“Um sorriso negro, Cidade Negra, Negro Drama, Negra Li”, 10 motivos pelos quais a palavra negro foi revolucionária

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NegraLi e Cidade Negra - Crédito: Reprodução Instagram

O cabelo crespo uma vez foi odiado pelas próprias pessoas negras. Essa repulsa ao natural foi construída pela régua eurocêntrica de beleza . Sobretudo nos anos 2000, os cabelos cacheados e crespos se tornaram os mais buscados na Internet e praticamente sustentam o mercado de produtos capilares. Como isso acontece?

A mudança veio a partir do “Black is Beautiful” , movimento do ativismo afro-americano nos anos 60 e 70, onde a própria comunidade negra resolveu abraçar o que foi odiado, trazendo acolhimento a um tipo de beleza demonizada por pessoas brancas. O nosso cabelo natural sempre foi crespo, mas hoje ele tem um novo significado fruto de reflexões das vítimas de racismo.

O mesmo acontece com a palavra negro que “a Internet” decidiu cancelar por conta de um vídeo do ator Babu, que faz todo sentido, tem alguns dados reais, mas ignora aspectos brasileiros do ponto de vista semântico. A real é que é possível usar os dois termos. Tá tudo bem.

Se vier gente de fora tentando te ensinar a como falar de si mesmo, escute com educação, mas não ignore a jornada que seu povo atravessou no Brasil. A gente não tem tempo para lidar com opressão linguistica importada.

O que esse texto aqui pretende é mostrar que a palavra negro tem um valor revolucionário para uma geração de afro-brasileiros que, até então, se definiam como morenos, entre outras dezenas de nome, por medo ou vergonha da sua origem africana.

Prova disso são os 10 motivos que destaco abaixo:

1) Site Mundo Negro

Sim vamos dar biscoito para gente. O site Mundo Negro foi o primeiro de portal de notícias brasileiro criado para comunidade negra nascido no final dos anos 90, mas que deslanchou no começo dos anos 2000. Antes de Redes Sociais, influenciadores negros, arrobas e hashtags, a gente estava aqui sustentando o termo negro que era quase ofensivo até mesmo entre os nosso na época. Fomos ameaçados de morte, hackeados, derrubados, mas estamos firmes e fortes sendo a única mídia preta com selo de verificação nas principais redes sociais e o principal: mudando a vida dos nossos por meio das notícias que pautam até a grande mídia.

2) Teatro Experimental do Negro

Grupo fundado por Abdias Nascimento com participação de Ruth de Souza e outros atores negros que sem esse projeto, a gente provavelmente não os conheceria.

Nascido em 1944, no Rio de Janeiro, o TEN tinha a proposta de valorização social do negro e da cultura afro-brasileira por meio da educação e arte, criando um novo estilo de dramaturgia, com uma estética própria, não uma mera recriação do que se produzia em outros países.

3) Movimento Negro Unificado

Se a vida de ativista negro já está difícil com esse atual presidente, imagine o que significou criar, do zero, um grupo negro com enfoque político durante a ditadura militar. O Movimento Negro Unificado (MNU) foi pioneiro na luta do Povo Negro no Brasil. Ele foi fundado em 18 de junho de 1978 e foi lançado publicamente no dia 7 de julho (do mesmo ano) em evento nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo em pleno regime militar.

4) NegraLi

Um dos principais nomes do Rap Nacional. Consenso pelo talento, mas também pela postura de uma mulher que se ascendeu financeiramente, mas não esqueceu de onde veio. Suas músicas falam da quebrada, do ser mulher, sempre trazendo poesia a cinzenta vida de quem mora na periferia. NegraLi representa a mulher negra brasileira contemporânea e consciente.

5) Um Sorriso Negro

Esse é um hino que mostra que a felicidade negra é a resistência. “Negro é a raiz da liberdade”, trecho imortalizado pela voz de Ivone Lara ( autoria Adilson Barbado, Jair de Carvalho e Jorge Portela ) deixa o nosso coração sempre quentinho.

6) Negro Drama

O grupo de Rap mais famoso do Brasil usa em suas letras o termo negro e preto. E se eles fazem isso a gente também pode, né?

Negro Drama é uma das músicas mais famosas do Racionais MC’s e mudar para Preto Drama além de não ter necessidade, não mudaria nada no sentido da letra.

7) Camiseta 100% Negro e o “Preto é cor, negro é raça “

Quem foi adolescente ou estava na casa dos 20 anos, nos anos 90 sabe do auê que foi quando as camisetas 100% negro viraram tendência na comunidade negra. Havia ainda o slogan ‘Preto é cor, negro é raça”, mostrando um momento singular da identidade negra brasileira. A branquitude se revoltou, inclusive, fazendo camisetas para desmerecer o nosso amor próprio.

8) Cidade Negra

O maior grupo de reggae brasileiro, com muitas músicas exaltando o amor e a negritude. O Cidade Negra foi a minha primeira referência brasileira de dreads e mostram o lado poético de grupos compostos por homens, fora do cenário do samba e rap.

 

9) Grupo Raça Negra

O pagode salvou a saúde mental de muitos jovens negros dos anos 90 e começo dos 2000. Os grupos falavam da nossa realidade por meio de canções de amor, os músicos negros de origem periférica ganham espaços grandes em importantes programas de televisão. Se chamar Raça Negra naquela época foi algo muito corajoso e que deu certo.

10) “A carne mais barata do mercado é a carne negra”

Vai ter coragem de dizer que Elza Soares tem a mente colonizada ao usar o termo negro? Essa música tem uma das letras que mais representa a realidade negro-genocida do Brasil. A carne negra, a pele negra, os corpos negros, são a base da pirâmide econômica, mas estão no topo de todas as estatísticas que mensuram homicídio e violência.

 

As falas do Babu sobre questões raciais são bem importantes, mas a gente precisa entender o contexto das coisas. Somos plurais e brasileiros. Esse é o ponto de partida para essa discussão.

Quer mais embasamento teórico para essa discussão, leia o artigo do nosso colunista Ale Santos.

 

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