Conversamos com Criolo sobre esperança, música, saúde mental na quarentena e saudade dos palcos

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Foto: Divulgação

Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, vive seu maior tempo distante dos palcos desde os 13 anos de idade. A pandemia afastou o rapper do público, ao menos presencialmente. 

Com lançamentos de singles como “Sistema Obtuso” e “Fellini”, Criolo continua se mantendo entre os artistas mais relevantes da nossa MPB. Desde o álbum ‘Nó Na Orelha’, de 2011, o filho do Grajaú foi alçado a um dos nomes mais requisitados para parcerias, seja na cena do rap nacional ou da MPB, dividindo estúdio e palco com nomes como Ivete Sangalo, Milton Nascimento, Emicida e Rashid

Nina Simone disse uma vez que o artista deveria refletir seu tempo e no Brasil, Criolo pode ser encaixado sem reservas entre os músicos que não tem receio de serem um reflexo de momentos conturbados em que o páis foi jogado. Em 2018, o clipe cinematográfico de “Boca de Lobo” evocava mais referências do que os dedos da mão podem contar, desde o governo Temer, os casos crescentes de dengue e chikungunya, passando pelo assassinato de crianças por policiais militares no Rio, enquanto a letra faz referência a Pablo Escobar, Pablo Neruda. 

Imagem: Acervo do artista

Após ‘Boca de Lobo’ vieram canções emblemáticas como o manifesto ‘Etérea’, sobre o respeito a diversidade no amor (Uma bala/ Quase hétero/ Etérea, massa, complexo/ De não se entender/ Um canalha/ Quase hétero/ Ignorar amor por complexo/ Medo de nele se ver), ‘Sistema Obtuso’, trazendo mais um clipe denúncia sobre a destruição da Amazonia, estrelado pelo ator Júlio Andrade, fazendo papel de grileiro e a mais recente ‘Fellini’, com sua letra imagética: “Parafal e granada/ favela em desgraça/ Só agrada o dono do poder/  2020 afogando os Nazi/ Eu nem sou violento, nem quero ser/ Entrada de ano trocando no asfalto/ se tiver de palio vai morrer”. 

Criolo falou brevemente ao Site Mundo Negro sobre esses lançamentos, a tristeza de estar longe dos palcos e esperança num país melhor. 

Confira a entrevista completa abaixo: 

Mundo Negro: A pandemia afastou artistas do público. Para você como foi lidar com esse distanciamento dos palcos? 
Criolo: Desde os meus 13 anos de idade nunca fiquei tanto tempo sem cantar, dá um tristeza danada na gente . 

Mundo Negro: Os fãs foram presenteados nos últimos anos com singles como “Sistema Obtuso” e mais recentemente “Fellini”, no entanto seu último disco de inéditas foi “Espiral de Ilusao”, de 2017. Há previsão para um próximo álbum? 
Criolo: Tenho algumas canções e espero poder dividir logo com todo mundo, só não sei o formato. Se for um álbum vai ser tão bom! 
 
Mundo Negro: Desde que “Nó da Orelha” foi lançado, você passou a transitar em parcerias com artistas do mainstream como Ivete Sangalo, do Underground como Rashid e com mestreas da MPB como Milton Nascimento. Diante de todas essas experiências como acha que o Criolo pré “Nó na Orelha” se enxergaria hoje? 
Criolo: Como alicerce pra essas andanças na música. O rap e sua força me conduziram a caminhos lindos e a gratidão é eterna. 
 
Mundo Negro: Há uma qualidade vocal para o canto na sua voz que nem sempre é presente nos rappers brasileiros. Quando você percebeu que tinha qualidade 
vocal para o canto?  
Criolo: Na verdade, eu acredito que esse vocal está sim com os Mcs. Seja no rap, no funk ou no trap, antigamente não tínhamos o espaço e eram poucas também as referências. Hoje vejo jovens no rap, no funk e no trap construindo suas melodias, explorando suas extensões vocais, isso é mesmo algo que me alegra. Só um pouquinho de calma, paciência e um tempinho de pesquisa vocês vão encontrar lindas vozes. 

Imagem que representa bem a inquietude de Criolo

 
 
Mundo Negro: Você já mudou algumas passagens de suas músicas porque entendeu que determinado trecho era ofensivo a um grupo social.  Acha que a mudança é um apagamento da obra que reflete um certo período da história do artista ou crê que essas revisões devam ser mais frequentes? 
Criolo:
Não entendo que seja apagamento, nesses casos são correções onde o antes e o depois servem para se compreender o caminho do aprendizado. E a frequência disso é o coração que diz aquilo que você encontra em você e no outro. 

  
Mundo Negro: O que você anda ouvindo de música nesse ano pandemico que tem te inspirado como artista? 
Criolo: Muito rap, muito, muito Milton Nascimento e de tudo um pouco. 
 
Mundo Negro: No clipe de “Sistema Obtuso” há uma mensagem forte sobre as queimadas acontecidas na Amazonia. Enxerga uma melhora no aspecto da preservação ambiental num futuro próximo? 
Criolo: Não se continuar assim. Vai ser como um trecho final de uma música dos Racionais: “minha verdade foi outra, não dá mais tempo pra nada…” 
 
Mundo Negro: “As pessoas não são más. Elas só estão perdidas”. Você chegou a duvidar dessa frase diante do cenário político e social pelo qual estamos passando? 
Criolo: Me apego nessa juventude, que nos momentos de crise do país têm apresentado caminhos para transformação. Inspirando pessoas de todas as idades e classes a se movimentar de modo positivo. 
 
Mundo Negro: O rap é caracterizado por abordar temas sociais e dar voz e visibilidade as agruras das quebradas. Nos últimos anos tivemos a ascensão de artistas que, assim como o funk ostentação, gosta de rimar sobre riquezas, conquistas, e focam menos 
nas denúncias de violência policial, abusos de poder politico. Por que acha que houve a mudança de discurso?
da cena do rap. 
Criolo: Não houve mudança é que algumas músicas giram mais que outras. As vezes, quando um jovem fala que quer ter uma mansão é pelo motivo simples e cruel da sociedade lhe apresentar o seguinte quadro: tem dinheiro? Ok !!! Não tem? você é tratado como lixo. Simples, cruel e real retrato de um efeito eficaz. Nossos jovens cansaram de ser vistos como lixo. Entenderam o jogo e foram jogar, no meio disso tudo muito se ganha e muito se perde, mas isso é fruto de algo que não foram eles que construíram, os jovens tentam de alguma forma sobreviver a tudo isso. Cada um responde do- seu jeito as pancadas que a vida dá. 
  
Mundo Negro: “Povo Guerreiro”, “Etérea”, “Boca de Lobo”, são canções de samba, eletrõnica e boombap com pitadas de trap. Quando poderemos te ouvir cantando 
um rock ? 
Criolo: Tenho ainda muito a aprender e viver para um dia escrever e cantar rock. 
 
Mundo Negro: Saúde mental, ausência de afetos, exercício da sexualidade com o próximo, tem sido assuntos muito discutidos pelas pessoas que cumprem o isolamento enquanto a pandemia não arrefece. Como tem lidado com os fatores citados? 
Criolo: O momento é fúnebre, manter-se vivo é a lei. De onde eu vim essa lei existe há 500 anos, antes da pandemia, e agora segue com mais dificuldades e desafios. O Brasil disse que pobre não tem direito a viver. Aqui nessa terra a gente sobrevive, e a arte é um dos caminhos pra se preparar uma mudança, tendo a educação com nossos professores/as como alicerce fundamental para esse passo. 
 
 
Mundo Negro: O Site Mundo Negro é um portal que tem como público alvo e majoritário pessoas negras e você é uma referência para muitos de nossos leitores. 
Uma mensagem sua para tempos difíceis em um país que massacra negros, gays e mulheres? 
Criolo:A gente segue e a gente não desiste! A gente luta, grita, sorri, chora, mas a gente é a gente em alma, carne e sonhos! Nós somos lindos e é Pokas Idea, ok !?

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