A escritora afrofuturista e pedagoga Lu Ain-Zaila desabafou no Instagram após o jornal O Globo usar uma foto sua em uma reportagem sobre a cientista da computação Nina da Hora. Em texto publicado nesta terça-feira (29), ela descreve a situação como um “duplo apagamento” de duas mulheres negras. Na semana passada, ambas palestraram no mesmo painel na programação da Flip 2026, sobre inteligência artificial e narrativas.
Ao longo do texto, Lu Ain-Zaila ironiza a ideia de que, na “era digital, da informação”, erros como esse deveriam ser menos frequentes — “mas quando se trata de corpos negros não é”. Ela cogita, em tom de sarcasmo, fazer uma blusa com a frase: “Não sou a Nina, mas conheço…”, para reagir aos que confundiram as duas profissionais negras.
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Autora de obras renomadas como “Ìségún”, “Sankofia: breves histórias sobre afrofuturismo”, “(In)Verdades” e “(R)Evolução”, ela completa o desabafo: “A pessoa trabalha um monte e tem seu reconhecimento ceifado. A outra rala um monte e tem sua trajetória trocada, vira a ‘outra mulher negra não encontrada’”.
Além de pedir que o público leia os seus livros para conhecer mais sobre o seu trabalho, Lu Ain-Zaila ainda destacou três obras que evidenciam as dinâmicas de racismo que marcam o episódio envolvendo as duas profissionais negras: “Dispositivo de Racialidade”, de Sueli Carneiro; “A descoberta do Insólito”, de Mário Augusto de Medeiros; e “Vidas negras, vidas literárias”, de Vagner Amaro.
Ao final do texto, a escritora agradece: “Deixo meu imenso muitíssimo obrigada por todas as menções me nomeando, reforçando que esquecimento não é uma opção no coração de vocês”. E encerra com um desejo que sintetiza o tom do episódio: “Muito Axé pra essa semana não acabar com mais gente desaparecida, sem rosto ou sem nome”.
Quem é Lu Ain-Zaila
Luciene Marcelino Ernesto, conhecida artisticamente como Lu Ain-Zaila, é uma pedagoga e escritora brasileira nascida em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Formada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ela é mestranda em Letras pela PUC-Rio e atua como pesquisadora nas áreas de educação e literatura, com foco em afrofuturismo.
Considerada uma das precursoras do afrofuturismo na literatura brasileira, Lu Ain-Zaila constrói narrativas que mesclam ficção científica, fantasia e saberes ancestrais africanos, articulando-os a questões contemporâneas das existências pretas. Ela também se define como “voz baixadense” e intelectual negra latino-americana, trabalhando com o subgênero cyberfunk, que mistura cenários distópicos de desigualdade e resistência periférica com atmosferas de festa e celebração das origens.
A trajetória literária de Lu Ain-Zaila inclui contos, romances e obras que consolidaram sua presença no cenário da ficção especulativa negra no Brasil. Veja aqui!
Entenda o caso
O episódio teve origem em uma reportagem do O Globo, publicada no fim de semana, que integrava a lista “101 brasileiros que constroem o futuro”, na qual Nina da Hora foi incluída como cientista da computação e fundadora do Instituto da Hora. A imagem usada para ilustrar o perfil de Nina, no entanto, era de Lu Ain-Zaila — e, segundo a própria Nina, esse vínculo incorreto entre nome e fotografia já existia no acervo do jornal desde 2022.
Após a denúncia de Nina no LinkedIn, o jornal trocou a foto no site, mas sem publicar nota de correção; a edição impressa, que já havia circulado, permaneceu com o erro. Nina explicou que o problema real está no índice de arquivo do jornal, que manteve o par “nome de Nina + foto de Lu” disponível para reutilização, mesmo depois da substituição na página.
Nina da Hora, por sua vez, é cientista da computação, pesquisadora e ativista, conhecida por seus estudos sobre ética de algoritmos, inteligência artificial e racismo algorítmico, com foco em tecnologias de reconhecimento facial. Ela integra a lista de homenageados da PowerList Mundo Negro 2026 na categoria Ciência, Tecnologia e Inovação, reconhecimento a profissionais negros que se destacam na produção de conhecimento e na fiscalização de sistemas automatizados.
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