Durag: do trapo ao trends do estilo, conheça a história do acessório e sua importância hoje

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Durag: do trapo ao trends do estilo, conheça a história do acessório e sua importância hoje
Foto: Saint Clair

Artigo especial com colaboração de Jefferson Rocha.

A durag, do inglês ‘do-rag’ (que em tradução livre quer dizer “feita de trapos”), é um acessório que teve a origem e uso feito por homens e mulheres afro-americanos escravizados no século XIX pra proteger suas cabeças do sol, insetos e outras coisas que pudessem atingi-los durante os trabalhos.

Já nos anos de 1930, durante o Renascimento do Harlem (bairro localizado na ilha de Manhattan, em Nova Iorque) e a Grande Depressão, a durag começou a ser usada para preservar penteados. Lá pelo final dos anos 60, junto com o Movimento Black Power, tornou-se um acessório de moda e símbolo de resistência entre a comunidade afro-americana da época.

Rihanna (foto de Edward Enninful e Calvin Klein Studio, para a capa da Vogue Britânica. Maio, 2020)
Harriet Tubman (foto de Jim Gensheimer, NAT GEO IMAGE COLLECTION)

O uso da durag chegou a ser proibido e até criminalizado em algumas escolas dos EUA, com o argumento de que servia como “identificação de qual gangue a pessoa pertencia”. Nos anos 90, o acessório perdeu popularidade entre uma parcela da população negra, mas continuou em alta entre outros pretos, principalmente entre rappers e atletas. Posteriormente foi aderido por artistas de outros estilos musicais e artistas de diversas áreas, como 50Cent, Snoopy Dogg, Jay-Z, Solange Knowles, Rihanna, Willow e Jaden Smith, entre outros.

Atualmente a durag aparece em muitos momentos sendo usada por grandes artistas em revistas, eventos, desfiles de moda, shows e premiações. Rihanna usou o acessório em várias ocasiões, umas das mais famosas foi a premiação do Conselho de Designers de Moda da América em 2014.

Rihanna (foto de Edward Enninful e Calvin Klein Studio, para a capa da Vogue Britânica. Maio, 2020)

Assim como o vestido, o durag usado na ocasião estava cravejado de cristais Swarovski. Em outro momento, ela fez uso do acessório no ensaio para a capa da Vogue Britânica, sendo a primeira mulher negra a usar o durag na capa da pomposa revista. Já Solange Knowles levou o acessório ao tapete vermelho do MET Gala em 2018, evento com o tema “Heavenly Bodies: Fashion and the Catholic Imagination” (que traduzindo seria algo como “Corpos Celestiais: Moda e a Imaginação Católica”), personalizado com uma auréola e uma espécie de cauda onde era possível ver escrito “MY GOD WEARS A DURAG” (“MEU DEUS VESTE UM DURAG”).

Solange no tapete vermelho do MET GALA

Aqui no Brasil, artistas como Mano Brown, Emicida, Rashid, Karol Conka, Mc Soffia, Mc Caverinha, entre outros reforçam o uso da durag como uma tendência e símbolo de resistência para pretas e pretos, popularizando ainda mais o acessório.

Foi a partir dessas referências que Angélica Freire, mãe, mulher preta e empreendedora, começou a pesquisar pelo item. Após a busca frustrada do seu namorado pelo acessório em Fortaleza, Angélica conseguiu encontrar uma durag a venda apenas no sudeste.

A empresária começou suas próprias pesquisas sobre tecidos, modelagens e estampas que pudessem fazer com que o acessório fique cada vez mais bonito e confortável. Após esse processo, Angélica deu início a confecção das durags e passou a vender as peças no perfil de sua marca, Ina Durag (@ina.durags).

Outra marca que faz a cabeça de quem curte o acessório é a carioca, King Of Durags (@kingofdurags) fundada por Nathan Santos. O empresário conta que sempre foi apaixonado pelo estilo dos anos 2000 e cresceu assistindo os videoclipes dos seus artistas preferidos onde eles sempre usavam durags: “Quando pequeno eu pegava uns lenços e amarrava na cabeça pra ficar igual as durags, então sempre tive esse sonho dentro de introduzir as durags no meu estilo. Em 2019 foi quando de fato comecei a usar e em 2020 produzi as minhas. Desde então a durag se tornou parte da minha vida, antes de escolher qualquer look vejo primeiro a durag”.

O uso da durag é muito mais do que um acessório para compor o estilo, mas tem também uma relação ancestral e afetiva, além de ajudar na autoestima de pessoas pretas, segundo Natan: “Nos tiraram tantas coisas, então ver pessoas pretas nas ruas, principalmente nas favelas, usando durag me emociona. Minha missão é propagar a cultura e elevar autoestimas de pessoas pretas através da durag. Ver isso se concretizando me enche de felicidade.”

Durante sua participação no reality De Férias com o Ex Brasil Celebs, o modelo e influenciador digital Matheus Pasquarelli se viu diante de uma situação desconfortável envolvendo a durag.

Matheus teve o acessório rasgado depois de uma discussão com o participante Rico Melquiades. O episódio gerou várias reações em favor do modelo nas redes sociais:

“Naquele momento foi algo que me doeu muito e me estressou, porque é algo que me representa muito, além de ter um significado muito importante para mim. Cada peça significa um momento importante pra mim, além de todo o processo de construção do Matheus que eu sou hoje, de me encontrar. Então me feriu e nisso estourei”, conta o modelo.

Após o episódio, Pasquarelli aproveitou o ocorrido para criar um movimento em torno do uso do acessório em suas redes:

 
 
 
 
 
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Uma publicação compartilhada por Matheus Pasquarelli (@matheuspasquarelli)

Para Matheus, a durag é uma das formas de trabalhar a autoestima das pessoas: “A durag além de ser uma forma de manutenção de penteados afros, trouxe uma representação muito importante na moda. É importante enaltecer e mostrar possibilidades do nosso estilo e trabalhar a autoestima de pessoas pretas.”

Esse mesmo ponto é levantado por Nathan, da King Of Durags: “A King não é apenas um negócio mas também um movimento cultural que visa principalmente, deixar pessoas pretas felizes, fazer com que elas enxerguem a própria beleza e outras possibilidades. Seja fazendo waves, seja usando tranças dreads entre outros.”

De item de proteção dos povos escravizados, sendo ressignificado pelo movimento Black Power, virando item de moda e resistência por grandes artistas negros como Rihanna e Solange e nas mãos de empreendedores como Angélica e Nathan, a durag é usada para reforçar a autoestima, força e beleza de pessoas por meio de elementos da cultura preta.

“A King tem um ano e durante essa trajetória recebemos muitos feedbacks de pessoas agradecendo pelo produto ter elevado autoestima. Creio que hoje a durag se tornou símbolo de afeto entre pretes. Então presentear alguém com durag é um ato de amor, de resgate da nossa cultura. Costumo dizer que amarrar a durag em outra pessoa preta é coroá-la, afinal nossos ancestrais eram reis e rainhas” afirma Nathan.

Você já usou ou usa o acessório? O que ele representa pra você?

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