A Beyoncé não é o problema.

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Recentemente a diva pop americana lançou um álbum visual em parceria com a Disney, “Black is King”, o projeto conta a colaboração de diversos artistas africanos ainda pouco conhecidos globalmente, o filme musical é ao mesmo tempo uma releitura de “O Rei Leão” e uma carta de amor a África, carregado de referências e símbolos importantes na história do povo preto.

A questão?

A Beyoncé é rica demais. Ostenta demais. A Beyoncé não é Marxista. Não dá para se sentir representado por um bilionário. Pretos no topo? O importante é não ter topo. A Beyoncé insiste em glamourizar a negritude com estampa de oncinha. Dizem.

Não quero e nem devo questionar aqui o fundamento das críticas, se elas são pertinentes ou não. Mas porque esse direcionamento agressivo e que responsabiliza uma cantora pop por problemas que talvez fujam a sua alcunha e pelos quais ela não é diretamente responsável?

E por que a Beyoncé? Por que não a Lady Gaga, a Madonna ou a Kim Kardashian? Que tal redirecionarmos essa energia para o Elon Musk? Ah e por que não até mesmo o Neymar? (Ou só vale para negros ricos que decidem falar sobre negritude?).

Confrontam inclusive os negros que ousam dizer que se sentem representados pelo trabalho visualmente impecável da artista, que certamente alcança muito mais gente do que os intermináveis debates de acadêmicos e teóricos em suas bolhas sociais.

Talvez o problema não esteja exclusivamente no fato de que a Beyoncé (de novo, uma cantora pop) não defenda um projeto projeto político que resolva o problema do capitalismo (e sim, a gente sabe disso, vocês não precisam explicar); talvez o problema nem seja a Beyoncé… Talvez a verdadeira questão seja com pessoas negras contando outras narrativas, partindo de outros lugares, exercendo outros protagonismos.

É desumanizador exigir que falemos apenas sobre nossas dores. O problema de vocês não é com a Beyoncé, é com pretos ascendendo socialmente. O problema é que vocês só ouvem quando o que grita são as nossas cicatrizes (permita que eu fale, já disse o Emicida). Somos maiores, diversos e muito mais do que só isso.

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