Visibilidade Lésbica: “As pessoas não querem mulheres negras falando de sua sexualidade”

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Visibilidade Lésbica: “As pessoas não querem mulheres negras falando de sua sexualidade”
Reprodução/Instagram

Criadoras de conteúdo negras e lésbicas aliam gênero, raça e sexualidade para ampliar o debate nas redes sociais

O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica foi criado durante a realização do 1º Seminário Nacional de Lésbicas, conhecido como SENALE (atualmente conhecido como atualmente SENALESBI – Seminário Nacional de Lésbicas e mulheres Bissexuais) realizado há 25 anos no Rio de Janeiro. O evento teve entre seus objetivos “discutir, refletir e propor ações para intervir nas políticas públicas, através da construção coletiva, na busca por direitos e dignidade, pela livre expressão das sexualidades e pela diversidade de orientação sexual e identidade de gênero”.

Em abril de 2022, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, convocou os Estados da região a adotar medidas que contribuam para a prevenção da violência contra mulheres lésbicas. É claro que o cenário ainda precisar mudar muito, mulheres lésbicas enfrentam desafios de gênero e sexualidade em uma sociedade estruturalmente machista, e se somarmos a isso a questão racial, constatamos que as dificuldades podem ser ainda maiores.

Sobre os desafios que enfrenta como advogada e criadora de conteúdo para a internet, Márcia Vasconcelos, afirma que está em alerta constante: “A associação da minha sexualidade com minha negritude me faz ficar alerta, me coloca em um estado constante de apreensão. Mesmo em um ambiente que se diz seguro o racismo, gênero e sexualidade colocam um alvo nas minhas costas”.

Márcia Vasconcelos

“Mulheres pretas independente da sua sexualidade são hipersexualizadas, pelo imaginário racista e misógino além disso, a pele branca é sempre associada à pureza e doçura prova disso é que rede sociais de mulheres lésbicas brancas ainda que não entreguem um conteúdo que necessariamente agregue valor tem um número de seguidores infinitamente maior do que criadoras negras e lésbicas. As pessoas não querem mulheres negras falando de sua sexualidade. O lugar que é minimamente aceito é o lugar de espetacularização da dor da pessoa preta. A dor causa engajamento para ver lésbicas felizes se busca perfis de mulheres brancas com estereótipo que a agrade e essa não é a característica de mulheres negras e lésbicas, sejam elas cis, trans, não binaries ou que não perfomance uma feminilidade que se julgue aceitável”, reflete Márcia.

Leilane Ribeiro, 23 anos, é criadora de conteúdo na internet. Negra e lésbica, ela criou a página Sapatão Suburbana. Leilane ainda vê dificuldades de inserção de pautas de mulheres lésbicas nas políticas públicas voltadas para a população LGBTQIA+: “Não vemos a sociedade e a comunidade LGBTQIA+ se preocupando com nossas questões, buscando nos incluir nos espaços sociais e nos ouvir. Ambas não se importam com o fato de até hoje os ginecologistas em sua maioria não acharem necessário nos examinar por nossas relações não serem com homens; com não termos dados estatísticos até hoje sobre nós”.

Leilane Ribeiro

Apesar de trabalhar criando conteúdo para as redes sociais, a influenciadora vê na internet um ambiente hostil para falar sobre sua sexualidade: “Ainda há muito preconceito e falta de valorização. Se para uma pessoa negra criadora de conteúdo já é difícil adquirir visibilidade, sendo lésbica negra é mais ainda. A sociedade não quer saber sobre nós. Ela não nos admira e nos valoriza”, afirma.

A técnica de enfermagem, Bruna Carvalho, explica que em seu trabalho, um dos principais desafios é a criação de ações voltadas para a saúde de mulheres lésbicas. “A área da saúde limita muito a existência de mulheres lésbicas porque ela ainda não pensa sobre saúde para nós, logo, passar em processos seletivos ainda é um processo dificultado”.

Bruna Carvalho

Bruna afirma que os desafios políticos enfrentados por mulheres negras lésbicas ainda persistem. “A luta que começou a anos ainda está sendo necessária de ser pautada em 2022, com desafios iguais e até maiores que anteriormente, somos percursoras de melhorias em saúde, acesso, assim como poder ter o direito de existir ainda”.

Sobre estar presente nas redes sociais criando conteúdo com recorte de gênero e sexualidade, a técnica de enfermagem ressalta que mulheres brancas ainda são as mais ouvidas. “Antes de sexualidade vem raça sempre! Ainda vão dar mais voz para mulheres brancas falarem as coisas porque traz amenidades, quando se juntam as mesmas pautas ao racismo se torna difícil de ouvir e até entender que criadoras negras na internet existem e merecem mais destaque e voz”, conclui.

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