“Muitas vezes, o embate entre nós, negros, é mais fácil do que derrubar uma figura branca racista”, afirma a psicóloga
As redes sociais não raramente têm um impacto na comunidade negra similar ao da Carta de Lynch. O texto, que não tem comprovação histórica mas é usado como parábola por ativistas, fala da história de Willie Lynch, um suposto proprietário de escravos no Caribe que mantinha os escravizados sob controle, exaltando as diferenças que eles tinham entre si. A história serve como exemplo de como o “dividir para conquistar” é uma técnica eficiente para criar rivalidade em grupos historicamente oprimidos.
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A suposta carta escrita em 1712 dizia: “Verifiquei que entre os escravos existem uma série de diferenças. Eu tiro partido destas diferenças, aumentando-as. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja para mantê-los debaixo do meu controle. Eu vos asseguro que a desconfiança é mais forte que a confiança e a inveja mais forte que a concórdia, respeito ou admiração.”
Cortando para o século 21, a comunidade negra no Brasil ainda interage com seus pares de forma desconfiada. A culpa, assim como no caso dos nossos ancestrais do século XVIII, não é das pessoas negras, mas do cenário onde o racismo gera escassez de oportunidades e onde nossa união é vista como ameaça.
Se para os brancos só ser branco já é um fator que gera empatia, acolhimento e oportunidades entre pares, para os negros é um pouco mais complicado.
Cida Bento é psicóloga, cofundadora e diretora do CEERT, referência em equidade racial no trabalho. Autora de O Pacto da Branquitude, ela influencia políticas públicas e práticas de inclusão, atuando como mentora de lideranças e estrategista contra o racismo institucional. O Pacto da Branquitude é um conceito que descreve um acordo não verbalizado e inconsciente entre pessoas brancas. Baseado em acordos tácitos, visa manter privilégios e posições de poder no Brasil, perpetuando o racismo estrutural e as desigualdades raciais mesmo após o fim da escravidão. É também um pacto narcísico.
Mas e a comunidade negra? Tem seus próprios pactos? Quando discordamos, é válido tornar isso um debate público? O financiamento comunitário pode suprir a fuga das marcas das nossas pautas? Nessa entrevista exclusiva, Cida responde essas e outras questões.

O pacto racial implica ignorar as falhas de membros do mesmo grupo?
“É importante refletir sobre pessoas negras falando de maneira pejorativa sobre organizações e outras pessoas negras. É sempre bom lembrar que nós, brancos e negros, homens e mulheres, aprendemos como se trata os negros no Brasil. Aprendemos nos livros didáticos, nas novelas e na universidade. Aprendemos junto com os brancos.
Apesar dessa aprendizagem, podemos mudar essa realidade, mas precisamos falar sobre ela. Precisamos discutir como nós, negros, também podemos ter internalizado negatividades sobre o nosso próprio grupo e corpo, e como lidar com isso. Isso tem dimensões cognitiva, emocional, afetiva e ética: como cuidamos de nós mesmos?
Muitas vezes, o embate entre nós, negros, é mais fácil do que derrubar uma figura branca racista. Enfrentamos mais dificuldades no confronto com o branco do que com o negro, então as brigas acabam se dando entre nós.
Sobre aceitar as falhas dos nossos: eu acho que não devemos aceitar incondicionalmente. Porém, tenho uma tendência a conversar sobre falhas que ocorrem entre nós no que chamo de ‘cozinha’, na intimidade. Nunca fui a público falar algo negativo contra outra organização ou pessoa negra. Acredito que devemos conversar na ‘cozinha’ e, no máximo, ignorar aquela pessoa, mas deixo para os brancos a tarefa de batê-la.”
Para a senhora, existe um “Pacto da Negritude” no Brasil? A escassez de oportunidades na sociedade dificulta a unidade da comunidade negra como povo?
“Eu penso que existem pactos da negritude, sim. Vejo isso no nosso projeto do CEERT, o Prosseguir. Os participantes relatam como suas vozes são fortalecidas nesse espaço entre iguais, enfrentando dificuldades similares e compartilhando formas de lidar com elas. É o contato com pessoas negras que avançaram em pautas importantes e que compartilham essa experiência.
Esse pacto pode ser melhor compreendido e aprimorado quando discutimos o aquilombamento no conceito de Abdias do Nascimento. Ele traz essa dimensão política e de cuidado de nós para nós. O aquilombamento possui o conceito de luta política e de relações de fortalecimento e afeto. Um grupo precisa ter uma base afetiva, intelectual e de apoio mútuo para se validar e seguir em frente.
O financiamento comunitário seria também uma forma de pacto? Quais outras a senhora destacaria?
Acredito que podemos batalhar por um financiamento comunitário, que é também uma forma de pacto.
A batalha por apoio institucional deve ser intencional. Isso é crucial porque a extrema-direita supera em muito as redes progressistas em termos de engajamento e impacto, como mostra o Manchetômetro. Para mudarmos realidades drásticas, como uma população apoiando chacinas em favelas, precisamos disputar e fortalecer nossas redes com esse tipo de apoio.
*Entrevista publicada originalmente em Dezembro de 2025 .
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