Grasy Andrade encarou três reprovações na avaliação médica e dois meses de treinamento em regime de alta pressão antes de ingressar na força naval americana, trajetória que integra a série Julho das Pretas, do Mundo Negro
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A carioca Grasy Andrade se tornou veterana da Marinha dos Estados Unidos aos 40 anos, depois de enfrentar três reprovações na avaliação médica de ingresso, um intervalo de 31 anos entre a promessa de vestir a farda branca e a realização dela, e dois meses de treinamento em regime de alta pressão ao lado de recrutas mais jovens. A trajetória integra a série Julho das Pretas, do Mundo Negro, que reúne histórias de mulheres negras brasileiras em áreas onde a presença delas ainda enfrenta barreiras concretas de idade, peso e origem.
Da profecia à farda branca
Grasy recebeu, aos 9 anos, uma profecia feita por um pastor sobre vestir a farda branca da Marinha americana, promessa que só se cumpriu três décadas depois. “No meu caso, esse sonho nasceu de Deus. Mas entre a promessa e a realização houve muito preparo, muitas lutas e até momentos em que pensei em desistir”, contou a veterana em entrevista ao Mundo Negro.
Grasy relata que chegou a desistir do processo depois de ser reprovada três vezes seguidas na avaliação médica, etapa que barra candidatos fora do padrão de peso exigido pela corporação. “Já estava acima do peso e tinha decidido voltar para o Brasil, quando meu recrutador me ligou pedindo que eu retornasse aos Estados Unidos porque, dessa vez, eu havia sido aprovada na avaliação médica”, relatou.
O treinamento posterior à aprovação no exame físico cobrou tanto do corpo quanto da mente, em um ritmo que Grasy não esperava enfrentar naquela fase da vida. “Como eu não estava fisicamente preparada, o treinamento foi extremamente desafiador. Mas o maior teste foi mental. Passei dois meses em um ambiente de alta pressão, convivendo com pessoas muito mais jovens do que eu, longe da família e sendo constantemente desafiada. Foi ali que aprendi que a força da mente pode ser ainda mais importante do que a força do corpo”, afirmou.
Ser mulher negra dentro de um navio militar
Grasy identifica um fator que separou sua experiência da de outros recrutas brasileiros no mesmo processo de alistamento. Entre os brasileiros que ingressaram na Marinha americana com ela, era a única mulher negra, condição que atribuiu um peso extra à própria presença na corporação. “Isso me fez entender que eu carregava uma responsabilidade ainda maior, mostrar que nós também podemos ocupar espaços que muitos acreditam não serem para nós”, disse.
A rotina a bordo de um navio militar somou a essa responsabilidade um cotidiano de cobrança constante, agravado pela diferença de idade em relação à maioria dos colegas de farda. Grasy resume o resultado desse período como uma conquista que já considera consolidada, independentemente do que ainda está por vir na carreira militar. “A experiência dentro de um navio militar não é fácil. A rotina é intensa, existe muita cobrança e, no meu caso, a diferença de idade em relação à maioria dos militares também tornou o desafio ainda maior. Mas, só de ter chegado até aqui, eu já me sinto uma guerreira e uma vencedora. Essa caminhada exigiu coragem, perseverança e muita fé, e tenho orgulho de cada etapa que vivi”, declarou.
Bagagem de vida como base emocional
Grasy credita à formação recebida no Brasil parte da resistência que sustentou a adaptação à rotina militar nos Estados Unidos. Os pais priorizaram a educação dela desde cedo, o que incluiu aulas de inglês a partir dos 11 anos e passagem por escolas que ela descreve como decisivas para lidar com desafios posteriores. “Meus pais sempre priorizaram a minha educação. Comecei a estudar inglês aos 11 anos e tive o privilégio de estudar em boas escolas, o que me deu uma base sólida para enfrentar novos desafios”, afirmou.
A migração para os Estados Unidos, país onde vive há dez anos, funciona na narrativa de Grasy como uma segunda camada de preparo, construída fora do ambiente familiar e escolar. “A experiência como imigrante também fortaleceu muito a minha resiliência. Recomeçar a vida em outro país, aprender uma nova cultura e superar tantos desafios me deram a força emocional necessária para enfrentar a rotina e as exigências da Marinha dos Estados Unidos”, relatou. Para ela, cada etapa da vida, da infância no Rio de Janeiro até a adaptação como imigrante, funcionou como preparação direta para o momento em que passou a integrar a força naval.
Mensagem para mulheres negras 40+
Grasy define como objetivo pessoal mostrar a outras mulheres negras que a idade não encerra possibilidades de carreira, mensagem que direciona especialmente ao público acima dos 40 anos. “Meu objetivo é que todas as mulheres negras saibam que nós podemos chegar onde quisermos. Com perseverança, força de vontade e fé, a idade se torna apenas um número. Quando temos um alvo claro, fica mais fácil não desistir até chegarmos lá”, afirmou.
Ao longo do processo de imigração, Grasy ouviu de várias pessoas a sugestão de desistir e voltar para o Brasil, mas manteve a decisão de seguir até o ingresso na Marinha, apoiada na convicção que carregava desde a infância. “Muitas pessoas disseram para eu voltar para o Brasil, mas desde os 9 anos eu já sabia que Deus tinha algo preparado para mim nesta terra americana. Passei por muitas dificuldades como imigrante, mas o que não me deixou desistir foi o meu propósito”, disse. A mensagem final que deixa para outras mulheres resume o percurso descrito ao longo da entrevista. “A mensagem que eu deixo é: agarre-se ao seu sonho, mantenha os olhos no seu objetivo e jamais esqueça que a idade é apenas um número. Nunca é tarde para viver aquilo que Deus preparou para você”, declarou.
Hoje casada e radicada na Flórida, Grasy Andrade mantém no Instagram, no perfil @andrade_grasy, o registro da rotina como veterana da Marinha americana e conteúdos voltados à comunidade de brasileiros que vivem nos Estados Unidos. O relato dela integra o conjunto de histórias reunidas pelo Mundo Negro na série Julho das Pretas, que ao longo do mês apresenta trajetórias de mulheres negras brasileiras que romperam barreiras em suas áreas de atuação.
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