Entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, vigoraram em várias partes do globo as teses eugenistas, tendo como principal base a pseudociência da Frenologia. Isto é, teses que defendiam um padrão genético superior para a espécie humana. Tais teses defendiam a ideia de que o homem branco europeu tinha o padrão da melhor saúde, maior beleza e maior competência civilizacional em comparação às demais “raças”, como a amarela (asiáticos), a vermelha (povos indígenas) e a negra (africana).

Nesse período, alguns intelectuais brasileiros incorporaram essas teses, e delas derivaram outra, por sua vez, aplicável ao contexto do Continente Americano: a Tese do Branquea¬mento.

A defesa do branqueamento, ou do embranquecimento, tinha como ponto de partida o fato de que, dado o processo de miscigenação na História Brasileira, os descendentes de negros passariam a ficar progressivamente mais brancos, a cada nova prole gerada.

No Brasil, era comum se defender o fator da miscigenação como algo positivo, por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre as outras, especialmente a negra e a indígena.

O que isso quer dizer? A miscigenação passou a ser vista como uma poderosa forma de branquear/higienizar a sociedade brasileira.

O antropólogo brasileiro eugenista, João Baptista de Lacerda, transcreve nitidamente o anseio pelo embranquecimento no seguinte trecho retirado de um texto publicado em 1911:

“A população mista do Brasil deverá ter, pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.”

As lideranças do país no final do século XIX e início do século XX acreditavam que o território brasileiro era “sem futuro”, pois a quantidade populacional de não brancos era imensa. Identifica-se também, neste período, o começo da associação em forma de propaganda entre “mulata” e Carnaval, “negro” e “sexo”, entre outras congêneres.

Com o fim da escravidão, em 1888 (130 anos atrás), o Brasil não criou nenhum tipo de ação para incluir os negros no mercado de trabalho. Ao contrário, o país passou a fomentar a vinda de europeus que fugiam da revolução industrial para trabalhar aqui no país.

O Brasil, literalmente, dava terras e trabalhos para que esses brancos se misturassem aos nossos negros, e, dessa forma, tornassem a nossa sociedade cada vez mais branca nas próximas gerações. Foi a partir disso que a miscigenação passou a ser fomentada, como um plano de embranquecimento da sociedade brasileira.
Estima-se que cerca de 2,5 milhões de europeus vieram ao país num período de 25 anos.

Na Europa, o ideal eugênico foi disseminado pelo inglês Francis Galton, primo de Charles Darwin (pai da Teoria da Evolução). Ele afirmava que a seleção natu¬ral também era válida aos seres humanos. Sua crença era de que a capacidade intelectual não é individual, e sim hereditária. Seu projeto analisou a árvore genealógica de aproximadamente 9 mil famílias e tentava justificar a ex-clusão de diversos grupos: deficientes, negros, asiáticos e todos que não se encaixavam no suposto “padrão europeu”. Além de Galton, outros grandes intelectuais endossavam essas teorias, que passaram a ser aceitas em diversos países do mundo.

Os primeiros traços do eugenismo no Brasil apareceram no final da primeira década do século XIX. Em 1917, o médico e farmacêutico Renato Kehl foi o responsável por ampliar e disseminar o eugenismo no Brasil. Kehl acreditava que a única forma do país prosperar era com um projeto que focasse no predomínio da raça branca, prezando pelo branqueamento da população negra.

Além da segregação pela cor da pele, também defendia a exclusão de deficientes (físicos ou mentais), esterilização de criminosos e regulamentação de exame pré-nupcial (para garantir que a noiva era virgem), bem como exames asseguradores do divórcio caso a mulher tivesse “filhos ilegítimos” ou fossem comprovados defeitos hereditários em sua família. Promovia também a ideia de educação eugênica obrigatória nas escolas e teste para medir a capacidade mental em crianças de 8 a 14 anos. Kehl apresentou seus pensamentos em diversos congressos, e teve impacto em grupos de professores, médicos e adeptos do higienismo social. Assim, fundou-se, em 1918, a Sociedade Eugênica de São Paulo (SESP), primeira do tipo na América Latina.
O grupo contava com grandes nomes, como Monteiro Lobato, Olavo Bilac, Belisário Penna e outros grandes intelectuais brasileiros.

Em 1911, João Batista de Lacerda utilizou o quadro “A Redenção de CAM” como ilustração de seu artigo intitulado “Sur les métis au Brésil” (em português livre, “Sobre os Mestiços no Brasil”) no I Congresso Universal das Raças, em Paris.

O Congresso reuniu intelectuais de todas as partes do mundo para debater a relação das raças com o processo de civilização. A obra de Lacerda, considerado um dos principais expoentes da “tese do embranquecimento”, saía em defesa da miscigenação, apresentando a positividade desse processo no Brasil e mostrando a suposta superioridade dos traços brancos aos negros e indígenas.

O quadro mostra uma mulher negra retinta, agradecendo por sua filha, já mais clara, ter se casado com um homem branco, permitindo que seu neto finalmente alcançasse o ideal branco do embranquecimento.

Na constituição brasileira de 1934, havia textos que tratavam da responsabilidade do Estado de fomentar a educação eugenista no país. Ou seja, há apenas 85 anos atrás, o Estado Brasileiro era declaradamente racista e acreditava nas teorias de superioridade racial branca, suportando a miscigenação para higienização do país.

Existiu um plano, pensado com cientistas e discutido em congressos, a fim de tornar o Brasil um país mais branco, porque, no imaginário dessas pessoas, negros eram inferiores. Tudo isso há menos de 100 anos, e tudo isso fundamentou toda a tensão racial que existe no Brasil, e também nos coloca dentro das discussões sobre o colorismo.
O termo “colorismo” surgiu apenas em 1982, usado pela escritora Alice Walker, no livro “Se o presente se parece com o passado, como será o futuro?”, cujo objetivo foi abordar como as diferentes tonalidades de pele negra garantem inclusões ou exclusões na sociedade.


Aline Djokic, no Festival Marginal, diz que, ao contrário do racismo, que se orienta pela identificação do sujeito como pertencente a certa raça para poder exercer a discriminação, o colorismo se orienta somente pela cor da pele da pessoa. Isso quer dizer que, ainda que uma pessoa seja reconhecida como negra ou afrodescendente, a tonalidade de sua pele será decisiva para o tratamento que a sociedade a dará.

Jean Patton, em 1991, descreveu o sistema de classificação de peles negras, identificando 38 tons de peles negras, classificando-os em seis grupos, subdivididos em dois grupos de peles quentes, dois de peles frias e dois de peles neutras. Os nomes dos grupos foram inspirados em regiões, ritmos musicais e temperos.

• Calipso é uma pele quente e dourada, de tom médio, vivaz e alegre, como esse ritmo musical caribenho. Exposta ao sol, fica mais dourada.

• Spike é quente e avermelhada, de tom médio e tempero quente, como a palavra em inglês sugere. Exposta ao sol, fica mais acobreada.

• Saara, também amarelada, mas neutra e clara, lembrando os amarelos neutros das dunas desse deserto. Exposta ao sol, escurece num marrom café.

• Nilo é neutra, muito clara e fria, como a água do rio africano desse nome. Exposta ao sol, escurece e mancha, ficando meio cinzenta.

• Jazz é escura da cor de chocolate ou café, de fundo verde e fria, é intensa e imprevisível como o Jazz. Exposta ao sol, fica mais marrom.

• Blues também é fria, escura, de fundo azulado, profunda, lenta e melancólica, como esse ritmo musical. Exposta ao sol, fica mais azulada.

Sem entrar em maiores detalhes, é importante lembrar também que a pele branca não é única em tom.

Devido ao histórico brasileiro de fomento a miscigenação e embranquecimento, a discussão do colorismo no Brasil tem se mesclado à afroconveniência. Isso porque muitas pessoas brancas se aproveitam da autodeclaração — algo extremamente importante para a população preta no Brasil — para se afirmarem como negras e roubarem o espaço de protagonismo que temos lutado para conquistar em um país de maioria negra.

Não pretendo me aprofundar na discussão sobre afrocoveniência, mas é importante citar a necessidade do bom senso durante a discussão sobre o colorismo.

Apesar de existirem diversos tons de pele negra e a pigmentocracia conferir acessos e exclusões a pessoas negras pelo país, pessoas negras como eu não possuem dúvidas de sua negritude.

O racismo nunca me permitiu ter qualquer dúvida de que eu sou um homem negro, o que deve acontecer com a grande maioria das pessoas negras no país.

Pessoas negras de pele mais clara possuem uma passabilidade social maior, mas ainda sofrem com o racismo, principalmente por acessarem com maior facilidade ambientes brancos, onde o racismo pode ser ainda mais visível.

Dentro disso tudo, a noção de racismo se mescla com noções de preconceitos específicos, como o preconceito a traços que remetem à negritude. Mas possuir tais traços individuais não torna alguém negro também.

Muitas pessoas brancas possuem cabelos cacheados e podem até sofrer discriminações por isso, mas não deixam de ser brancas. Apesar de o cabelo crespo ser uma característica predominantemente negra, não é exclusiva. Um grande exemplo é a cantora Vitória do duo Anavitória que possui o cabelo cacheado e possivelmente sofreu discriminação por isso na infância, mas é indiscutivelmente uma mulher branca.

Brancos com nariz largo, cabelos crespos e lábios grossos podem acabar sofrendo discriminação, uma vez que essas características são ligadas a pessoas negras, mas isso não os torna negros, e isso não é racismo.

Da mesma forma, pessoas negras com traços mais próximos dos ligados aos europeus, com nariz fino, cabelos menos crespos, lábios menos grossos e pele mais clara, podem sofrer menos discriminação e encontrar maiores inclusões, mas isso não deixa de ser racismo e é sobre essas inclusões e exclusões que fala o colorismo.

Mas, afinal, dentro de toda essa discussão, como eu entendo se sou negro ou não?

A definição social de pessoas negras no Brasil, de acordo com as minhas observações, passa por 3 elementos: ascendência, fenótipos e leitura social.

A ascendência diz respeito à sua ancestralidade. Você é filho ou neto de pessoas negras? Se sim, há chance de você ser uma pessoa negra, mas isso não quer dizer que você seja. Afinal, eu possuo ascendência europeia e mesmo assim não posso me dizer um homem branco.

O racismo no Brasil é episódico, não genético. Se você possui a pele branca e os traços europeus, você será visto na sociedade como branco independente da cor da pele de seus pais.

Fenótipo diz respeito à cor de sua pele e seus traços. Pele escura, nariz largo, lábios grossos e cabelo crespo fazem com que você seja visto como uma pessoa negra. Embora, como eu já disse, possuir uma característica ou outra não te torne negro.

E, por fim, mas extremamente importante: a leitura social. Como a sociedade te lê? Quanto mais fenótipos negros você possuir, maiores as chances da sociedade te ler enquanto uma pessoa negra, e aí entra uma forma de análise e identificação muito interessante.

Considerando que estamos falando de grupos raciais e leitura social, essa análise pode ser feita através do que a YouTuber Xan Ravelli, do canal Soul Vaidosa, chama de “observação em grupo”. Isto é, a qual grupo social você acredita pertencer? Onde você se sente bem e acolhido?

Ao mesmo tempo, a fim de não contribuir com a afro-conveniência, é necessário analisar se o grupo social ao qual acredita pertencer te reconhece como membro.

Não existe uma possibilidade de análise exata da negritude de alguém. É necessário bom senso e, principalmente, cautela.

A ideia de nos separar em grupos surge também como tática da branquitude para nos controlar, o que é amplamente registrado.

Willie Lynch, proprietário de escravos no Caribe e conhecido por manter seus escravos disciplinados e submissos, após ser questionado sobre seus métodos de dominação, escreveu uma carta na qual detalhava utilizar as diferenças entre negros para dominar. Em suas palavras:

“Verifiquei que, entre os escravos, existe uma série de diferenças. Eu tiro partido destas diferenças, aumentando-as. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja para mantê-los debaixo do meu controle. Eu vos asseguro que a desconfiança é mais forte que a confiança; e a inveja, mais forte que a concórdia, respeito ou admiração.
Deveis usar os escravos mais velhos contra os escravos mais jovens e os mais jovens contra os mais velhos. Deveis usar os escravos mais escuros contra os mais claros e os mais claros contra os mais escuros. Deveis usar as fêmeas contra os machos e os machos contra as fêmeas. Deveis usar os vossos capatazes para semear a desunião entre os negros, mas é necessário que eles confiem e dependam apenas de nós.
Meus senhores, estas ferramentas são a vossa chave para o domínio, usem-nas. Nunca percam uma oportunidade. Se fizerdes intensamente uso delas por um ano, o escravo permanecerá completamente dominado. O escravo, depois de doutrinado desta maneira, permanecerá nesta mentalidade, passando-a de geração em geração”.

– Carta de Willie Lynch

Ou seja, utilizar nossas diferenças para nos separar é uma ótima forma de nos manter ocupados guerreando entre nós. E como meu mano Coruja Bc1 diz em sua letra “Lágrimas de Odé”:

“Não deixei a guerra entrar em nosso terreiro. Se é nós contra nós, nós que morre primeiro”

Discutam sobre esse assunto.


Não permitam que brancos sejam afroconvenientes com a nossa luta, mas, ao mesmo tempo, não nos fechemos em um só tom de pele negro ou um único traço ancestral. Somos diversos, devemos discutir nossos privilégios, inclusões e exclusões, mas acima de tudo, devemos estar unidos. Sempre!

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