“Apesar dos meus 80 anos, acho que posso continuar trabalhando”, afirma Neusa Borges

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“Apesar dos meus 80 anos, acho que posso continuar trabalhando”, afirma Neusa Borges
Foto: Carlos Fernando/Divulgação

Atriz celebra 65 anos de carreira em 2022 com trabalhos na TV, cinema e no streaming

Uma das nossas grandes referências das telenovelas, do teatro e do cinema brasileiro, Neusa Borges está completando 65 anos de carreira e aos 80 anos, tudo o que ela quer é trabalhar e ser feliz.

A atriz foi reconhecida inúmeras vezes pelos trabalhos realizados na televisão. Na categoria “Melhor Atriz Coadjuvante”, Neusa ganhou o Prêmio APCA de Televisão (1992) pela novela “De Corpo e Alma”, Prêmio Contigo! de TV (1997) em A Indomada e o Diploma Comigo Ninguém Pode (2005) pela atuação na novela América. Além de ter recebido o Prêmio Top of Business na categoria de Melhor Atriz pelo papel de Cema na novela Caminho das Índias. Em março de 2022, a atriz recebeu o prêmio Ubuntu – de Cultura Negra pelas contribuições como artista.

Em entrevista para o Mundo Negro, a atriz, que acumula prêmios até mesmo como cantora, profissão que a levou para o mundo das artes, afirma que está em busca de mais um. Ela quer ser reconhecida pelos trabalhos no cinema. E produções não faltam. Até o presente momento Neusa Borges já tem três filmes lançados com sua participação, são eles: “Juntos e Enrolados” pela Netflix Brasil, como a Margareth; “Vale Night” que foi lançado no cinema em março e hoje está sendo exibido pelo canal Star+ Brasil, como a Avó de Daina (Gabriela Dias); e “Barba, Cabelo e Bigode” lançado recentemente pela Netflix Brasil, como a Dona Espir que é a avó de Richardsson (Lucas Peteado). Ela também finalizou as gravações dos filmes “Mussum”, produzido pela Netflix Brasil, e as gravações do primeiro filme coproduzido pelo Nós do Morro, chamado “A Festa do Léo”.

Neusa Borges falou com exclusividade sobre sua trajetória e contou suas experiências de enfrentamento do racismo durante sua carreira.

A senhora começou a carreira como cantora, mas conhecemos mais seus trabalhos como atriz. Como aconteceu a ida para a dramaturgia?

Eu comecei a cantar muito cedo, nas festinhas de escola, casa de amigos. Eu gostava mesmo de cantar. Mas aí junto com o cantar veio dançar, então eu fiquei muitos anos cantando e dançando. Eu cantei muito nas noites paulistas, viajava com show cantando. Substituí a Elza Soares muitas vezes, em muitos shows, onde ela não podia comparecer, ia a Neusa Borges. Em 1967/68 eu conheci o Vinícius de Moraes e ele sempre dizia que eu cantava e dançava muito, mas que dentro de mim existia uma atriz que quando desabrochasse ainda seria uma das maiores atrizes desse país. Não sei se ele disse isso brincando ou se foi real, mas só sei que quando ele voltou de uma viagem que fez para a Europa eu estava no palco já fazendo a peça “Hair” (1969), onde eu cantava e dançava e fui considerada a revelação do ano com essa peça, da qual, inclusive, ganhei um contrato com uma gravadora, na época a Polydor, mas que eu não cumpri esse contrato. Eu tive problemas e não quis gravar. 

Depois do Hair vieram outras peças, Capital Federal (1972), Teatro de Cordel e eu fiquei naquela, cantando, dançando e representando. Aí vieram os convites para novela e eu segui minha vida fazendo exatamente isso. Mas antes de entrar para televisão e fazer novela, eu participei de muitos filmes, inclusive filmes internacionais, trabalhei com Lando Buzzanca, com Jacques Charrier, então daí eu misturei tudo e já estava fazendo teatro, cinema e cantando na noite. 

E foi fazendo a peça no Teatro de Cordel que o Dennis Carvalho foi assistir e logo em seguida pintou um convite para televisão para fazer “Escrava Isaura” (1976), que foi a minha primeira novela na Globo, e daí não parei mais. Era cantando, dançando, representando, fazendo novela, fazendo teatro. Foi uma balbúrdia. E, inclusive, teve uma época até que diziam que existiam duas artistas completas no Brasil, que era Marília Pêra e a Neusa Borges. 

Em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, em 2021, a senhora falou sobre não saber se queria fazer mais novelas. E agora a vemos em muitos filmes que estão no ar. Como tem sido gravar tantos longas?

Não foi só em 2021 que eu pensei em não fazer mais novelas. Muitos anos antes, pensei em desistir da carreira de atriz, de cantora, de desistir do mundo artístico, porque sempre foi aquela coisa, que eu sempre detestei e sempre briguei na hora de assinar contratos sobre essa coisa da mulher ganhar menos que o homem. E eu sempre ficava mais danada ainda, porque além de ter que ganhar menos que o homem, eu tinha que ganhar ainda menos por ser mulher negra. Porque sempre foi essa coisa, primeiro o homem branco, depois a mulher branca e depois o homem negro e por último a mulher negra. E eu sempre briguei feio com isso. Tanto que até hoje, quando me chamam para assinar contrato eu já digo “Olha, não quero essa coisa de ganhar como mulher negra, não. Eu quero ganhar o quanto eu mereço ganhar”. Eu sempre falo isso antes de assinar contrato. Então eu pensei em desistir muitas e muitas vezes.

Sempre dava aquela coisa de participação ou eu era convidada para fazer um papel pequeno, de repente, as pessoas costumam dizer que os negros sempre faziam papel de escravo, papel de empregada, eu nunca briguei por isso. Eu gostava era de fazer. Gostava de entrar com papel pequeno e terminar junto com as atrizes principais (risos). Isso eu acho que é uma coisa que sempre incomodou muita gente. Mas se eu era contratada para fazer aquilo, eu fazia aquilo. Talvez eu fizesse bem demais e por isso sempre apareceu e por isso eu até me acostumei a ganhar prêmio, prêmio, prêmio. Eu achava muito engraçado. Mas eu sempre pensei em desistir sim porque é muito sacrifício trabalhar muito e ganhar pouco e ver as pessoas ganhando os tubos. 

Só porque eu sou negra que eu tinha que ganhar menos? Então vinham as encrencas. E eu sempre com essa coisa de querer parar. E, na grande realidade, eu queria ser cantora, nunca passou pela minha cabeça ser atriz. Mas já que apareceu, a gente faz aquilo que Deus quer não aquilo que a gente quer. E papai do céu quis que eu fosse atriz. E eu não canto mais, eu parei depois da música Folhetim. Me aborreci demais, fiquei chateada, aborrecida. Ganhei até um disco de ouro volume 7, quando foi gravado. Cantei na novela Dancin’ Days (1978). Foi a música principal da Ópera do Malandro, eu tive que fazer teste para cantar essa música, com John Neschling, inclusive. Tanta coisa, tanto sucesso para depois a música acabar com a dona do sucesso, a Gal Costa. Isso me aborreceu mesmo e parei de cantar, não quis mais ser cantora também. Resolvi ser só atriz. E com a minha queda, infelizmente, do carro alegórico no carnaval de 2003, eu também tive que parar de fazer teatro porque eu fiquei com 22 parafusos, três placas, prótese na cabeça do fêmur, então para mim hoje seria muito difícil continuar fazendo teatro. Então continuei só fazendo mesmo televisão e cinema, que é ainda mais fácil para mim, e atualmente com a pandemia, a novela ficou difícil, mas eu continuei fazendo cinema. Nunca parei de fazer cinema e novela, só parei de cantar e dançar, infelizmente.

A senhora é uma figura marcante nas novelas brasileiras. Podemos esperar vê-la em alguma novela? Se sim, pode dar detalhes?

Minha última novela foi Salve Jorge (2012) e é incrível, as pessoas perguntam sempre se eu não vou mais fazer novela, porque eu sumi das novelas. Eu tive dois AVCs, um depois da novela A Vida da Gente (2011) e depois da novela Salve Jorge (2012), então eu tive que dar, claro, uma parada. Mas existe uma coisa que é real, só vou fazer uma novela se eu for convidada, ninguém nunca mais me convidou para fazer, então o que que eu posso fazer? Nada. Ficar aguardando. Inclusive as pessoas tão sempre me perguntando “por que você não tá na novela da Glória?”, “Passou por duas novelas e você não estava”. Ué, não estava porque ela não me convidou. Claro, se ela me convidasse eu estaria, porque eu tenho a Glória como a glória da minha vida das novelas. Com certeza as melhores novelas que eu fiz foram as novelas dela. Desde a novela Carmem (1987), a Dalva de “O Clone” e “Caminho das Índias”, muitas novelas eu fiz com ela, mas ela me convidou. Agora, se ela não me convida eu não posso estar e se o outro autor não me convida eu também não posso estar. E eu estou amando fazer minissérie, talvez porque sejam menos capítulos e mais curta. E até agora só gravei minisséries maravilhosas, essa vai estrear agora, talvez, antes do final do ano. Eu fiz “Auto Posto” que já veio a segunda temporada, foi maravilhoso. Fiz agora “A divisão” e a série “Encantados” que é a coisa mais linda. Eu faço um personagem maravilhoso. Essa vai estrear logo. Além do filme “Barba, cabelo e bigode” que está sendo sensacional, top 10 da Netflix. Então, se não me convidam, eu não posso fazer nada. Agora, se convidarem eu estarei fazendo porque é com que eu ganho minha vida. Tenho conta para pagar, alimentação, várias responsabilidades e eu ainda não estou na condição de me negar a fazer um trabalho, ainda não. Então, estou rezando sempre para que venham mais, mais e mais. Apesar dos meus 80 anos, eu acho que eu sou uma pessoa que posso continuar trabalhando e é o que eu quero, se Deus quiser. 

Como uma referência negra para a arte da interpretação no Brasil, que conselhos a senhora daria para os jovens atores e atrizes negros do país?

Quando eu era pequena, ouvia sempre o meu pai dizendo uma coisa que eu não conseguia entender, mas ele dizia “Negro tem que ser absoluto” e eu ficava “Absoluto? Que raio de palavra é essa?”.  Meu pai era uma pessoa incrível, ele estava sempre inventando alguma coisa. Aí eu já achava que essa palavra era invenção dele, que essa palavra nem existia e eu morria de dar risada nas costas dele. E passaram-se os anos, eu crescendo, fui entendendo a responsabilidade de ser negra. Eu fui muito humilhada no meu tempo de escola, eu fui muito humilhada na vida, humilhada por ser negra. E também tinha uma coisa que as pessoas maldosas sempre diziam, que eu era uma ‘negrinha muito feia’ e aquilo me doía muito. Eu, inclusive, fugi da igreja no dia da minha própria primeira comunhão. Eu tive uma vontade tão grande de tomar chocolate e no dia da primeira comunhão, depois da cerimônia, tinha um café da manhã com aquela mesa linda, muito bolo, muito doce e o bendito chocolate. Fizeram uma fila para tomar café e na frente, as primeiras eram as meninas brancas e as pretinhas eram as últimas, e eu fui a última. E quando eu cheguei não tinha chocolate para tomar, tinha um resto de bolo, de pão e de doce e não tinha chocolate para eu tomar. E aquilo me deu uma mágoa tão grande, tão grande, foi ali que eu descobri o que era a palavra racismo. Ali eu fui descobrir que eu era negra e que não era tão importante. Eu podia cantar na festa dos brancos, podia coroar Nossa Senhora dentro da igreja, eu podia tudo. Fui entender porquê na procissão eu tinha que sair de anjinho com a roupa azul, porque os negros saíam de roupa azul, as meninas brancas eram roupa cor-de-rosa, era a roupa branca. Mas azul era para meninas negras. Ali eu fui entender o que era racismo. Aí eu continuei na minha luta, porque eu era preta sim, mas eu queria fazer sempre o melhor. Na escola eu queria ser a primeira, então eu estudava, estudava e quanto mais eles me maltratavam, mais eu estudava. Hoje é o que eu sempre digo, não só às meninas negras que querem ser artistas, também para as brancas, estudem, estudem porque quanto mais você estuda, mais você vai ter a sabedoria, mais você vai ser uma pessoa experiente e vai saber lidar com a sua cor.

Tem uma coisa que eu gostaria de falar aqui. Eu fui uma pessoa muito complexada, não sei se essa é a palavra certa, mas por causa do meu nariz. Porque além de ser negra, diziam que existiam os três maiores narizes do Brasil, que era do Juca Chaves, do Wilson Simonal e o da Neusa Borges. E teve uma época, inclusive, que me chamavam de Neuzinha Simonal, por causa do meu nariz. E eu ficava muito triste com isso, eu tinha muita vergonha do meu nariz. Mas quando eu fui fazer a novela “Dancin Days”, eu me encontrei numa festa com o Ivo Pitangui, a gente falou sobre plástica, porque eu tinha muita vontade de operar o meu nariz e ele olhou para mim e disse “não faça isso nunca, você é uma menina nova e ao passar do tempo você vai ver o quanto você é bonita com o seu nariz, o formato do seu rosto, tudo combina e vai sempre combinar com o seu nariz”. Eu fiquei com aquilo na cabeça e até esqueci. Eu vejo as pessoas fazerem plástica e tem umas plásticas terríveis, que não deram certo. Nunca mais eu pensei nisso. E eu fico imaginando que hoje, com 80 anos, as pessoas olham para mim e dizem, “Neusa, você não tem vergonha de dizer que você tem 80 anos?”. Nunca me dão a minha idade, sempre 20 anos mais nova e ainda falam “Nossa, você é uma preta muito bonita”. E, inclusive, com essas histórias de plástica de nariz e tal, eu cheguei a ser modelo, desfilei em muitos concursos para modelo, inclusive desfilei para a fábrica da Bangu, na época era uma fábrica que tinha do Rio de Janeiro, e nunca mais eu me achei feia, complexada e também não me senti mais uma nega feia, não. Pelo contrário, me colocaram numa vaidade. Eu sempre digo assim, “olha, eu me amo tanto, eu me amo, mas eu me amo mesmo que se eu pudesse eu casava comigo mesmo de tanto que eu tenho orgulho de mim e me amo” e eu sempre falo isso para as meninas, para as moças, para os rapazes, não existe feiura para negro.

Nesses 65 anos de carreira, a senhora pensou em algum momento em desistir de ser atriz?

O racismo e o preconceito foram uma coisa que sempre me incomodaram, mas quanto mais me incomodava, mais eu lutava contra ele. E ainda luto, porque eu sei que essa coisa incubada que tem no Brasil é terrível. Então, por incrível que pareça, quando incomoda mesmo eu sempre penso no meu pai com aquela bendita palavra que também me incomodava quando ele dizia que negro tinha que ser absoluto. Mas hoje eu entendo o que ele falava, “o negro tem que estar sempre na frente” e eu gostei dessa luta. Então, claro, que eu sempre pensei em desistir de muita coisa porque parecia que quanto mais a gente luta, parece que mais a coisa se aflora e isso me incomoda, então eu continuo na luta, pedindo a Deus que esta coisa acabe logo de uma vez. Vai ser difícil, mas um dia vai ter que acabar. Mas eu já pensei em desistir, claro. Sou humana, o sofrimento também dói. Ainda existe aquilo, quem bate esquece, mas quem apanha não esquece, então já pensei em desistir, mas todas as vezes que eu pensei em desistir parece que eu fiquei mais forte e hoje, com mais de 60 anos de carreira, imagina. Eu tô pensando em desistir? Eu tô pensando em ir para frente. Só tem um prêmio que eu não ganhei na minha vida, eu não ganhei um prêmio de cinema e eu tô me esforçando agora para ver se eu ganho esse e é por conjunto de obras, por algum trabalho, sei lá, enquanto eu não ganhar esse prêmio eu não sossego. Porque é aquela coisa, eu sou negra e eu nasci para essa luta. Eu acho que eu vim ao mundo para lutar contra o racismo e enquanto eu estiver aqui nessa terra, eu vou lutar.

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