprio ponto de vista. Por isso, o filme “Cartas de Redenção”, de Tyler Perry (Netflix), foi uma grata surpresa: um respiro de sensibilidade para quem busca limpar os resquícios da tensa atmosfera eleitoral dos últimos tempos.

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O romance entre Anika (Naomi Baker) e Carousel (Jay Reeves) começa em uma unidade prisional. Durante uma rebelião, Carousel, detento de talento ímpar para o desenho, protege Anika, funcionária do local. Tempos depois, ela é mãe solo, trabalha como caixa de loja, cuida da mãe doente e enfrenta a desmotivação das irmãs. Sonha em ser enfermeira, mas esbarra na falta de dinheiro.

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O que me interessa é a ordem em que o afeto se constrói. Os dois se aproximam pela troca de cartas e por ligações, espaço de confissão e escuta que fortalece a intimidade antes de qualquer aproximação física. Conhecem-se pelo que pensam, sentem e desejam. Isso importa porque, como alertou bell hooks, as mulheres negras têm sido tratadas como “corpos sem mente”. Como escrevi em artigo anterior, elas seguem hipersexualizadas, preteridas e impostas a relações instáveis, em que muitos homens buscam apenas saciar a vontade carnal. Aqui, a lógica se inverte: Anika é vista primeiro como mente.

O filme, porém, tem conflitos. Carousel é tão íntegro e dedicado que beira a idealização, o que pode reforçar a ideia de que o homem negro precisa ser excepcional para merecer afeto e reintegração. Mas, fora da ficção, essa cobrança é real. Digo com propriedade. O estigma que recai sobre ele, egresso do sistema prisional, é um dos desafios centrais do casal e atravessa o afeto de Anika, opondo-a à família. Se há redenção, ela vem acompanhada de uma prova constante de dignidade.

Anika e Carousel buscam recomeçar diante do preconceito, da falta de dinheiro e do peso do passado. Ao assistir, aprendemos a enxergar primeiro a mente, a história e os sonhos de quem amamos. Homens negros e mulheres negras merecem a felicidade; a redenção é o lugar a que queremos chegar, e ela começa por nos vermos como sujeitos.

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