Depois da democracia é a vez do cinismo racial no país da diversidade

0
406

A gente quase não fala sobre isso. Mas o Brasil não pertencia aos meu antepassados africanos, nem aos dos brancos que chegaram antes de nós. Nossa terra é indígena, mas quantos deles você convive no dia-a-dia? Aqui em São Paulo é mais fácil encontrar uma família da Mongólia do que indígena. E extermínio racial é o termo que explica esse processo. Havia um povo, com tradições, muito conhecimento e ancestralidade que foi exterminado e é  tratado de forma quase folclórica dentro do nosso imaginário coletivo.

Sobre nós negros, esse processo de extermínio é presente. Não é por acaso que somos as maiores vítimas de homicídio e a maior população carcerária.  As instituições brasileiras não funcionam a favor da comunidade negra. Não é exagero dizer que somos todos sobreviventes e que o Brasil está programado para dificultar as nossas vidas mais do que facilitar.

Rafael Braga, o jovem condenado à 11 anos de prisão, no último dia 20 é a personalização de como o sistema judiciário é bem sucedido em tirar negros pobres de circulação, usando manobras jurídicas condenadas até por organizações de direitos humanos. O caso dele levou a comunidade negra às ruas nessa noite fria de segunda-feira, na cidade de São Paulo.

“A prisão pelo porte de pinho sol foi em 2013, durante os atos daquele ano, ficou dois anos preso por conta disso e saiu em liberdade assistida (com tornozeleira eletrônica). Essa condenação de 11 anos de prisão foi por conta de uma segunda detenção injusta, onde Rafael caminhava em seu bairro em direção a uma padaria e PMs o abordaram pedindo para que ele identificasse os traficantes locais. Ele disse que não poderia pois não os conhecia. Os PMs não satisfeitos ‘plantaram’ 0,6 gramas de maconha e 9 de cocaína em Rafael e o levaram preso. Por essa prisão ele pegou os 11 anos tráfico e associação para o tráfico de drogas”, explico Antonio Junior,  jornalista do portal Ponte Jornalismo que fez uma cobertura cuidadosa do caso.

Vigília pela liberdade de Rafael Braga (Foto: Rosenildo Ferreira)O Brasil se assumiu racista e o mito da democracia racial está cada vez mais indo por terra, porque temos dados que quebram qualquer teoria de que há oportunidades iguais para negros e brancos. Antes não poderíamos provar e hoje temos os números que não mentem. Inclusive recomendo o vídeo do Youtuber Valtinho Rege sobre a matemática da exclusão.

Esquerda brasileira: brancos também dominam

Eu não acho que todos os brancos são racistas. Até porque para alguns racistas a cor tem alguma relevância e a grande maioria do brancos privilegiados economicamente não pensam em questões raciais já que não convivem com negros. Pensam sobre feminismo talvez, sobre questões ambientais provavelmente, econômicas com certeza, mas eles não sabem por exemplo, que são a minoria no Brasil, já que no trabalho, na festinha, no clube, só tem pessoas iguais a eles.

No premiado documentário “Eu não sou seu negro”, James Baldwin, aquela mente brilhante, carregada de conhecimento erudito, tão essencial para uma reflexão universal sobre questões humanas e que aconselhou Martin Luther King e Malcom X, é preciso quando afirma que os brancos desconhecem o que é ser negro por falta de interesse mesmo.  Em seu livro, tratado no documentário ele diz. “A maioria dos brancos não tem nada contra negros,a verdadeira questão é apatia e ignorância”.

Puxando para o Brasil a realidade bruta dos números prova que a situação é pior. Aqui somos 54% da população e a nossos intelectuais (vulgo esquerda que já usufrui de muitos privilégios)  conseguem organizar um manifesto, o Projeto Brasil Nação, que fala sobre as desigualdades brasileiras sem não ter a assinatura de nenhuma pessoa negra ou indígena e menciona a questão racial uma única vez.  Fomos esquecidos.

Creio sinceramente, que  sim,  o diálogo é a solução mas é preciso parar de sermos cínicos, brancos e não brancos e não só assumir que somos um país racista, mas ir além nos envolvendo nos problemas que estão fora do seu próprio quintal, afinal vivemos numa comunidade. O problema do negro brasileiro é uma questão de interesse nacional. Somos a maioria, construímos esse pais como escravizados e em pleno século 21  o racismo explícito ou institucional (aquele tipo sujeito oculto, que a gente não vê mas está lá) impede nossos avanços e nos mata.

E mais uma vez o caso de Rafael Braga mostra que provar a inocência também é um privilégio. Daqui há uns 100 anos talvez, olharemos para esse momento da história e veremos que o sistema judicial brasileiro para quem é negro, tem quase a mesma perversidade que a escravidão. De que era um absurdo o crime de racismo não mandar pessoas para  cadeia por ser tratado como injúria racial e de que a polícia, apesar de ter profissionais muito dedicados e competentes, em boa parte, era formada por membros treinados para abarrotar as prisões de corpos negros quando esses sobreviviam a um extermínio quase institucionalizado. Mas nós como nação, somos indiferentes a essa realidade, cegados pelo cinismo de que de a comunidade negra avançou, se empoderou e sozinha é capaz de eliminar o racismo.