Apagão total no Amapá e as condições de sobrevivência da comunidade negra

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Macapá AP 15 11 2020-Protestos no bairro Jardim 1 em Macapá pelo apagão de energia (Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)

Sem motivações divulgadas, na noite desta terça-feira o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou que um novo apagão atinge todo o Estado do Amapá, cidades do estado vêm sofrendo com instabilidades na energia há 2 semanas, e ainda não foram divulgadas informações sobre regularização.

No último dia 3, um incêndio na subestação Macapá, da concessionária Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), deixou 14 dos 16 municípios do Amapá sem energia por quase quatro dias. Após alguns ajustes e a retomada de apenas 70% da capacidade, a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA)  anunciou um revezamento de energia, que acontecia de 6 em 6 horas entre a capital e o interior.

O Ministério de Minas e Energia (MME), e a  Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) ainda não se pronunciaram sobre o blecaute.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) informou em suas redes sociais que um novo apagão atingiu o estado às 20h35. À reportagem, ele disse que não há energia em toda Macapá e nos municípios de Santana e Mazagão.

https://twitter.com/randolfeap/status/1328848519965315076

Com o apagão total, os amapaenses podem voltar a ficar isolados e sem contato, já que os serviços de telefonia móvel não estão funcionando nessas localidades. Não é possível fazer ou receber chamadas telefônicas nas áreas afetadas pelo apagão.

Para entender melhor a situação do Amapá e como a comunidade negra e periférica está sendo afetada, conversamos com o coletivo Utopia Negra, que durante essa crise está se organizando arrecadando alimentos e itens de sobrevivência básica para moradores de quilombos e periferias:

Mundo Negro: Como está atual situação das pessoas pretas/periféricas e quilombolas, com o apagão total, como essas pessoas têm se sustentado em quais condições estão vivendo nesse momento? 

Cleiton Rocha – Utopia Negra: O primeiro sintoma que a gente notou nas periferias foi a questão da água, o garrafão de 20 litros estava sendo vendido por r$ 5 de manhã, quando era final da tarde o mesmo garrafão d’água estava custando r$ 12 teve locais que chegou a r$ 20 um garrafão de 20 litros. Esse fator impediu que muitas famílias tivessem acesso à água que é um direito básico e universal.  O segundo sintoma dentro das periferias e das comunidades quilombolas foi a quantidade de comida estragada, e a maioria não tinha dinheiro para comprar mais, se não tem o dinheiro físico não tem como comprar nada. O Utopia Negra fez um levantamento e conseguiu perceber que em cada residência mora mais ou menos de 4 a 5 pessoas e boa parte está desempregada, mais de 80% dos moradores se consideram pretos ou pardos e trabalham em empregos informais aí ainda tem outros agravantes. Junta com a pandemia que impede muitas vezes o pessoal de circular e da circulação tirar uma renda então é extremamente complicado a situação da Periferia por todos esses fatores. Nos quilombos é um caso específico, os quilombolas estão perdendo suas produções, eletrodomésticos estão queimando, inclusive a bomba d’água. O acesso ao quilombo não é fácil, o que dificulta a chegada de doações, e o acesso à água potável nos quilombos é muito difícil, mas ainda com as dificuldades de acesso conseguimos levar água e alimento para os quilombos, em nossas idas vimos famílias aproveitando água da chuva para tomar banho e consumir. Fora todo o processo de estresse, a galera está muito estressada, por que ninguém está conseguindo dormir, Macapá é uma cidade muito quente e tem muito carapanã, então as crianças estão ficando empoladas, chorando, precisando de água e da luz que é o mínimo para dar um pouco de “conforto”.

Foto: Utopia Negra/Quilombo Ilha Redonda

Mundo Negro: Como o Utopia Negra está atuando nesse momento e quais trabalhos têm sido feitos pelo coletivo?

Cleiton Rocha – Utopia negra:

A pandemia já vinha trazendo toda a problemática, né… principalmente de acesso à direitos básicos a água e alimentação. Se essas pessoas não têm acesso a isso como é que a gente vai debater política, como é que a gente vai debater toda problemática de políticas públicas, sendo que a galera tá com fome? A fome é para agora! O coletivo surgiu com uma vaquinha para coletar água potável para o bairro do Congós, a gente tinha r$ 200 em caixa e desses r$ 200 a gente foi comprar água, foi ali que começou a ideia de fazer as coletas da grana para comprar água e depois a gente fez uma parceria com Amapá solidário e o Ministério Público do Trabalho para fazer a doação de cestas básicas nas áreas quilombolas, com Ubuntu solidário, e a parceria entre o Sankofa e Utopia Negra para o processo de distribuição de cestas básicas. A gente tá fazendo um trabalho de engajamento e denúncia também, a gente não só leva a água e o alimento a gente tenta estabelecer uma aliança, a gente faz o processo jornalístico, fazemos coleta de vídeos, fotos e relatos que a gente divulga no Instagram e no nosso Facebook. A gente coleta relatos de denúncia sobre o que está acontecendo, e chamamos atenção principalmente como é que se encontra a situação dos quilombos, periferias e da população negra do estado do Amapá 

Foto: Utopia Negra/Quilombo do Curralhinho

Mundo Negro: E o que os moradores estão ouvindo da parte do governo, está rolando alguma assistência alimentícia, de moradia, ou de medicamentos?

Cleiton Rocha – Utopia Negra: O Governo está tentando criar narrativas de normalidade, mas, na verdade o Amapá está um caos. Ontem todo o estado basicamente ficou sem energia, fico em dúvida de como estão os hospitais e as UBS, os hospitais e centro de Covid estão com todos os leitos ocupados e lotados. Além do apagão que causa esse problema de água e de alimento e que colocou muitas pessoas basicamente na miséria, existe uma linha muito tênue entre a pobreza e a miséria e o que a gente está vivenciando esses dias no Amapá é muito próximo à miséria. O governo não está fazendo nada e a prefeitura também não. Os coletivos se uniram e eles não estão dando nenhum suporte, cadê o exército? Cadê o helicóptero do exército? Cadê os carros para fazer o transporte e irem para os interiores, como está a situação dos povos indígenas a gente não tem notícias justamente por que não temos comunicação, a gente não sabe oque esta acontecendo nos interiores, não tem como se comunicar, a gente só teve relato dos quilombos porque a gente está indo para os quilombos.   

Foto: utopia Negra/Quilombo Lagoa dos Índios

Mundo Negro: E como nós de fora podemos ajudar?

Cleiton Rocha – Utopia Negra:

Os coletivos que já são fortes podem fortalecer os movimentos negros da Amazônia, A gente é esquecido. Fortalecer nosso coletivo, divulgar nossas ações é um dever moral e político dos veículos grandes.

A gente está com uma vaquinha, precisamos que conexões sejam estabelecidas com quem tem interesse em doar, precisamos de ajuda nos processos de arrecadação, nós estamos fazendo sem estruturas e mesmo assim em menos de 6 dias a gente doou quase 5 toneladas de alimento com menos de 10 pessoas, imagina se a gente tiver uma maior estrutura? 

Para colaborar com a vaquinha do coletivo Utopia Negra para a doação de água e alimentos para as periferias e quilombos do Amapá clique aqui

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