Criando Crianças Pretas:” Você tem que ser duas vezes melhor!”

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Crédito: Reprodução Instagram

Era início de 1992, eu tinha 7 anos, e estava animada para começar o ensino básico, na primeira série. Eu estava nervosa e com medo de não dar conta de tudo, de não conseguir aprender. Eu sempre gostei de estudar e, mesmo com pouca idade, sabia que aquela seria uma etapa importante que estava começando.

Era domingo à noite, minha mãe tinha acabado de refazer as minhas tranças. Eu pedi para ela fazer as “trancinhas caídas”, bem fininhas, para o meu cabelo ganhar movimento, isso demorou o dia todo, mas ela fez, uma a uma, e só terminou a noitinha. Meu pai estava passando o uniforme de estreia – o uniforme da escola tinha a camiseta branca e um shorts vermelho. Foi nesse momento, que meu pai, como numa conversa informal disse: “Agora filha, você tem que ser duas vezes melhor do que os outros, e se esforçar duas vezes mais, porque, mesmo assim, vão duvidar da sua capacidade e da sua inteligência”

E esse peso eu carrego até hoje…

Mas, não foi só meu pai que disse isso, os pais de alguns amigos pretos também os instruíram assim. Na introdução da música do Racionais “A Vida é Desafio” [do álbum – 1000 Tretas 1000 Trutas] diz a mesma coisa: “Desde cedo a mãe da gente fala assim: ‘Filho! Por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor'”.

Assistindo uma série norte americana chamada Scandal, em que a protagonista é uma mulher negra, há uma cena  em que o pai dela faz uma pergunta:

– Eu treinei você para ser o que?

E ela responde:

– Duas vezes melhor.

Trago esses fatos para dizer que esse discurso NÃO É COINCIDÊNCIA.

Queremos aqui, propor uma nova educação para a próxima geração de pretinhos que estão vindo, mas não podemos deixar de ENALTECER NOSSOS PAIS.

Esse tipo de frase que muitos de nós escutamos dos nossos cuidadores quando éramos crianças, era a expressão mais sincera de uma militância preta que nos permitiu sobreviver, se estamos vivos hoje, esse discurso de nossos pais pode ter feito toda a diferença.

Nossos pais, por terem vivido situações extremas de racismo e terem passado pela violência da ditadura militar, numa tentativa de nos preparar para a “guerra”, nos educavam dessa forma. Muitas vezes, eles não falavam do racismo, na intenção de não causar revoltas. O objetivo era nos preparar para fugirmos o máximo possível de situações que pudessem nos colocar em perigo ou nos expor ao racismo.

“Tira esse boné”, “não anda com a mão no bolso”, “não saia de toca na rua”, “se ver a polícia, não corra”, “ande com boas companhias”, “não faça nada de errado que eu vou descobrir”, “não arrume confusão na escola”, “nunca ande sem documentos” e tantas outras frases, que agora parecem ser traumáticas, eram, na verdade, para proteger nossas vidas.

E agora? Agora, agradeça seus pais por estar vivo. E retribua a educação que eles lhe deram propondo uma educação consciente e combativa para seus filhos.

Sobrevivemos e somos pretos e pretas que crescemos com certa liberdade de vida e de pensamentos, é hora de preparar nossos filhos não apenas para sobreviverem e sim para viverem!

Bora fazer isso juntos?

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(@paulacarolb) é jornalista e desde a graduação pesquisa questões raciais. Como trabalho de conclusão de curso na graduação, escreveu o livro reportagem Brotas – O Primeiro Quilombo Urbano do Brasil, onde conta a história da comunidade quilombola da cidade de Itatiba, interior de São Paulo. Como especialista em mídia, informação e cultura, tem realizados trabalhos com foco no combate ao racismo e na promoção da igualdade racial. Empreende realizando cursos online e presenciais que incentiva o afroempreendedorismo e ensina como novos empreendedores podem divulgar produtos e serviços utilizando canais digitais. Frequentemente é convidada para palestrar sobre assuntos como: afroempreendedorismo, questões raciais e marketing digital. Recentemente concluiu o Mestrado em Divulgação Científica na Unicamp e como tema de dissertação estudou como dois espaços na cidade de São Paulo, autodenominados Quilombos Urbanos, comunicam cultura, memória, ancestralidade e identidade negra em seus espaços. Como idealizadora do Projeto Criando Crianças Pretas (@criandocriancaspretas) – que tem como objetivo compartilhar informações e propor ideias para uma educação livre de preconceitos – vem reunindo os conhecimentos adquiridos ao longo de seus estudo e tem os transformado em conteúdo que conduz, pais e influenciadores de crianças, numa educação onde o diálogo sobre racismo esteja presente.