A quem interessa o artista quando a genialidade dá lugar à realidade?

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A quem interessa o artista quando a genialidade dá lugar à realidade?
Foto: Divulgação/Roncca

A contradição entre o sucesso de Black Alien e a falta de cuidado do público com sua saúde. Uma análise sobre arte, dependência química e racismo.

A trajetória de Gustavo de Almeida Ribeiro na música brasileira é frequentemente narrada a partir de marcos de genialidade técnica. Desde o início de sua carreira em 1991, com o duo SpeedFreaks ao lado de Claudio “Speed” Márcio, que revolucionou o underground fluminense e paulista misturando hip hop, funk, punk e samba, Gustavo já se destacava. Antes mesmo de integrar oficialmente o Planet Hemp em 1997, suas rimas já moldavam o disco de estreia da banda, Usuário, que alcançou o disco de platina. Reconhecido internamente como o melhor letrista do grupo, ele consolidou sua assinatura em 2004 com o lançamento de Babylon By Gus Vol. 1: O Ano do Macaco. Gravado em cerca de 55 dias com colaborações de peso como Bi Ribeiro e Pupilo, o álbum tornou-se uma referência imediata do rap nacional através de faixas como “Mister Niterói” e “Caminhos do Destino”.

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Essa caminhada moldou no imaginário do público uma figura muito específica: a do MC de vocabulário preciso, flow singular e erudição que transita entre Bob Marley e Carl Jung. Embora essa imagem seja real, ela permanece incompleta. E essa lacuna diz muito mais sobre as expectativas de quem ouve do que sobre a realidade de quem canta.

A Realidade Crua da Dependência e da Sobrevivência

Por trás da discografia reverenciada, existe a história de um dependente químico em recuperação. Gustavo nunca escondeu essa condição; pelo contrário, transformou-a em matéria-prima de sua obra recente. Os anos de dependência severa de álcool e cocaína foram descritos por ele como um período de alienação e apagamento, marcado por duas overdoses, em 1999 e em 2013, que resultaram em microderrames e comprometeram temporariamente sua fala. Esse processo significou a perda de documentos, de moradia, da produção musical e da própria identidade diante do espelho.

A situação se agravou em 2010 com a morte de seu parceiro Speed, um luto que Gustavo levou anos para começar a processar. O hiato de onze anos até o segundo volume de Babylon By Gus não foi uma escolha estética, mas o tempo necessário para a reconstrução de uma vida que incluiu internações em clínicas de reabilitação e um financiamento coletivo de R$ 50 mil, essencial para que ele voltasse a acreditar em si mesmo.

Apesar de esses fatos serem públicos e documentados pelo próprio artista, as narrativas dominantes nas redes sociais e nas listas de melhores do rap tendem a isolar esses episódios como meros detalhes biográficos. O foco quase exclusivo na técnica e na inteligência das rimas frequentemente esvazia o peso da sobrevivência que fundamenta a existência do homem por trás do microfone.

A Urgência do Olhar Humano sobre a Doença

Essa dinâmica se repete porque a sociedade opera sob uma lógica de consumo humano. O lançamento de Abaixo de Zero: Hello Hell (2019), aclamado pela crítica e premiado como um dos maiores discos do rap nacional, foi recebido como a “volta por cima” de um gênio. O próprio Gustavo precisou lembrar ao público que o título do álbum era literal: ele estava abaixo de zero na escala da dignidade humana antes de conseguir reerguer-se. Sua famosa afirmação de que a música é que prejudicou sua carreira nas drogas, já que o vício existia muito antes do primeiro verso, inverte a narrativa tradicional e exige que o encaremos como um homem inteiro, e não como uma engrenagem cultural.

A faixa “Carta Pra Amy”, uma das mais celebradas em suas apresentações ao vivo, resume essa linha tênue. Ao dialogar no presente com Amy Winehouse, morta em 2011, Gustavo canta sobre uma realidade que ele próprio protagonionu. A diferença trágica entre os dois não reside no talento ou no esforço, mas na imprevisibilidade da sobrevivência.

Esse distanciamento ganha contornos ainda mais nítidos quando se observa o recorte racial que molda a indústria da música. A engrenagem cultural historicamente tolera e até romantiza a autodestruição de ídolos brancos, frequentemente tratados como gênios incompreendidos ou almas torturadas. Para o homem negro, contudo, o sarrafo é outro: a vulnerabilidade raramente é vista com complacência. Quando um artista negro adoece publicamente, a estrutura tende a reduzi-lo ao estereótipo do descarte ou da marginalidade, esvaziando sua humanidade. Exigir de Black Alien a genialidade impecável sem oferecer o espaço para a fragilidade de seu corpo e de sua mente é perpetuar uma lógica que só valida a existência negra através da utilidade e do entretenimento.

Admirar Black Alien pelo que ele produz enquanto se ignora ou se ridiculariza o processo de adoecimento e cura que ele atravessou é o sintoma de uma sociedade que não sabe acolher. O deboche direcionado a Gustavo no passado é o mesmo desrespeito que os dependentes químicos sem voz sofrem diariamente nas calçadas e nos lares do país. O caso do MC carioca prova que, para a opinião pública, a vida de um homem em sofrimento só passa a ter valor e direito ao respeito quando ela se transforma em um produto esteticamente perfeito para ser consumido.

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