Cocielo e outros: Comunidade negra, a ofendida e menos ouvida, quer racistas banidos

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Uma conversa entre pessoas brancas, marcas, influenciadores, imprensa, debatendo como lidar em situações de racismo, sem dar voz para pessoas negras. Isso é o Brasil, em 2018.

Quando uma mensagem racista de alguém de relevância, mesmo que fabricada como do Júlio Cocielo, vem à tona, não é só o personagem mencionado, no caso o jogador francês Kylian Mbappé a vítima, e sim toda uma comunidade. O mexeu com um, mexeu com todos, vale para questões raciais também.

Reprodução Twitter

Cada manifestação online ou off-line relativas a esse caso, são de pessoas que se sentiram atingidas por aquele conteúdo e exigem justiça.

Se números são tão importantes, porque marcas e agências nunca se apegam aos números demográficos que apontam que a maior parte da população brasileira é negra e direcionam seu orçamento, mesmo que seja só a metade, a quem conversa com essa parcela da população?

“Naturalmente o ambiente discriminatório que acontece no mundo off-line, acaba levando esse comportamento também para o mundo digital. Por isso que negros, produtores de conteúdo, têm chances menores de serem seguidos por milhares de pessoas e ter seu conteúdo celebrado por muita gente na Internet” detalha Ale Santos, autor Indie de SCIFI & Fantasia Afro-americana, consultor de Gamificação e Griot Transmídia.

Ale Santos (Foto: Arquivo Pessoal)

A premissa que a população negra é a maioria, mas não consome, também é baseada em preconceito, não em dados. Os números mostram, que em 2017 a comunidade negra movimentou 1,5 trilhões de reais (Instituto Locomotiva).

E nada disso é novidade. São dados ignorados por pessoas que não querem potencializar projetos feitos pela comunidade negra. Eles querem uma mídia massivamente jovem, branca e de preferência da região Sudeste do país.

“Se as marcas realmente querem promover toda essa inovação que elas prometem que vão construir no mundo, se elas querem dar voz para as pessoas, elas têm que dar voz para quem está na base da pirâmide, para as pessoas que são excluídas, e olhar para os assuntos delas também, além de evitar que elas sejam oprimidas por quem está falando besteira”, alfineta Santos.

Twitter e Youtube deveriam banir Cocielo? Para os ofendidos, sim

Fizemos uma pesquisa no Stories do site Mundo Negro, no Instagram, perguntando se nossos leitores achavam que o caso do post racista era passível de banimento do Júlio Cocielo do Youtube. Das 900 pessoas que responderam à enquete, 96% acham que ele deveria ser expulso do da plataforma de vídeos.

“Nos casos explícitos de racismo como esse, as plataformas deveriam remover o perfil daquela pessoa, por que os prints comprovam. As marcas deveriam punir essas pessoas já que essas pessoas violaram os termos de uso, que é o de não usar linguagens racistas e discriminatórias. Se as pessoas denunciam, esses perfis têm que ser removidos”, defende Paulo Rogério Nunes, publicitário, especialista em diversidade e professor da Universidade Católica de Salvador.

Paulo Rogério Nunes (Foto: Arquivo Pessoal)

A Assessoria de Imprensa do Google, nos informou que a plataforma não irá se pronunciar sobre o caso, porque as manifestações racistas não foram feitas na plataforma. A empresa reforçou a importância da comunidade em denunciar o conteúdo inapropriado.

Outro caso de racismo disfarçado de piada veio de um dos humoristas mais preconceituosos do Brasil Danilo Gentilli.

No final do mês de Outubro de 2012,  o tradutor Thiago Ribeiro resolveu se manifestar contra as piadas racistas feitas por Gentili em seu programa “Agora é tarde”, veiculado pela Band. Uma piada que associava jogadores de futebol à macacos fez com que o tradutor entrasse em contato com a emissora para obter os dados necessários para a formalização de uma denúncia de racismo junto ao Ministério Público. Ao saber das intenções de Thiago, o comediante usou seu Twitter para dar a resposta perguntando “Quantas bananas você quer para deixar essa história para lá”. Em 2014, o apresentador da Band foi absolvido.

Legislação e termos de uso

“Não é permitido promover violência, ameaçar ou assediar outras pessoas com base em raça, etnia, nacionalidade, orientação sexual, sexo, identidade de gênero, religião, idade, deficiência ou doença grave”. Esses são alguns pontos dos termos de uso do Twitter. Se essas normas estivessem sendo praticadas, os perfis do Cocielo, do Biel, para citar os famosos que foram pegos em flagrantes, não deveriam mais estar no ar.

“Esse tipo de discurso que ele fez é racismo mesmo. Quando ele cita que uma determinada pessoa tem uma função na sociedade por conta da cor, ele está incidindo na lei do racismo aqui no Brasil, a 7716 de 1989, que é praticar ou induzir a discriminação ou o preconceito de raça, etnia, religião ou procedência nacional. Ele pode ser processado por isso. Já tivemos um caso de uma jovem que falou que nordestino não é gente e ela foi condenada a prestação de serviços à comunidade, pagamento de multa e indenização. Ele pode sofrer o mesmo processo e pena dessa jovem” esclarece Juliano Trevisan Advogado especialista em direito constitucional, Membro da Comissão de Igualdade Racial da OAB/PR e Youtuber no canal Escurecendo as Coisas.

Juliano Trevisan (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre banimento, Trevisan acha que seria mais complicado. “Acho que seria mais cabível uma publicação de retratação. Como penalidade o banimento é mais improvável, a não ser que ele tenha ferido os termos de uso  ou política de privacidade da plataforma. No Facebook isso é melhor explicado do que no Twitter, que na prática é uma rede mais livre e que não tem tanta privação. Caso ele não remova a postagem racista, caberia uma multa para cada dia que ele deixasse a publicação no ar”, finaliza o advogado.

O fim da era do silêncio

“A pessoa que é ofendida hoje, seja com qualquer piada, ela tem voz. Nesse caso do Cocielo, muitos outros ofendidos se manifestaram, inclusive os que têm uma certa voz, desde o Bruno Gagliasso que é um artista proeminente com milhões de seguidores à Youtuber Gabi Oliveira.” A análise é de Nadja Pereira, Analista de social data e pesquisadora. estudante de big data analysis na FIA Business School.

Nadja Pereira (Foto: Arquivo Pessoal)

“Os micro-influenciadores e os grandes influenciadores que têm simpatia com a causa da equidade racial, também se sentiram ofendidos com esse tipo de comentário e tomaram voz sobre isso. Por mais que para umas pessoas isso seja mimimi, significa que todos têm voz, é a democratização da informação no sentido antropológico mesmo”, complementa a pesquisadora.

Novamente no Twitter , alguns usuários resgataram postagens antigas do jornalista Ronald Rios, que tinham conteúdo racista.

Depois da confusão no seu perfil, ele correu para escrever um artigo no Médium onde disse.

 

“Mas nessa do  saci, meu bom, é sério, eu era só um cara branco idiota tentando ser preto porque pretos são legais. Há 10 anos. Hoje em dia eu sei o que sou. E eu não sou racista”, se defende o jornalista.

Dizer que não é racista, que errou, que tem bom coração, é um direito das pessoas, porém a Internet não é um espaço para amadores. Quando quem foi silenciado finalmente pode se expressar, um pedido de desculpas pode não ser mais o suficiente, até porque quando negro erra, a história é outra.

 

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