“Com 10 anos eu dizia que seria a presidente do Brasil”, diz Gabriela Chaves, criadora da NoFront

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Por Rodolfo Gomes e Victória Gianlourenço

Antes de se formar em economia, Gabriela Mendes Chaves se formou no RAP.  Desde pequena já sabia o que era racismo ao frequentar os shows do Racionais MC’s na pracinha do Campo Limpo. Nascida no Embu das artes, com 4 anos ela foi morar no Taboão da Serra, pertinho do Capão Redondo, onde passou toda a sua infância.

Filha do Sr. Elias, metalúrgico, e de dona Rozimeire, uma mulher com muitas profissões: costureira, segurança, cabeleireira, comerciante e assistente social, Gabriela tem três irmãos: Beatriz, de 23 anos, gestora de políticas públicas e mestranda em desigualdade racial no âmbito eleitoral pelo Departamento de Ciência Política (USP), e 2 irmãos mais novos, de 9 e 12 anos.

Ao longo de toda a sua infância e juventude foi o esforço de sua mãe que permitiu que Gabriela tivesse acesso a bons estudos. Estudou até a terceira série em escola pública, quando sua mãe virou agente de segurança e conseguiu o trabalho numa escola de elite em São Paulo. A regra permitia que filhos de funcionários fizessem uma prova, para concorrer a bolsas de estudos integrais. E nessa oportunidade, Gabriela aplicou e se qualificou para receber a bolsa.

Foi um choque gigantesco em muitas dimensões. As proporções eram muito diferentes. Essa escola tinha um sistema de ensino bastante complexo, e logo a primeira aula foi sobre soma de frações, assunto ao qual Gabriela não dominava. “Imaginava que não fosse conseguir acompanhar. Chorei quando cheguei em casa e pedi pra minha mãe pra desistir”, conta.

Com o apoio da sua mãe, insistiu, e a matemática, que era uma fraqueza, virou sua maior força. Inclusive, ganhou menção honrosa ao final do ensino médio por ter as maiores médias. “Com 10 anos eu dizia que seria a presidente do Brasil. Eu sempre fui uma criança ousada. Queria ser juíza, fazer direito e ter poderes para modificar as estruturas”, relembra.

Aos 17 anos, obcecada em cursar Direito em uma faculdade pública, se dedicou ainda mais aos estudos, mas não obteve nota suficiente para ser aprovada. Através do ProUni, conseguiu entrar em economia, na PUCSP. Indecisa quanto a cursar economia, consultou um professor, certa de que não queria trabalhar em banco. Desse professor recebeu muitos incentivos e conselhos, e resolveu tentar. Apesar do primeiro dia ter sido difícil, se apaixonou pela ideia de ser uma cientista econômica.

“Economia é sobre como a gente produz e distribui coisas numa sociedade. Ninguém é uma ilha, e a gente precisa trocar o tempo todo. Muito além do dinheiro, a economia é o estudo desta produção e distribuição de valores na sociedade. Tangíveis e intangíveis”, diz.

Apesar de bolsista, cursar uma faculdade de ponta exigia dinheiro para arcar com os custos de alimentação, transporte, gastos com cópias, entre outros, e Gabriela começou a procurar emprego, para ajudar a custear suas despesas. Encontrou uma posição no mercado financeiro, onde passou quase três anos.

Incentivada a buscar seu lugar ao sol, e explorar toda a sua base de conhecimento, conquistada com muito esforço, Gabriela foi atrás da sua missão, que sempre foi democratizar o acesso ao mundo dos investimentos. E assim, em 2018, surgiu a NoFront.

“É possível conquistar as coisas através do investimento, e não somente do endividamento. A gente naturaliza a dívida”, diz. Assim que fundou a NoFront, Gabriela entrou no mestrado em Economia Política Mundial na UFABC, que ampliou ainda mais o seu universo de possibilidades. Entre 2019 e 2020, foi convidada a fazer algumas formações no Zimbábue e na Nigéria, na África.

“Meu trabalho se estrutura entre o empreendedorismo e a academia: estudos de gêneros e discussões sobre economia política.” O começo da NoFront foi um momento de muita luta. Tiveram o apoio de algumas organizações, que cederam sua infra e espaço físico, para que o projeto ganhasse vida. E assim começou a jornada de democratização do acesso à economia, para os periféricos.

“Todo mundo é impactado pela economia, não importa qual o papel. E ao longo dos últimos anos já foram mais de 5.000 pessoas formadas por nós. Três anos depois, a gente vê as pessoas se organizando em relação a reservas de emergência, alunos conseguindo quitar suas dívidas, fazer intercâmbios, reformar suas casas, eliminar endividamentos crônicos.” 

Além das formações, Gabriela se dedica a palestras, lives, que ganharam ainda mais força na pandemia, sempre com foco em orientar as pessoas a como trabalhar com a nova realidade de salários cortados pela metade, auxílio emergencial, desemprego, e garantir sua sobrevivência, dignidade e saúde.

Gabriela conta que a dívida adoece as pessoas. Estresse, pressão alta e diabetes também podem ser causados por essas preocupações e pela falta de paz, em razão do telefone que não para de tocar.

A NoFront atua em três eixos. O eixo digital, que usa a tecnologia para transformar a vida das pessoas com educação financeira, através de conteúdos e produtos digitais, cursos, mentorias e palestras. O eixo social, que busca articulação com Organizações da Sociedade Civil, com a missão de chegar em quem não tem condições de bancar os cursos e formações. E o eixo empresarial: que atua na formação de colaboradores das empresas, através de palestras, workshops, e produtos para empresas que querem treinar seus colaboradores.

“Atuamos para que as empresas percebam que é necessário investir nas pessoas de forma sustentável. Muito além de empréstimos consignados, contas bancárias, que em muitos casos só geram mais dívidas, enquanto deveria ser o contrário.” Gabriela conta que as empresas que se adequaram ao século XXI deixam de ter o lucro como único fator de sucesso. O lucro a qualquer custo já não cabe mais em nossa sociedade. A humanidade não está mais disposta a pagar esse alto preço.

Ousada, Gabriela sempre conversou com as músicas dos Racionais MC’S procurando aprendizado sobre autoestima e racismo. “Várias músicas foram um suporte muito importante, no sentido de saber que ser quem eu sou pode não ser facilmente compreensível, mas eu tenho um lugar no mundo”, contou.

Gabriela acredita que a arte tem o poder de transformar quem produz e quem nela imerge. Por anos, o rap foi estigmatizado, por suas letras duras, que retratam a realidade.

“No contexto que vivemos, não dá pra ser suave. O rap pode assumir muitas formas. Luta para ser reconhecido enquanto gênero artístico musical. Rap não é sobre dureza. É sobre nomear em primeira pessoa as coisas que estão no âmbito do intraduzível.”

Hoje, aos 26 anos, analisa que o maior desafio que enfrentou e está enfrentando está relacionado à valorização financeira.

“Chegar lá é um conceito que muda a todo momento na vida. É muito importante apreender os problemas no curto, médio e longo prazo. E no longo prazo tudo é possível, de acordo com as ações que estamos tomando no curto prazo. Não é fácil, mas é muito importante investir na sua dignidade e na sua verdade”, conclui.

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