A camisa da seleção brasileira

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A camisa da seleção brasileira
Foto: Nike

Melhor que despolitizar seria, talvez, politizar pela liberdade religiosa, pela diversidade, contra o racismo, contra o machismo, pela proteção das matas de Oxóssi e dos povos que nelas habitam

Um possível erro no sistema operacional no site da empresa Nike proibia a personalização da nova camisa da seleção brasileira com palavras ligadas às religiões de matrizes africanas e liberava referências do cristianismo. Mas como o grande público ficou sabendo disso? Como este assunto ganhou destaque nas redes sociais? No dia 15 de agosto, ao vivo no podcast Com Todo Respeito os apresentadores estavam conversando sobre o impedimento de personalizar a camisa da seleção brasileira lançada para a Copa do Mundo de 2022 com expressões de cunho religioso, político e de palavras ofensivas. Os apresentadores do citado podcast fizeram uma sequência de testes na aba de customização e naquele momento expressões como “Jesus” e “Cristo” eram permitidas enquanto “Exu” e “Ogum” eram proibidas. 

As restrições já haviam causado debate bem no lançamento. A empresa, em nota, se pronunciou, como se pode ler no portal Terra: “A Nike, como descrito na própria página, não permite customizações com palavras que possam conter qualquer cunho religioso, político, racista ou mesmo palavrões. Este sistema é atualizado periodicamente visando cobrir o maior número de palavras possíveis que se encaixem nesta regra”. “Lula”, “Bolsonaro”, “comunismo” entre outras palavras também estão indisponíveis. Após a repercussão do podcast e das manifestações nas redes sociais a marca se pronunciou novamente e explicou que ocorreu uma falha no site “que permitiu a customização de algumas palavras de cunho religioso” e que ela “está sendo corrigida”, como consta na página eletrônica da empresa O Globo

Tudo devidamente explicado e confirmado. Hoje o sistema não permite mais a personalização com palavras anteriormente autorizadas, como “Jesus” e “Cristo”. Porém, todo esse possível erro operacional nos leva a outras complexidades que envolvem política, religião e futebol. Aprendemos, desde a infância, que esses três temas não se discutem. Mas serei desobediente. No “país do futebol”, onde muitos e os mais famosos jogadores são declaradamente evangélicos e onde o cristianismo na sua versão evangélica pentecostal mais cresce, esses temas são quase incontornáveis. No último censo do IBGE, em 2010, a população evangélica era de 22% do total de cristãos. O mapa religioso do Brasil mudou nos últimos anos. Segundo dados de pesquisa promovida pelo Datafolha em 2019, publicados na Folha de São Paulo, em 2020, 50% dos brasileiros eram católicos e 31%, evangélicos. Conforme apontam alguns pesquisadores da religião no Brasil, é possível que num futuro não muito distante o número de evangélicos ultrapasse o de católicos. No site Religião e Poder do Instituto dos Estudos de Religião (o ISER) é possível consultar dados e análises da relação entre crescimento de evangélicos e política institucional. Da religião à política, da política à religião, agora voltemos para o futebol e a religião.  

Na seleção e nos clubes brasileiros, na maioria das comemorações de gol, os jogadores levantam as mãos ao céu numa nítida alusão à fé em Deus. Na multidão de preces ao Deus cristão, uma exceção, Paulinho. No ano passado, na partida do Brasil contra a Alemanha nos Jogos de Tóquio, Paulinho, após o gol da vitória de 4 a 2, saudou Oxóssi com um gesto que fazia alusão à flecha do orixá guerreiro e dono da mata. Da exceção lembramos da importância da luta pela representatividade, tão importante para a população negra. 

Num país em que religião e política se misturam. Um exemplo, relativamente recente, foi a votação pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016, quando os parlamentares acionaram discursos de Deus e Família para justificar esse processo político. De acordo com o ISER, Eduardo Cunha, na ocasião presidente da Câmara dos Deputados, coordenou a votação e ao abrir a sessão disse a seguinte frase: “Está aberta a sessão. Sob a proteção de Deus”. Além disso, conforme analisou o Huffpost Brasil, “a menção aos crimes de responsabilidade fiscal foi citada apenas 18 vezes na Câmara dos Deputados, enquanto os termos como ‘Família’ e Filhos’ e ‘Deus’ foram citadas 250 e 75 vezes, respectivamente”. Evidenciando o conservadorismo e a religião entre os valores anunciados pelos parlamentares. 

O ano de 2022 é de Copa (no Catar) e eleições presidenciais no Brasil, o país do futebol anunciado pelo atual presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro como uma nação de Deus. E como vivemos em disputa, Bolsonaro, no último sábado, na cidade do Rio de Janeiro, na Marcha para Jesus, mais uma vez afirmou a posse do Brasil por Deus. Os inúmeros fiéis vestiam a camisa do Brasil e carregavam bandeiras do país. Essa mesma camisa que a Nike tenta, deseja despolitizar até novembro, mês previsto para o início da Copa do Mundo. Melhor que despolitizar seria, talvez, politizar pela liberdade religiosa, pela diversidade, contra o racismo, contra o machismo, pela proteção das matas de Oxóssi e dos povos que nelas habitam.  

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