Muitas pessoas enviam para o nosso perfil a seguinte pergunta: “Qual é o melhor momento para falar com a criança sobre a questão racial?”

A gente sempre responde: Não há uma fórmula certa, já que cada criança tem um perfil e um modo de perceber o mundo. Mas também falamos que essa conversa precisa acontecer de forma natural, com exemplos do cotidiano.

A gente fala também, que esse assunto pode estar implícito nos brinquedos, nos desenhos, animações, nos passeios, nos livros. Onde der para colocar uma referência negra, coloca!

Outra fala nossa é que essa conversa não precisa e nem deve ser somente sobre dores e escravidão. Enaltecer a beleza, a criatividade, a inteligência e a cultura negra, também é falar sobre questões raciais. Nesses momentos, inclusive, é que acontecem aquelas perguntas importantes para a compreensão da questão.

Enfim, o carnaval chegou e você tem 5 dias de boas oportunidades para envolver as crianças nesse assunto. E como sempre aqui vão alguma dicas:

Que tal pensar numa fantasia que contemple a nossa cultura ou personagens negros de animações e desenhos. Tenho visto muito reis, rainhas, príncipes e princesas de Wakanda desfilando por aí. Aproveite para conversar sobre o que não é fantasia, como, por exemplo, a identidade das pessoas.

Essa festa grandiosa como ela é hoje saiu da cabeça de quem? Você pode lançar um desafio para ver se a criança descobre ou mesmo pesquisar com ela sobre a origem do carnaval no Brasil, o nascimento do samba na Bahia a partir da cultura afro-brasileira, a influência política e econômica do Carnaval, até chegar no modelo atual.

Já que entrou no assunto, já emenda falando sobre as nossas origens, das tradições africanas, da mitologia, folclore, língua, culinária, música, dança, religião e de como o imaginário cultural brasileiro deve reverência aos negros brasileiros. Fale da nossa genialidade, criatividade, inteligência e capacidade de fazer uma grande festa.

São tantos os blocos que a gente fica até com dúvida para escolher, mas que tal, além dos blocos infantis a gente prestigiar blocos da cultura afro-brasileira, blocos negros, blocos tradicionais, blocos de maracatu, blocos que enaltecem e homenageiam personalidades negras e a cultura afro-brasileira? Ah, não vai rolar bloquinho aí onde você está? Que tal assistir, pela televisão mesmo, o desfile de algumas escolas de samba que vão falar sobre a nós?

Com tanta gente diferente nos blocos, desfiles e festas, que tal falar sobre como é chato esse lance de padrão de beleza? Desconstrua a beleza perfeita. O corpo perfeito é aquele que é saudável e ponto final! Somo todos bonitos e bonitas do jeitinho que somos, sem padrões nem regras. Vá para frente do espelho, bota uma música animada e celebrem a beleza de vocês!

E por fim, fale que elas, as nossas crianças pretas são herdeiras diretas de toda essa cultura, de toda essa beleza e grandiosidade, afinal, eles é que vão dar continuidade à nossa resistência enquanto povo, cultura, ancestralidade, história, memória, etc.

Não se esqueça de beber água, passar protetor solar, brincar com responsabilidade sem deixar de lado a alegria.

Texto de Paula Batista e Deh Bastos do @criandocriancaspretas com participação de Táti Fávaro do perfil @criarfilhos
Foto: @ileaye

 

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(@paulacarolb) é jornalista e desde a graduação pesquisa questões raciais. Como trabalho de conclusão de curso na graduação, escreveu o livro reportagem Brotas – O Primeiro Quilombo Urbano do Brasil, onde conta a história da comunidade quilombola da cidade de Itatiba, interior de São Paulo. Como especialista em mídia, informação e cultura, tem realizados trabalhos com foco no combate ao racismo e na promoção da igualdade racial. Empreende realizando cursos online e presenciais que incentiva o afroempreendedorismo e ensina como novos empreendedores podem divulgar produtos e serviços utilizando canais digitais. Frequentemente é convidada para palestrar sobre assuntos como: afroempreendedorismo, questões raciais e marketing digital. Recentemente concluiu o Mestrado em Divulgação Científica na Unicamp e como tema de dissertação estudou como dois espaços na cidade de São Paulo, autodenominados Quilombos Urbanos, comunicam cultura, memória, ancestralidade e identidade negra em seus espaços. Como idealizadora do Projeto Criando Crianças Pretas (@criandocriancaspretas) – que tem como objetivo compartilhar informações e propor ideias para uma educação livre de preconceitos – vem reunindo os conhecimentos adquiridos ao longo de seus estudo e tem os transformado em conteúdo que conduz, pais e influenciadores de crianças, numa educação onde o diálogo sobre racismo esteja presente.