Comunicação periférica: A importância de falar do nosso jeito para os nossos

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Foto: Reprodução

*Por Michelle Serra, mãe solo, preta e periférica, produtora cultural na agência Iyabá

A inquietação de estar sempre no meio da galera branca, filhos de herdeiros e muitas vezes como a única pessoa negra nessa bolha, me trouxe muitas inquietações nos últimos cinco anos. E não foi fácil sair da minha zona de conforto e, começar tudo de novo! Estou tendo o privilégio, me dando o direito de nos últimos anos me permitir caminhar, e me unir com mulheres que tivessem a mesma visão que eu, como Raiany Fernandes e Marta Carvalho. Ambas mulheres pretas e muito batalhadoras, duas pessoas de extrema importância para o meu crescimento pessoal e profissional. Quando tinha desistido da produção cultural e estava na Namíbia prospectando novas formas de trabalhar, Raiany me deu uma “injeção de ânimo” para lutar e deixar um mundo um pouco melhor para as próximas pretas que virão. 

E como mãe solo, sempre tive a inquietação de saber “como será o futuro das próximas gerações?”. Até quando perderemos os nossos jovens para o crime ou até quando morrerão a cada 23 minutos nas garras da polícia pelo simples fato de serem pretos e da quebrada? Como falar? E como ser ouvida? Essas são as perguntas eu faço quase sempre que círculo na quebrada, e vejo a molecada sentada na esquina, ouvindo seu funk e tomando seu drink, como se não houvesse o amanhã. 

E desde então, tenho virado as madrugadas escrevendo projetos e conversando com diversos parceiros afroempreendedores. E assim se deu esse encontro com Diogo Terra e M.IA., que decidiram somar comigo no projeto “Quebrada Viva”, que tem o intuito de levar às periferias, no Aniversário de São Paulo, mensagens por meio de projeções em laser incentivando que sigam em casa, na medida do possível. 

E como diz o artista visual M.I.A: “Olhai por nós”, expressão que intitulada uma de suas intervenções de pixo. Assim sigo minha árdua correria como mãe solo, preta e periférica, produtora cultural e sonhadora. Uma mulher que tem aprendido muito com outras mulheres. E sendo bem sincera, cansei de ser a única preta andando nas maiores casas de shows e não ver muitos pretos nesses espaços. Quero arte e cultura sendo fomentada e patrocinada no meio dos meus. Quero vida melhor para a galera da quebrada. Sonho em um dia ver o meu povo nos lugares mais altos. Assim como eu pude sair um dia da quebrada e aprender com outras culturas e costumes, e ter a experiência de desenvolver a escuta.  Dizem que sou nômade (risos) por viajar por mais de 10 países. Ir para França, Espanha, Holanda, Alemanha, Bélgica, Argentina, São Tomé e Príncipe, Angola, África do Sul e Namíbia me trouxe a sensibilidade e a força para motivar as próximas gerações. 

Durante muitos anos na minha vida ouvi sobre liberdade financeira e qualidade de vida. Sempre fui muito ambiciosa nos meus sonhos e nas minhas vontades. E sempre pensei em como motivar pessoas para que isso fosse possível. ‘São Tomé e Príncipe’ e ‘Namíbia’ foram países importantíssimos na minha caminhada para viver e trabalhar como produtora cultural.  Tenho observado que cada vez mais empreendedoras da periferia estão assumindo papéis de liderança e se tornando protagonistas das suas próprias histórias. E através dos diferentes meios de Comunicação, como o vídeo mapping, a projeção a laser, a música, os saraus, e o teatro, estamos conseguindo dialogar com a nova geração. Ainda temos um grande caminho pela frente, e uma grande necessidade em descentralizar a arte, uma das questões de extrema urgência para nosso convívio em sociedade. Sempre ficamos com as migalhas, espaços sucateados e falta de incentivo e patrocínio. Enquanto isso, a elite goza dos melhores espaços e orçamentos. 

Aqui é nóis por nóis. Então com grana ou sem grana, seremos sempre resistência e não deixaremos a cultura morrer. E foi assim que nasceu o “Quebrada Viva”! Como diz Conceição Evaristo, “Eles podem tentar nos matar, mas nós combinamos de não morrer”.

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