João Cândido: 146 anos de legado do herói negro

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João Cândido: 146 anos de legado do herói negro
Foto: Divulgação

“Não há no mundo um pobre coitado linchado, um pobre homem torturado, em quem eu não seja assassinado e humilhado.” – Aimé Césaire

Não podemos aceitar que a memória de João Cândido seja atacada, e muito menos apagada, na história brasileira. Lembrar da sua batalha é o compromisso mínimo de quem não aceita que o racismo continue sendo o alicerce das relações raciais neste país. E aqui faço a minha parte.

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O gaúcho João Cândido nasceu no dia 24 de junho de 1880, em Encruzilhada do Sul. Um homem negro elevado, postumamente, ao posto de herói nacional por causa do seu papel no movimento histórico dentro da Marinha do Brasil. A luta do negro é um continuum desde a colonização; com o estabelecimento da Lei Áurea, o ciclo de violência não foi abolido. O racismo simplesmente mudou de métodos. Passamos a ser humilhados, marginalizados, perseguidos e assassinados pelo Estado. Clamamos por socorro, mas o discurso da democracia racial era colocado como um “cala a boca” pelas pessoas brancas.

Na Marinha, os castigos como punição remetiam ao que acontecia nas fazendas. Chibatadas. Chibatadas e mais chibatadas nos corpos negros. Humanos negros. O rastilho de pólvora para a corajosa atitude de centenas de marinheiros, pretos e pardos, que se mobilizaram contra a instituição, aconteceu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi condenado a 200 chibatadas. A tolerância acabou daqueles oprimidos, afinal, era a dignidade humana que estava em questão. João Cândido mobilizou cerca de 2.300 marinheiros. Estavam exigindo a melhoria nas condições de trabalho e a abolição da chibatada. Isso ocorreu na noite de 22 de novembro de 1910.

O governo brasileiro tomou um choque de realidade. Nas palavras do Almirante Negro: “(…) Na organização da revolta eu dispunha de todos os poderes, parei o Brasil. Durante seis dias eu parei o Brasil (…)”. Esses insurgentes ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro, na época a capital federal. O governo se viu encurralado e entrou em acordo com os marinheiros; o movimento ficou conhecido como Revolta da Chibata.

Mas como o sistema é perverso, os acordos foram descumpridos pelo governo. A perseguição contra os marinheiros e João Cândido foi implacável. Daquele momento em diante, a história do nosso herói se resume em dor, sofrimento e injustiças. Apesar disso, prefiro pensar na sua coragem e no objetivo alcançado tempos depois: chibatada, nunca mais! E o Almirante Negro eternamente o nosso herói.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÂNDIDO, João. Depoimento de João Cândido, líder da Revolta da Chibata. Entrevistadores: Hélio Silva e Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Museu da Imagem e do Som, 1968. Transcrição disponível em: Impressões Rebeldes (UFF). Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/2022/wp-content/uploads/2024/05/Entreista-com-Joao-Candido-1968-Impressoes-Rebeldes.pdf. Acesso em: 19 jun. 2026.

MOREL, Marco. João Cândido e a luta pelos direitos humanos. Livro fotobiográfico. Brasília: Fundação Banco do Brasil, 2008. V. 1.PASSOS, Eridan. João Cândido: o herói da ralé. São Paulo: Expressão Popular, 2008

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