A cozinha da diáspora africana pelas Américas

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Aline Chermoula: é a nova colunista do Mundo Negro. Ela é cozinheira e pesquisadora da culinária afrodiaspórica pelas Américas

A identidade cultural de um povo age como sustentação e manutenção de suas tradições, hábitos e costumes. Os traços peculiares permitem a produção, fomento e difusão do conhecimento, e a comida mantém ligação intrínseca aos significados atribuídos aos alimentos e ao ato alimentar, criando assim, símbolos que moldam os hábitos culturais de um grupo.

A diáspora carrega em si a ideia de dispersão, assim também como a possibilidade de regresso. Os africanos da diáspora buscaram, na criatividade e na organização, as formas de resistir mantendo suas culturas vivas, principalmente a culinária, que carregou muitas características de sua origem.

Uma das principais romantizações que se faz da história brasileira é a contribuição dos povos africanos escravizados para a gastronomia nacional. Importante lembrar que a população da diáspora executava trabalhos forçados nas colônias. Portanto, é impossível pensar que essa construção da cultura alimentar se deu de bom grado como uma troca de saberes.  Internamente, a cultura e a religiosidade de matriz africana, transmitidas com resiliência entre gerações, é um dos pilares da gastronomia do país – se não a principal influência, e era, infelizmente ainda é, uma religião que sofre ataques dos intolerantes.                                                                                

A imigração forçada dos africanos destruiu ainda nossas referências históricas com nossos antepassados. Os reinos devastados, sociedades desenvolvidas e com tecnologia desconhecida foram roubadas pelos europeus, que também levaram nossas riquezas. Mas a cultura viajou junto com as pessoas e a culinária é uma das maiores representações culturais de um povo. O comportamento relativo à comida liga-se diretamente ao sentido de nós mesmos  e à nossa identidade social.

Quando você come uma moqueca, por exemplo, sente que ali tem a mão de algum descendente do continente africano. A pamonha também tem um pouco de África em si, se aproxima muito dos acaçás e aberéns. Posso citar até mesmo a maniçoba é um prato indígena, mas que tem registro de preparos parecidos na mãe África.

A culinária possui significados e simbolismos diversos nas diferentes formas de cultura. A comida transcende seu significado para algo além do satisfazer-se biologicamente (nutrir o corpo com o essencial para sobrevivência), mas o ato de comer está entre o que é natural, social e cultural no homem. No processo de transformar o alimento em comida ocorre a introdução de crenças, costumes, saberes de um determinado grupo. A forma que os povos se alimentam está diretamente relacionada historicamente à sua cultura, às condições geográficas, recursos econômicos e até mesmo a religião. E foi em torno desta última que inicialmente os africanos recém chegados ao Brasil se organizaram e fortaleceram para resistir à escravização e perpetuar alguns saberes ancestrais africanos  E as religiões de matrizes africanas trazem consigo um arsenal de referências culturais pertencentes a nossos ancestrais.

Por isso, a cultura alimentar é  um aspecto importante para recuperação da humanidade de muitos indivíduos.

Foto: Reprodução Instagram Aline Chermoula

A culinária da diáspora africana pelas américas tem como principal objetivo promover e resgatar memória ancestrais, por meio da pesquisa sobre comida africana e suas representações em países do continente americano. Esse tipo de fazer é conhecido como culinária afrocontemporânea, uma cozinha que utiliza como principais ingredientes alimentos que fazem parte das dietas alimentares de vários países continente Africano.  Essa cozinha que chamo diaspórica pelas Américas, não é um conceito muito conhecido ainda. A defino a partir de minha visão e conhecimentos.

Receitas como Gumbo, prato da culinária cajun do Sul dos EUA, Ropa Vieja comida emblemático de Cuba, assim como Acarajé, comida que representa o povo de santo no Brasil, acredito que muitos outros são importantes e serão ainda revelados.

Esta culinária das Américas tem como principal característica a grande diversidade de origens, que se dão a partir das misturas de ingredientes, técnicas de preparo e conservação dos alimentos, além das influências dos nativos, exploradores, outros imigrantes escravizados e conquistadores.

A comida afro contemporânea se define pela utilização de ingredientes em comum como o inhame, a banana da terra, a pimenta malagueta, o coco, o tamarindo, os feijões, os camarões secos, as ervas frescas e as especiarias.

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