Adriana Barbosa: “Precisamos parar de consumir de empresas que não estão preocupadas conosco”

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Adriana Barbosa: Fundadora da Feira Preta

Quando começamos a gostar de ser negros aqui no Brasil? A partir de qual momento, ser chamado de morena virou ofensa e decidimos abandonar o alisamento e abraçar a nossa beleza natural? Não há uma data precisa como resposta, mas não podemos ignorar dois fenômenos que contribuíram para o nascimento dessa nova nação negra brasileira: a revista Raça Brasil e a Feira Preta.

O impacto da Feira Preta começou na cidade de São Paulo, ocupando espaços tradicionais da cidade com corpos negros, empoderados, conscientes e não só isso, fez despertar o conceito do afro-empreendedorismo de forma mais latente.

Revelando nomes, conectando pessoas, criando oportunidade de negócios, Adriana Barbosa, a fundadora do projeto foi considerada neste ano de 2017, uma das afrodescendentes mais influentes do planeta, pelo MIPAD, premiação que faz parte das ações da ONU dentro da programação da Década Internacional dos Afrodescendentes. Lázaro Ramos e Taís Araújo, são os outros nomes que completam o trio brasileiro dos negros de grande prestígio internacional. A premiação acontecerá no dia 26 de Setembro, em Nova York. O ex-presidente Obama também estará presente, juntamente com outros premiados famosos como o jogador de basquete LeBron James e a atriz Lupita Nyong’o.

Conseguimos essa entrevista exclusiva com a Adriana antes do grande evento, para ouvir dela, quais o balanço que ela faz até agora do ano da “diversidade”.

Mundo Negro – Sabemos do impacto social e cultura da Feira Preta, mas o que é esse projeto em termos de números?

Adriana Barbosa: A marca Feira Preta tem se construído e fortalecido, há 15 anos, como um “lugar” de valorização da cultura negra, a partir das diferentes iniciativas que realiza; todas elas privilegiando, principalmente, a diversidade da produção negra: nas artes, no empreendedorismo, na tecnologia, na inovação. A Feira em si, evento anual que realizamos, já reuniu mais de 130 mil pessoas e colaborou com a movimentação de cerca de cerca de R$ 4,5 milhões em São Paulo, Brasília, São Luís e Rio de Janeiro entre empreendedores negras e negros.

Recentemente, a Feira Preta  passou a fazer parte da Rede Internacional Afroinnova, uma rede de Inovação comunitária para a diáspora africana. A Rede é uma iniciativa da organização colombiana Manos Visibles, que tem o objetivo de  estabelecer pontes com outras redes afrodiaspóricas, a fim de compartilhar experiências, construir referências de modelos de desenvolvimento afins para a população da diáspora, com ações  efetivas para alcançar o desenvolvimento global e  integral dos afro-descendentes e das comunidades africanas. A Feira Preta é signatária do tema “mercados” e contribui com a experiência da Feira dos últimos 16 anos.

Você está há quase 20 anos empreendendo para negros. Quais são as maiores dificuldades para se empreender para negros no Brasil? Falo desde patrocínio passando por apoio do Estado e reconhecimento e a apoio da comunidade negra.

Estou há 16 anos atuando com esse tema e, hoje, os desafios enfrentados são outros, diferentes de quando iniciei estra trajetória, em 2002. Antes, o obstáculo com as empresas era entrar com a pauta do negro, a partir de uma perspectiva de negócio. Ouvi de várias corporações que não poderiam apoiar a Feira Preta porque o nome remetia a uma questão de conflito racial e eles não enxergavam o potencial pelo viés de segmento de mercado. Muitas pediram para eu alterar o nome para algo do tipo “Feira Étnica”, por exemplo.

Hoje, tem um novo contexto. As empresas querem investir nesta segmentação, a partir da perspectiva da DIVERSIDADE. No entanto, o foco é social e não mercado. Ainda hoje, a peregrinação para mobilizar recursos para a Feira Preta tem porta de entrada nas áreas de Sustentabilidade, Responsabilidade Social ou até Recursos Humanos e não o departamento de Marketing. E acho que é possível fazer o investimento social privado pela área do social, claro, mas observo melhores perspectivas pela área de marketing, trabalhar com marcas alinhadas à compreensão de que o social não está desvinculado da inserção em todos os aspectos do mercado, de rever e ressignificar o mercado. Mas isso ainda não é a realidade hoje. Os departamentos de marketing não olham investimento com esse olhar de diversidade, eles só olham com a representatividade limitada a colocar negras e negros, especialmente os de pele clara, nas campanhas publicitárias.

Do ponto de vista do estado, nos últimos anos não tivemos interferência nas atividades da Feira Preta. Até a edição do ano passado, a leitura foi que a Feira Preta é um evento comercial e não pode ter aporte de recurso público. No entanto, eventos como Fórmula 1, Carnaval e Parada LGBT tem recursos públicos e, em alguns dos casos, ocorre em espaço privado com investimento de recurso público. Em minhas conversas com o poder público, sempre faço essa comparação junto aos gestores e percebo avanço nestes diálogos também.

Foto: Reprodução Facebook

Mais de uma vez, cogitei abrir mão de realizar a Feira Preta em local privado, sem qualquer tipo de cobrança para o público (ingressos) e ofertei a realização em parceria com o poder público. Mas quando mostro o orçamento do evento, o retorno é que podem nos entregar a isenção do espaço. E o restante das coisas? Quem paga os cachês dos artistas, os custos de produção, comunicação, segurança, etc?

Então, trata-se de uma negociação complexa, mas que segue. Diálogos são realizados todos os anos.

O formato da Feira Preta nos últimos anos foi de desenhando também a partir do que foi possível garantir a sua realização. Mas é, de fato, muito difícil e complexo negociar uma locação de pavilhões de  R$ 100.000,00, por exemplo, com a mesma régua de qualquer outra feira.

Porque a Feira Preta é um negócio social de impacto econômico. Não é um negócio convencional, com “lucro dividido entre os sócios”. O foco da Feira Preta é gerar e circular renda que potencialize as atividades de empreendedores negras e negros dos diferentes segmentos.

Em resumo, o acesso ao capital ainda é o maior desafio hoje. E sei que isso não é exclusividade da Feira Preta e se estende aos empreendedores negros de forma geral, em todo e qualquer segmento. Além de sermos a maioria da população brasileira, de acordo com o Sebrae somos também a maioria empreendedora. No entanto, não temos acesso a investimentos, linhas de micro-crédito, entre outras linhas de acesso de dinheiro.

Somos uma potência em inventividade e criatividade. Empreender foi a forma encontrada para dar conta de nossas vidas, uma vez que sempre estivemos na margem da sociedade. E fazemos isso sem recursos financeiros razoáveis. Se o capital chegasse nas mãos pretas, o Brasil seria uma potência de fato.

Esse ano fala-se muito na questão da diversidade na publicidade. Você acha que a comunidade negra se beneficiou com aumento da presença de negros nas campanhas? Você acha que as empresas “sensíveis” à causa tem uma preocupação sincera com o crescimento da comunidade negra?

Acredito que lutamos muito por esse momento da visibilidade, de “representatividade”. Não nos víamos antes e agora, em certa medida, nos vemos. Tá longe do ideal. Tá longe da proporcionalidade necessária. Mas, nos vemos.

Obviamente – e muito tardiamente – entenderam que somos também consumidores e expressam o interesse em nosso dinheiro dialogando conosco a partir não apenas da publicidade, mas também no desenvolvimento de produtos. Finalmente, estabeleceram um “diálogo”. Dentro da esfera do capital, claro, mas estabeleceram.

O fato é: Sim! As empresas estão interessadas no nosso crescimento quantitativo porque isso representa mais consumo, mais lucro, etc. Mas ainda não entenderam o elo entre isso e as nossas vulnerabilidades sociais. E a prova mais evidente disso é a questão do Investimento Social Privado, as doações, patrocínios a eventos. O quanto destes investimentos estão sendo feitos em iniciativas realizadas por pessoas negras e, principalmente, que tenham foco no fortalecimento destes indivíduos, desta identidade?

Exemplos disso são as empresas de produtos para cabelo. Elas têm linhas direcionadas, comunicação direcionada, utilizam a imagem das nossas mulheres, nossas fórmulas caseiras e saberes ancestrais, mas não investem em muitos dos projetos liderados por mulheres negras. No último ano, fui a muitas empresas que lançaram campanhas com o foco bem direcionado em produtos para a pele negra ou para cabelo crespo. No entanto, o que mais ouvi foram opções de “patrocínio com produtos”. Como vou pagar os fornecedores da Feira Preta com frasco de xampu ou com sacolinhas de brindes?

Então, enquanto consumidora, fico de olho nesse movimento. Mas, como empreendedora também. E por vezes penso que esse cenário de escassez de investimento nos nossos eventos, na nossa criação, na nossa atividade quando dermos um basta e pararmos de consumir das empresas que não estão comprometidas de fato conosco, com a transformação desta estrutura.

Quando as empresas falam de Diversidade, penso que elas PRECISAM entendê-la de forma transversal:

Recursos Humanos: precisamos incluir jovens aprendizes e Trainees negros? Sim, claro. Mas, não apenas. Precisamos ter negras e negros em cargos de liderança, de tomada de decisão, com o poder da caneta.

Investimento Social Privado: é preciso ter investimento em projetos que tem o recorte de raça bem definido.

Comunicação e Publicidade: apenas com mudanças internas, a empresa vai se comunicar e conectar de fato com a população negra, de forma profunda.

Cadeia de Valor: inclusão de afro-empreendedores entre os fornecedores de produtos e serviços diversos.

 A Feira Preta é o evento de maior prestígio da comunidade negra. Ela é rentável? Se não, você credita ao racismo a dificuldade de levantar recursos para um evento afro-centrado? O que te motiva a continuar mesmo em tempos de tantas dificuldades?

A Feira Preta nesse formato hoje, não é rentável. Realizar um evento para mais de 10 mil pessoas custa caro, mais de meio milhão por ano. O  afro-empreendedor e o público que frequenta o evento tem pago essa conta. Mas, sem investimento social privado ou patrocínio  é muito complicado manter. Porque tanto o afro-empreendedor, quanto o público chegaram no limite de investimento. Se custar muito caro, encarece ao empreendedor que vai subir o preço do seu produto e vai repassar ao público, que vai, portanto, precisar pagar para entrar e pagar pelos produtos que desejar comprar na Feira. Então, é um circulo vicioso,  mas que não fecha.

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Foto: Facebook

Como eu disse anteriormente, a Feira Preta é um negócio de impacto social e econômico. Está de olho em um segmento que é maioria no Brasil, mas é minoria em acesso, logo o modelo de negócio, leva em consideração esse ponto de partida. Jamais a atuação parte do mesmo lugar de um Festival do Japão ou de uma Feira do Automóvel. A nossa lógica é outra. A gente parte de outro lugar.

Eu vejo o modelo da Feira em um formato que seja de governança compartilhada, em que a inciativa privada, o estado, o público, o empreendedor (de arte, cultura, moda, gastronomia, etc) e a organização têm que aportar um pouco para que o modelo continue existindo. É como se fosse uma engrenagem que precisa de todas as peças. Se faltar alguma, a máquina para de funcionar. Que foi o que aconteceu no passado, quando dois patrocinadores deixaram de aportar o que estava previsto, ocasionando uma dívida superior a R$200.000,00. Essa dívida faz com que esse ano, o formato seja outro para dar conta do contexto político e econômico. Neste ano, realizaremos um calendário especial olhando para o mês de novembro e a cidade de São Paulo como um polo de efervecência da cultura negra contemporânea, construindo uma programação pautada em três pilares: Territórios, Conteúdos e Comunicação.

Como você recebeu a notícia de ser uma das negras mais influentes do mundo? E qual o impacto disso na sua vida pessoal e profissional? Se conseguir falar com o Obama, o que você dirá a ele?

Quase caí para trás quando recebi essa noticia, rs. Fiquei muito impactada e bastante emotiva com a campanha de mobilização de recursos, que foi idealizada e está sendo conduzida por amigas, sem falar nas diversas mensagens de carinho, apoio e reconhecimento que tenho recebido, seja de pessoas conhecidas ou não. O reconhecimento, apesar de estar como pessoa física, eu o entendo sob a perspectiva coletiva. É um prêmio para toda essa rede que tem se conectado com a Feira Preta. Os artistas, empreendedores, público, equipe de colaboradores, fornecedores, as empresas e instituições que já acreditaram e investiram. Enfim, uma porção de pontos que se conectaram e transformaram a Feira Preta no maior evento de cultura negra da América Latina, uma referência de fato.

Eu espero gerar um impacto positivo, principalmente em relação à mobilização de recursos e parcerias. Espero que as empresas daqui possam reconhecer o valor e a potência da Feira Preta.

Além disso, é uma injeção de ânimo, já que minha vida pessoal foi muito impactada depois de tudo o que aconteceu no último ano. Poucas pessoas sabem, mas passei os últimos dois anos trabalhando em sistema de CLT, especialmente para ter mais estabilidade e segurança financeira para criar minha filha. Então, eu decidi sair do emprego formal para me dedicar à Feira Preta. Quando o patrocinador desiste de investir, muda tudo. E isso me fez e faz refletir muito os limites do ativismo, os limites dos negócios, a relação disso tudo.

A Feira Preta é a minha vida, mas hoje, não é possível viver dela e daquilo que acredito, que amo. Hoje, preciso ter um outro trabalho para dar conta da minha vida pessoal. E, obviamente, isso também impacta na realização da Feira, que deixa de ter a minha dedicação total.

Consciente de que existem limites, o prêmio me ajuda a seguir em frente, a acreditar. A acreditar principalmente que meu desejo e luta pela igualdade, pelo equilíbrio, pela democracia racial REAL não estão passando despercebidos. Aí, como canta a sambista Beth Carvalho,  “levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima”.

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