A cultura do “o pior racista é o próprio negro”, tem que acabar

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A não ser que você tenha nascido em Wakanda, terra do Rei T’challa,  é bem provável que a menção aos povos africanos só aparecia nas aulas de História que abordavam a escravidão. Talvez uma pitadinha da contribuição do negro para cultura ( a feijoada) estava presente nos livros, mas é bem improvável que em sala, algum professor tenha lhe ensinado sobre as grandes contribuições de pessoas negras, homens e mulheres, para humanidade. E elas foram muitas.

Para algumas pessoas pretas a escola foi o local onde elas aprenderam a se odiar. Onde muitos traumas nasceram.

Sabemos que nas escolas particulares, os poucos alunos negros sofrem com preconceitos implícitos e explícitos. Na escola pública , o descaso governamental das instituições de ensino repletas de alunos pretos pobres já é indícios de como somos preteridos. A gente não teve nem professor negro na maioria dos casos.

Dentro desse cenário carente de referencias positivas sobre negritude, nasce o negro que dentro de si, da sua revolta oriunda de uma sensação de impotência social, da violência real e simbólica, do descaso e da falta de oportunidade, cria ranço de tudo o que o lembra dessa situação, incluindo aí as pessoas parecidas com eles.

Paulo Freire já dizia “Quando a educação não É libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Então quando o segurança negro persegue a pessoa negra no shopping, a professora negra implica mais com alunos negros, a senhora xinga jogadora de BBB20 de mucama, estamos falando de pessoas que acabam reproduzindo experiências que viveram ou testemunharam de perto.

Ao longo desses 20 anos escrevendo sobre negritude, é bem comum me deparar com a frase “O pior é racista é o próprio negro” . Ver atitudes consideradas racistas sendo reproduzidas por pessoas negras nos choca, é verdade. Elas não deixam de ser erradas e abomináveis. Porém essas pessoas reproduzem e não criaram o racismo.  Elas não fazem um upgrade na estrutura social quando agem como pessoas racistas. Elas ainda pertencem ao grupo de oprimidos.

A questão racial é tão complexa, que em um dos seus  espectros mais perversos,  colocamos pessoas negras que reproduzem o racismo na mesma categoria das pessoas que além de reproduzir, se privilegiam com ele.

Racismo e reprodução de racismo são práticas condenáveis até do ponto de vista jurídico, não importa a cor de quem o pratica.

O branco inventou o conceito de raça para se colocar como superior, o branco inventou o racismo e a escravidão, o branco ainda oprime os negros de diversas formas, ganham mais, estuda mais, casa mais e ainda vamos precisar de várias gerações para ficar em pé de igualdade com eles.

Ainda sobre  o nascimento do racismo, destaco um trecho do livro do escritor Ale Santos, Rastro de Resistência: “ Quando a colonização trouxe vários povos africanos, o mito da pureza do sangue precisava ganhar uma nova forma para que as pessoas pudessem compreender aqueles homens e mulheres e pele escura e traços diferentes do que estavam habituados. Nesse período, os cristãos passaram a buscar no livro máximo de fé, a Bíblia, a explicação para essas diferenças”. Sim, até a igreja ajudou a disseminar o racismo.

Não, você não precisa ser empático, tolerante e nem acolher a pessoa negra que reproduz o racismo.  Só é preciso repensar a questão de achar que pessoas negras com atitudes “racistas”( aspas porque negro não pode ser racista) são piores de quem criou e vive dos benefícios históricos e centenários frutos do racismo. O pior racista é, e sempre será, a pessoa branca.

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