Amor preto: por que o compromisso é menor com os nossos e maior com nossas figuras de opressão?

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Amor preto: por que o compromisso é menor com os nossos e maior com nossas figuras de opressão?
Foto: Freepik

Texto: Shenia Karlsson

Caros leitores, tenho o hábito de escrever somente a partir de minha prática clínica, enquanto uma psicóloga negra, terapeuta de casais negros e interraciais e ativista da saúde mental, penso que todo o arcabouço teórico nos norteia em nossas discussões, entretanto, ainda penso que a experiência é soberana. Esse artigo é sobre a dificuldade que casais negros enfrentam para sustentar o bordão “amor negro cura” na prática, os desafios reais das relações afrocentradas e como nossos afetos ainda são poluídos de colonialidade.

Tenho notado em meus atendimentos, com uma boa frequência, a intolerância e exigência de pessoas negras para com seus parceiros/as negros e uma condescendência quando os parceiros/as são brancos. Em seus relatos, noto que os rompimentos se dão com mais facilidade, menos culpa, como se a relação naturalmente estivesse fadada ao fracasso, como se não houvesse novidade: “ah, eu já sabia”. Percebo um investimento afetivo menor com expectativas menores.

Por outro lado, também ouço com cuidado, muitas pessoas negras em relações extremamente duvidosas, abusivas, infelizes e às vezes em situações até desprezíveis, e, no entanto, um enorme esforço em manter a relação com os respectivos parceiros/as brancos/as mesmo que lhe custe sua saúde mental e emocional. Daí convido à reflexão: por que o compromisso é menor com os nossos e maior com nossas figuras de opressão?

Esses dias a notícia da separação de uma casal negro relativamente famoso nos chamou a atenção e foi motivo de crítica principalmente sobre a postura do ator Luís Navarro que, aparentemente, decidiu pôr fim numa relação formal com sua esposa Ivi Pizzott, mesmo ela estando no seu período de puerpério, período esse considerado um dos mais frágeis que uma mulher pode vivenciar.

Dois fragmentos de frases foram emblemáticos em minha opinião e vou discorrer sobre eles. 

“Ser pai, marido, artista e ser um dos alicerces de uma família preta não é pra poucos, meu espírito sucumbiu, enfraqueceu”.

É uma frase interessante, pois se pensarmos que historicamente os homens têm sido forjados pelo machismo (independente de ser negro ou branco) e consequentemente são autocentrados e tendem a priorizar suas necessidades individuais, não nos surpreende tal atitude. Outro aspecto é que ser pai, marido, ter uma profissão e ter responsabilidades tanto práticas quanto simbólicas faz parte de ser homem, participar da vida adulta. Mas, o que realmente está por trás desse sentimento de enfraquecimento, meu irmão negro?

Nosso histórico é de desencontros, já falei sobre isso em outros artigos. A autora Angela Davis aponta sobre as heranças malditas do sistema colonial e a destruição da família negra, já Neusa Souza ressalta a dificuldade de nos construir enquanto sujeito negro de forma plena, ao passo que bell hooks nos ensina o exercício do auto amor e a amorosidade como fator fundamental para a nossa sobrevivência. A autora Isildinha Baptista nos faz refletir sobre o fardo dos signos perversos que somos obrigados a carregar em nossos corpos e inscritos em nossa psiquê e, Frantz Fanon, através de sua frase emblemática: “o homem negro não é um homem, e sim um negro” deixa um recado reto para o bom entendedor entender.

Todos eles abordam majestosamente a questão do negro tanto no âmbito social quando na esfera psicológica e quão custosa são nossas interações e relações. Sabemos que homens negros, devido aos processos de colonização e escravização, não foram de certa forma livres para exercerem seus papéis enquanto chefes de família e as consequências vemos nos índices oficiais. Dependendo da vivência de cada homem negro, essa lógica pode ser introjetada causando assim uma sensação de impotência, de não capacidade em assumir um lugar social reservado para homens brancos: o de chefe de família. 

“É com muita, muita dor e em respeito a todos vocês que sempre torceram por nossa família, que venho comunicar que eu e o Luis não estamos mais juntos. Tá difícil e eu não tive escolha”

Por outro lado essa frase é a realidade da mulher negra, pois qual escolha ela teria numa situação dessa, não é? O homem negro ao introjetar a ideia de sua impotência, não se vê responsável em humanizar a mulher negra, ele espera o que a sociedade espera, que ela “aguente” qualquer coisa, corroborando assim com a animalização social ao qual mulheres negras são submetidas frequentemente. Ademais, a mulher negra como antes não era vista como objeto de desejo e corpo merecedor de afeto, acaba por sofrer retaliações mesmo quando escolhida a estar numa relação formal. A pergunta de milhões é: será que se fosse uma esposa branca, seria submetida a esta situação? Quantos homens negros abandonam suas esposas brancas no puerpério?

Esse texto tem o objetivo de demonstrar como é possível sim repetir as violências que o racismo produz em relações afrocentradas, e que o discurso “amor preto cura” é um esforço contínuo e um exercício de atenção concentrada, todo cuidado é pouco. A descolonização dos afetos é um caminho importante para que possamos garantir minimamente relações saudáveis, sem a poluição causada pelo ideal de ego branco imposto a nós. Humanizarmos de forma profunda, sem superficialidade.

Essa discussão não é para culpabilizar somente os homens negros, mesmo porque mulheres negras também enfrentam as mesmas problemáticas. É uma questão coletiva de nossa comunidade, de responsabilidade afetiva e de preservação de nossa sobrevivência enquanto grupo. É urgente a necessidade de olharmos para as nossas contradições, e se possível estarmos atentos para as armadilhas que o racismo nos prega. Bora descolonizar os afetos? 

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