As Rainhas loiras da TV e os danos na autoestima das crianças negras

Escrito por Carol Adesewa

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Quem foi criança na década de 80, 90 e no início dos anos 2000, vai se lembrar com exatidão das mulheres que dominavam as programações infantis nas manhãs semanais, entre brincadeiras e desenhos, lá estavam elas, loiras, cabelos lisos, olhos claros e a pele bastante branca. Parecia um consenso de que esse tipo de estética cairia no gosto dos adultos e representaria todas as crianças do Brasil.

Ligar a TV nas manhãs de sábado e acompanhar o concurso da paquita mais bonita , mais loira e mais parecida com a rainha era comum. Que nenhuma era negra, todo mundo já sabe, a questão são os danos que essa não representação causou na subjetividade das crianças negras, que encaravam com acomodação o seu não lugar, “ se não estou ali é por que não mereço estar”.

E seguia-se o baile, do lado de cá da telinha meninos e meninas com a pele escura, cabelos crespos e olhos negros entediam o recado.

Passa-se a rejeitar quem são. Atrelados a essa não presença na tv, existiam os desenhos animados, os livros de literatura, os brinquedos, as bonecas, as roupas que não faziam sequer menção a esse sujeito negro ainda em formação.

Com o adjvento da internet e de questões relacionadas a publicidade, tais programas entraram em declínio e saíram da grade de programação das grandes emisssoras abertas, dividindo-se entre canais fechados e plataformas virtuais. Porém não são todas as famílias que podem pagar por isso.

Atualmente estou apresentando na TV aberta, TV Kirimurê o programa infantil Afroinfância, aos domingos. Da minha própria casa, sem grandes produções, mas comunicando para crianças com nossas referências e representação.

Na minha infância jamais poderia imaginar que um dia ocuparia esse lugar que, para mim, tem um peso enorme. Principalmente vindo de uma infância tão afetada pelo racismo que solapava a minha identidade e me fazia acreditar que era inferior a determinados padrões.

Através da programação que envolve desenho animado, oficinas e brincadeiras muitas crianças terão as suas infâncias celebradas de forma justa.

A criança negra poderá se enxergar através de um espelho autêntico, afinal existe o respeito a sua identidade e cuidado com a sua autoestima.

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