CNDH cita quase 90 mil publicações abusivas entre seis milhões analisadas na Copa, com 11% de conteúdo racial contra jogadores negros e autoridades públicas.
O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), órgão vinculado ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), formalizou uma denúncia à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Fifa contra episódios de racismo, discriminação racial e discurso de ódio registrados durante a Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, no Canadá e no México. A representação foi enviada com base em um levantamento que identificou cerca de 89 mil publicações com conteúdo abusivo entre mais de seis milhões de mensagens analisadas nas redes sociais durante a fase de grupos do torneio, das quais 11% tinham caráter racial.
Notícias Relacionadas



O documento foi encaminhado a quatro instâncias distintas: o Comitê de Direitos Humanos da ONU, a Relatoria Especial da ONU sobre Formas Contemporâneas de Racismo, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos e o canal oficial de denúncias da Fifa. Em relação à entidade que organiza o torneio, o CNDH pede que sua atuação seja avaliada à luz dos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos, verificando se as medidas adotadas durante a competição foram compatíveis com os compromissos internacionais de proteção aos direitos fundamentais.
Na manifestação enviada aos organismos internacionais, o conselho sustenta que os três países-sede da competição, junto aos demais Estados envolvidos, têm obrigações previstas em tratados internacionais de direitos humanos para prevenir, investigar e responsabilizar autores de manifestações de ódio ocorridas sob suas respectivas jurisdições.
Entre os episódios mencionados pelo CNDH está a onda de ataques racistas contra o atacante francês Kylian Mbappé, disputando a artilharia da competição. Os insultos partiram inclusive de autoridades públicas, caso da senadora paraguaia Celeste Amarilla e do ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que questionou a nacionalidade de jogadores da seleção francesa. O conselho também registrou ataques em massa nas redes sociais contra jogadores negros da seleção holandesa após a eliminação da equipe nos pênaltis, além de manifestações atribuídas a comentaristas esportivos, ex-jogadores e treinadores ao longo do torneio.
A presidente do CNDH, Ivana Leal, afirmou em comunicado enviado à imprensa que os dados reforçam a necessidade de os Estados adotarem medidas efetivas de prevenção, responsabilização e proteção das vítimas. Já o relator da instituição, Carlos Nicodemos, sustenta que os casos ultrapassam o âmbito esportivo e demandam resposta coordenada dos organismos internacionais, já que o futebol reflete dinâmicas sociais mais amplas.
O CNDH funciona como o principal órgão de direitos humanos vinculado ao governo federal e tem entre suas atribuições monitorar, investigar e recomendar medidas em casos de violações praticadas no Brasil e no exterior quando envolvem cidadãos ou interesses brasileiros. O conselho reúne representantes do poder público, de movimentos sociais e de entidades da sociedade civil, e costuma atuar em parceria com relatorias da ONU em temas ligados a discriminação racial, liberdade religiosa e proteção de populações vulnerabilizadas.
A atuação do conselho junto a organismos internacionais durante grandes eventos esportivos ganhou força a partir de casos anteriores de racismo no futebol europeu, que já haviam motivado manifestações de entidades de direitos humanos e de confederações nacionais. Jogadores negros de ligas como a espanhola e a francesa relataram, nos últimos anos, episódios recorrentes de ofensas raciais em estádios, o que levou organismos como a Uefa a endurecer protocolos internos de punição, sem que o problema fosse eliminado das competições.
A escalada de episódios discriminatórios ao longo da Copa de 2026 tem sido acompanhada por entidades antirracistas e por federações de futebol de diferentes países, que cobram da Fifa protocolos mais rígidos de identificação e punição de torcedores e autoridades envolvidos em manifestações de ódio dentro e fora dos estádios.
Com a denúncia formalizada, o CNDH aguarda manifestação da ONU e da Fifa sobre a abertura de investigações e a adoção de medidas de responsabilização. A cobrança ocorre a poucos dias da final da competição, que reúne Espanha e Argentina em Nova Jersey, e deve pautar debates sobre o legado social do torneio nas próximas edições do Mundial.
Notícias Recentes


