Criando Crianças Pretas: Volta às aulas sem dor

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O início do ano letivo de 2020 das nossas crianças está para iniciar. Os adultos Já compraram o material escolar, o uniforme já está organizado para o ano que vai iniciar, mas como está a criança?

Entra ano e sai ano, e a gente liga o piloto automático com os pequenos, assim como fazemos no mundo do trabalho. As férias acabaram, hora de voltar à realidade sem titubear, certo? Não sei.

Como já dissemos em outros posts e constantemente dizemos em nossas palestras e falas: é na escola que as crianças negras sofrem seus primeiros episódios de racismo. Um dia, numa conversa com Dona Cristina, mãe da estilista Ana Paula Xongani,  ela confessou. “Eu tive dois principais medos com as minhas crianças, o primeiro dia de aula e o primeiro dia de trabalho”. Acredito que esse medo também ronda seu coração…

Recentemente, a atriz Erika Januza, deu uma entrevista, em vídeo,  para o jornal Extra, onde ela fala sobre seu corte de cabelo e outras questões. Fiquei impactada por uma das frases que ela disse: “As piores coisas eu ouvi quando era criança. E não era uma coisa que eu chegava em casa e compartilhava com a minha família (…)”

Nesse texto não estou incentivando os pais a não enviarem as crianças para a escola, mas acredito que uma preparação para esse início ou retomada vale muito a pena. Não dá para ter certeza de que nenhum episódio racista irá acontecer, mas podemos nos prevenir. Então vamos propor aqui a sugestão de conversas que você pode ter com as crianças e com os profissionais da escola, nesse início de ano letivo.

Com as crianças:

Retorno à rotina: Foram quase 2 meses sem rotina, dormir tarde, acordar tarde, sem compromissos… Ir retomando algumas práticas da rotina como horários de dormir e refeições, ajuda a não ter uma mudança brusca no cotidiano da criança.

Ouça o que acriança tem a dizer: Converse com a criança e identifique se há medos e preocupações. Caso haja, converse até que a criança fique mais tranquila, segura e confiante.

Relembre a parte boa: Demonstre empatia, seja positivo e fale sobre as situações alegres, emocionantes e positivas que poderá vivenciar ao longo do ano letivo. Relembre quem são os amigos e que legal será reencontrá-los.

Atenção aos primeiros dias: Fique atento principalmente nos primeiros dias de aula. Como a Erika Januza mesmo relatou, as crianças não contam em casa o que estão passando na escola, nós precisamos investigar.

Na escola:

Material didático: Dê uma revisada nos livros, veja quais assuntos que serão tratados durante o ano e atente-se aos conteúdos sobre a história da África, afro-brasileira e indígena apresentadas nos livros. Por lei, esse conteúdo deve permear a grade curricular de todos os anos escolares de escolas públicas e particulares.

Conheça o corpo docente: Novo ano, muitas vezes significa professores novos. Converse com os professores no primeiro dia de aula, demonstre interesse e engajamento pela vida escolar do seu filho ou filha. Essa pessoa vai acompanhar a criança durante todo o ano, estabeleça uma relação de confiança desde o início.

Coordenadores pedagógicos: Com esses profissionais você também pode se mostrar um pai ou uma mãe presente na educação das crianças. Pergunte se há algum protocolo quando ocorrem episódios de racismo, bullying e etc. Questione se a equipe pedagógica está treinada para agir quando algo desse tipo acontece. Você também pode indicar o trabalho de conscientização sobre o racismo que o Criando Crianças Pretas realiza nas escolas com profissionais, pais e alunos.

Primeira reunião do ano: Normalmente as escolas realizam uma primeira reunião para informar aos pais como será o ano letivo. Utilize essa oportunidade para sugerir uma bibliografia que contemple a diversidade e saber o que está programada para aplicação da lei que obrigada o ensino da história da África, afro-brasileira e indígena.

Entre pais: Se não houver, sugira um grupo de WhatsApp dos pais. Eu sei, mais um grupo vai acabar nos enlouquecendo, mas ter uma relação estreita com os demais pais também ajuda no combate ao racismo. Ali dentro do grupo você pode alertar os pais sobre o racismo e indicar conteúdos como os que publicamos no perfil do Instagram/Facebook @criandocriancaspretas.

No mais é ter fé para que o ano seja maravilho e a criança cresça feliz, radiante e forte. Última sugestão: não pegue muito pesado… Uma vez ouvi que o trabalho da criança é a brincadeira e não os estudos! Bom início de ano letivo para nós.

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(@paulacarolb) é jornalista e desde a graduação pesquisa questões raciais. Como trabalho de conclusão de curso na graduação, escreveu o livro reportagem Brotas – O Primeiro Quilombo Urbano do Brasil, onde conta a história da comunidade quilombola da cidade de Itatiba, interior de São Paulo. Como especialista em mídia, informação e cultura, tem realizados trabalhos com foco no combate ao racismo e na promoção da igualdade racial. Empreende realizando cursos online e presenciais que incentiva o afroempreendedorismo e ensina como novos empreendedores podem divulgar produtos e serviços utilizando canais digitais. Frequentemente é convidada para palestrar sobre assuntos como: afroempreendedorismo, questões raciais e marketing digital. Recentemente concluiu o Mestrado em Divulgação Científica na Unicamp e como tema de dissertação estudou como dois espaços na cidade de São Paulo, autodenominados Quilombos Urbanos, comunicam cultura, memória, ancestralidade e identidade negra em seus espaços. Como idealizadora do Projeto Criando Crianças Pretas (@criandocriancaspretas) – que tem como objetivo compartilhar informações e propor ideias para uma educação livre de preconceitos – vem reunindo os conhecimentos adquiridos ao longo de seus estudo e tem os transformado em conteúdo que conduz, pais e influenciadores de crianças, numa educação onde o diálogo sobre racismo esteja presente.