Por Caroline Araujo Amorim
A ciência do exercício mostra que grupo de verdade sustenta a prática melhor do que aula de academia. Os coletivos negros já sabiam disso sem precisar de metanálise.
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A pergunta que eu mais escuto de quem quer começar a treinar em grupo é se pode ir sozinha. Vem quase sempre meio sem jeito, como quem pede licença: “eu vou sozinha mesmo, tudo bem?”
Tudo bem, e a minha resposta é sempre a mesma. Ir sozinha não é a mesma coisa que ficar sozinha depois que chega, e essa distância entre uma coisa e outra é justamente o que muda quando o coletivo foi pensado para a população negra. A pessoa atravessa a porta sem conhecer ninguém e, no fim do treino, já tem gente sabendo o nome dela e perguntando se ela volta na semana seguinte.
Algumas me contaram depois, quando já estavam à vontade, que tinham tentado academia antes e não conseguiram continuar. Os motivos que aparecem nessas conversas costumam ser bem concretos: mensalidade que pesa no orçamento, horário que não cabe na jornada, o trajeto de volta para casa no escuro, a sensação de estar num lugar onde não conhece ninguém e onde o corpo anunciado na parede não se parece com o seu. Nada disso é falta de disciplina, é a soma de coisas que tornam a permanência mais cara para umas pessoas do que para outras.
Eu venho defendendo há tempos que treino de força não é luxo estético, e sim construção de autonomia para os próximos trinta anos. Só que descobrir isso não resolve nada se a pessoa não conseguir permanecer, e é aí que essa conversa precisa mudar de lugar. O nosso problema com o exercício raramente é começar. É continuar.
A ciência do exercício tem uma resposta para isso, e ela é mais interessante do que parece. Uma metanálise clássica da área, feita por Burke e colegas, reuniu 44 estudos com mais de 4.500 participantes para comparar contextos de prática, e o resultado não foi simplesmente que em grupo é melhor do que sozinho. Foi mais fino: exercitar-se num grupo de verdade foi superior a fazer aula estruturada de academia, e a aula estruturada não se diferenciou de treinar em casa com algum contato. A adesão foi o desfecho mais beneficiado de todos.
A diferença está aí, nesse detalhe. Estar numa sala com trinta pessoas não é a mesma coisa que pertencer a um grupo, e uma aula em que as pessoas mal se conhecem tende a não entregar esse efeito. O que entrega é coesão, vínculo, gente que percebe quando você falta. A literatura da minha área chegou, por caminho técnico, numa coisa que a população negra pratica neste país há mais de quatrocentos anos.
O quilombo nunca foi só esconderijo. Em 1985, num texto publicado na revista Afrodiáspora, a historiadora Beatriz Nascimento fez um movimento que mudou o jeito de olhar para o tema: ela mostrou como o quilombo deixa de ser apenas uma instituição do período colonial e vira princípio ideológico, uma forma de resistência cultural que reaparece ao longo do século XX sempre que pessoas negras se organizam para construir junto o que não recebem separadas. Ela seguiu esse fio no documentário Ôrí, de 1989, dirigido por Raquel Gerber, em que narra e assina o roteiro, e onde trabalha também a ideia de corpo como território para quem teve a terra tirada. Alguns anos antes, em 1980, Abdias Nascimento já havia proposto o quilombismo como projeto político, e não como lembrança de museu.
Aquilombar-se, nessa leitura, é reunir-se para existir com mais folga do que se existiria sozinho. E é exatamente o que os coletivos negros de atividade física estão fazendo hoje.
E não sou eu quem está inventando essa ponte entre quilombo e saúde. Pesquisadoras e pesquisadores ligados à Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz publicaram, em 2023, uma revisão sobre o aquilombamento como ferramenta de resistência e de promoção de saúde da população negra. Eles partem do quilombismo de Abdias Nascimento e da leitura de Beatriz Nascimento para descrever o aquilombamento como um movimento que resgata saberes ancestrais, coletiviza dores e enfrenta o racismo estrutural, que a própria revisão trata como o principal determinante social de saúde da população negra. A conclusão vai além do que se costuma imaginar: além do aquilombamento que as pessoas negras já praticam como modo de vida, é preciso aquilombar também os currículos, as epistemologias científicas, os espaços e as políticas de atendimento à saúde.
Se dá para aquilombar um currículo e um serviço de saúde, dá para aquilombar um treino.
O Hip Hop Workout Collective nasceu em 2025, criado por mim, pela Juliana Oliveira e pela Juliane Daianny. Começou com uma caixa de som e um sonho, numa salinha pequena, e foi virando espaço de acolhimento para mulheres negras e para pessoas LGBTQIAPN+. Não montamos aquilo lendo metanálise, montamos porque fazia falta.
Preciso ser honesta sobre o tamanho da evidência que estou usando. A metanálise que citei é de 2006, junta estudos bem diferentes entre si, e os próprios autores reconhecem essa limitação. Ela mostra adesão maior em grupos coesos, o que não é a mesma coisa que provar que qualquer coletivo funciona melhor que qualquer outro formato e, até onde eu sei, ninguém testou em ensaio clínico coletivos negros brasileiros. O que existe é convergência entre o achado da adesão, o que a gente observa na prática e o que a pesquisa qualitativa vem descrevendo.
Preciso abrir aqui um parêntese sobre as mulheres, porque tem uma camada que só aparece quando a gente separa. Uma revisão sistemática recente do Howard e do Bartholomew, publicada na PLOS Global Public Health, sintetizou dezoito estudos sobre barreiras e facilitadores à atividade física especificamente entre mulheres negras. É uma pesquisa americana, com pouco mais de 400 mulheres, e por isso não dá para transportar ao Brasil sem cuidado, mas os temas que aparecem são reconhecíveis demais para nós ignorarmos: motivação, suporte estruturado, saúde geral, ambiente, ideal de corpo e cabelo.
Numa revisão científica internacional, o cabelo aparece como barreira concreta à prática de exercício entre mulheres negras, porque o tempo e o dinheiro investidos nele são muito maiores do que os de outros grupos de mulheres. Suar significa refazer, e refazer custa hora e custa salário. Isso não é vaidade, é economia doméstica, e é o tipo de barreira que nenhum treino individualizado resolve, mas que um grupo de mulheres negras desata em cinco minutos de conversa, trocando o que funciona e normalizando chegar de trança, de turbante, de cabelo preso, do jeito que der. Por isso eu insisto que coletivo não é enfeite do treino, é parte do método.
Lélia Gonzalez escreveu, ainda nos anos 1980, sobre os lugares muito específicos que a cultura brasileira construiu para o corpo negro: o corpo que serve, que trabalha, que é consumido em determinadas datas do ano, sempre em função de outra pessoa. Quando a gente se reúne para treinar, o que está em disputa é justamente isso, o corpo negro deixando de ser instrumento e virando destinatário do próprio cuidado. E tem bell hooks, que em 1993 escreveu Irmãs do inhame, publicado no Brasil só em 2023. O detalhe que quase ninguém conta é que o livro não saiu da cabeça dela sozinha: nasceu de um grupo de apoio de mulheres negras que se reunia de fato e que dava nome à obra. O inhame do título vem de Toni Cade Bambara e carrega a ideia de sustentação da vida e de conexão diaspórica. Ou seja, o livro mais conhecido sobre autorrecuperação de mulheres negras foi ele próprio produzido dentro de um coletivo. Ela estava falando de saúde mental e de cura, não de agachamento, mas o princípio atravessa, já que é muito difícil se cuidar sozinho num mundo organizado para que você cuide de todo mundo menos de você.
Quando alguém me pergunta por que investir em coletivo em vez de simplesmente dar mais treino individual de graça, minha resposta é técnica antes de ser política. Adesão é o que determina resultado, e um treino excelente que a pessoa abandona em três semanas entrega menos do que um treino simples que ela mantém por três anos. O que segura alguém treinando não é a periodização perfeita, é ter gente esperando por ela.
Se você é negro e já desistiu de treinar mais de uma vez, eu queria que você considerasse a possibilidade de que o problema nunca foi você, e sim que você tentou sozinho uma coisa que funciona melhor acompanhado. Procura um coletivo em que você se reconheça, onde as pessoas se pareçam com você e a sua presença não precise ser justificada. Existem mais do que a gente imagina, e vale perguntar, pesquisar, ir uma vez só para sentir. E se não houver nenhum por perto, chama alguém para treinar com você, porque duas pessoas com dia marcado já mudam bastante a chance de continuar. Nós aprendemos há séculos que sozinho ninguém aguenta muito tempo, e isso nunca foi discurso bonito, foi estratégia de sobrevivência. Continua sendo, inclusive no treino.
Caroline Araujo Amorim é formada em Educação Física há oito anos, com pós graduação em ortopedia e reabilitação pelo Hospital Albert Einstein. Atleta de powerlifting, é cofundadora do Hip Hop Workout Collective e criadora do aplicativo APPCAH. Instagram: @carolinepersonall
Referências
BURKE, S. M.; CARRON, A. V.; EYS, M. A.; NTOUMANIS, N.; ESTABROOKS, P. A. Group versus individual approach? A meta-analysis of the effectiveness of interventions to promote physical activity. Sport and Exercise Psychology Review, v. 2, n. 1, p. 19-35, 2006.
HOWARD, S. L.; BARTHOLOMEW, J. B. Barriers and facilitators to physical activity among Black women: a qualitative systematic review and thematic synthesis. PLOS Global Public Health, v. 4, n. 12, e0003202, 2024. DOI: 10.1371/journal.pgph.0003202
MIRANDA, A. A. M. et al. Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, v. 23, art. 64, 2026. DOI: 10.1186/s12966-026-01900-5
RIMOLI, T. M.; SANTOS, A. P. M. B.; PIRES, L. J. A.; MENDES, E. C. Aquilombamento como ferramenta de resistência e promoção de saúde da população negra. Revista de Saúde Coletiva da UEFS, v. 13, n. 2, e9284, 2023. DOI: 10.13102/rscdauefs.v13i2.9284
NASCIMENTO, Maria Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. Afrodiáspora: Revista do Mundo Negro, Rio de Janeiro: IPEAFRO, n. 6-7, p. 41-49, 1985.
ÔRÍ. Direção: Raquel Gerber. Roteiro e narração: Beatriz Nascimento. Brasil, 1989. Documentário, 131 min.
NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: documentos de uma militância pan africanista. Petrópolis: Vozes, 1980.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado da (Org.). Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1984. (Ciências Sociais Hoje, 2), p. 223-244.
HOOKS, bell. Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação. Tradução de floresta. Prefácio de Ynaê Lopes dos Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2023. [Original: Sisters of the Yam: Black Women and Self-Recovery. Boston: South End Press, 1993.]u
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