Mundo Negro

Stonewall: o movimento que deu origem ao dia do orgulho LGBTQIA+

Foto: reprodução/Barbara Alper

Entenda o que foi o levante de Stonewall em 1969, o papel central da comunidade negra e trans e por que essa história é a origem do Dia do Orgulho LGBTQIA+.

Antes da madrugada de 28 de junho de 1969, a vida de pessoas LGBT em Nova York era governada por um sistema de leis e práticas policiais que criminalizavam sua presença em praticamente todo espaço público. Em 49 dos 50 estados americanos, atos homossexuais eram ilegais. Em Nova York, a própria existência de um estabelecimento que servisse bebida a pessoas declaradamente homossexuais infringia as normas do State Liquor Authority. Com base nessa legislação, bares e boates frequentados por pessoas LGBT operavam de forma precária, geralmente controlados pela máfia, que pagava propinas a policiais corruptos e mantinha os frequentadores em uma espécie de chantagem silenciosa. O Stonewall Inn, localizado na Christopher Street, no bairro de Greenwich Village, era um desses lugares.

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O bar aceitava qualquer pessoa que a sociedade rejeitava: jovens negros e latinos sem teto, drag queens, mulheres trans, homens gays pobres. Era um dos poucos bares da cidade que permitia dançar e que não exigia que os frequentadores provassem identidade ou demonstrassem ser heterossexuais. De acordo com registros da Biblioteca do Congresso americano, o Stonewall era invadido pela polícia em média uma vez por mês na época. As batidas seguiam um padrão: policiais entravam, revistavam as pessoas, prendiam aquelas que violavam leis que proibiam o uso de roupas do gênero oposto e levavam os funcionários. Os donos eram avisados com antecedência e praticamente não sofriam consequências financeiras. Os frequentadores, não.

A madrugada de 28 de junho

Na madrugada de sexta-feira para sábado, 28 de junho de 1969, oito policiais à paisana entraram no Stonewall pouco após a meia-noite. A operação havia sido planejada para fechar definitivamente o bar, cinco dias depois de uma batida anterior que confiscou estoque de bebidas e prendeu funcionários. Naquela noite, o bar estava lotado. Os policiais começaram a verificar identidades, a prender funcionários e a separar as pessoas travestidas para detenção. Enquanto isso, quem foi liberado não se dispersou. Ficou do lado de fora. A multidão foi crescendo.

O que aconteceu a seguir é documentado por relatos de testemunhas, reportagens publicadas ainda em julho de 1969 no Village Voice e no New York Daily News, e pelos registros policiais tornados públicos em 2009 pelo portal OutHistory a partir de documentos obtidos via Lei de Liberdade de Informação. As versões divergem em detalhes, mas convergem no essencial: a multidão resistiu. Garrafas foram atiradas. Uma viatura foi danificada. Os policiais recuaram para dentro do bar e foram sitiados por horas. A resistência durou seis dias, com confrontos noturnos que se espalharam pelas ruas ao redor de Christopher Street e Christopher Park.

Foto: stonewallcdc.org

O historiador David Carter, autor de Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution, identificou o que chamou de hierarquia da resistência naquela noite: quem tinha menos a perder reagiu primeiro. Eram os jovens de rua, os sem-teto, as drag queens negras e latinas que a política gay posterior tentaria apagar da narrativa.

Marsha P. Johnson nasceu em 24 de agosto de 1945, em Elizabeth, Nova Jersey, quinta de sete filhos de uma família negra e trabalhadora. Desde pequena usava roupas femininas, algo que a família reprimia. Aos 17 anos, chegou a Manhattan com 15 dólares e uma bolsa de roupas. Nas ruas de Greenwich Village, construiu uma identidade que ela própria descreveu como a de uma drag queen, uma transvestite e uma pessoa gay, usando os pronomes she/her. O termo transgender ainda não estava em uso comum naquela época. Nas décadas seguintes, historiadores e ativistas passaram a reconhecê-la como mulher trans. Era figura conhecida na comunidade LGBT de Nova York, frequentadora do Stonewall, reconhecível pelos penteados floridos e pelo estilo extravagante que ela mesma criava com achados de brechó.

Foto:Reprodução/Netflix)

Sobre sua participação na madrugada de 28 de junho, Johnson disse em uma entrevista de 1987 ao historiador Eric Marcus que havia chegado ao Stonewall por volta das 2 da manhã, quando a resistência já estava em curso. Relatos de outros presentes, coletados por Carter, descrevem Johnson atirando um copo de shot contra um espelho enquanto gritava que queria seus direitos civis. O próprio Carter observou inconsistências nos registros e especulou que parte da narrativa pode ter sido censurada por ativistas que temiam que creditar uma mulher trans negra como protagonista dos acontecimentos prejudicasse o movimento. Carter a identificou como quase indiscutivelmente entre os primeiros a reagir com violência naquela noite e possivelmente a primeira.

Foto: stonewallcdc.org

Nascida em 2 de julho de 1951 no Bronx, Sylvia Rivera era filha de pai porto-riquenho e mãe venezuelana. Ficou órfã de mãe aos três anos, foi criada pela avó e fugiu de casa aos 11, encontrando abrigo entre drag queens nas ruas do centro de Nova York. Com 17 anos, em junho de 1969, estava nas imediações do Stonewall quando a resistência começou. Rivera afirmou ter jogado o segundo coquetel molotov da noite. Seu papel exato, como o de Johnson, permanece disputado pelos historiadores, com alguns relatos indicando que ela talvez não estivesse presente no início dos confrontos. O que não é disputado é que ambas estiveram na linha de frente nos dias que se seguiram, nas assembleias, nos protestos e nas organizações que surgiram a partir de Stonewall.

Rivera foi vaiada ao tentar discursar no Christopher Street Liberation Day Rally de 1973, o quarto aniversário do levante. Ela tomou o microfone de qualquer forma e gritou à multidão: “Se não fossem as drag queens, não haveria movimento de libertação gay. Nós somos as primeiras da linha.” A Smithsonian Institution registrou o episódio como símbolo da contradição do movimento: as pessoas que mais arriscaram foram as primeiras a ser excluídas das suas conquistas. Rivera morreu de câncer em 19 de fevereiro de 2002, aos 50 anos. Em 2015, um retrato seu foi adicionado à National Portrait Gallery do Smithsonian, tornando-a a primeira ativista trans a integrar o acervo.

Foto: reprodução

Miss Major Griffin-Gracy, nascida em 25 de outubro de 1946 em Chicago, era outra presença regular no Stonewall. Mulher trans negra, estava dentro do bar na noite da batida e descreveu em entrevistas posteriores como aquela noite foi diferente das anteriores: pela primeira vez, as pessoas decidiram não ir embora. Em uma reportagem de 2014 ao Bay Area Reporter, ela disse que o Stonewall proporcionava às mulheres trans um dos poucos espaços de conexão social disponíveis, já que a maioria dos bares gays não as admitia. Durante a resistência, um policial quebrou sua mandíbula. Ela foi presa e, depois de Stonewall, cumpriu pena de cinco anos decorrente de outra prisão.

Ao longo de décadas, Griffin-Gracy trabalhou como diretora executiva do Transgender Gender Variant Intersex Justice Project, em San Francisco, com foco em mulheres trans negras e não binárias encarceradas. Ela recusou consistentemente a romantização de Stonewall: “As pessoas colocam tanto em ver o Stonewall como símbolo… Estávamos lutando por nossas vidas. Ainda nos estão matando; ainda não nos estão dando o respeito que merecemos por aguentar tudo isso esses anos todos”, disse em seu livro de memórias, publicado em 2023. Griffin-Gracy morreu em 13 de outubro de 2025, aos 78 anos, em Little Rock, Arkansas.

Em 1970, Johnson e Rivera fundaram o Street Transvestite Action Revolutionaries, o STAR, com sede no Greenwich Village. A primeira STAR House funcionou no interior de um caminhão abandonado. Era o primeiro abrigo LGBT para jovens nas ruas da América do Norte e a primeira organização do gênero liderada por mulheres trans de cor. Usando o dinheiro que ganhavam com performances drag e trabalho sexual, Johnson e Rivera alimentavam, vestiam e abrigavam os jovens que acolhiam. Rivera descreveu em uma entrevista ao National Portrait Gallery como as duas sustentavam o espaço enquanto eram elas mesmas vulneráveis: “Marsha e eu decidimos que era hora de nos ajudar mutuamente e ajudar nossos filhos. Alimentamos pessoas, vestimos pessoas. Mantivemos o prédio funcionando. Saímos e trabalhamos nas ruas. Pagamos o aluguel.” A STAR House fechou em 1971, mas o modelo inspirou iniciativas posteriores.

A primeira marcha e o nascimento do Orgulho

Em 28 de junho de 1970, um ano exato depois do início da resistência no Stonewall, Nova York realizou sua primeira marcha. Chamada de Christopher Street Liberation Day, ela percorreu as ruas de Greenwich Village até Central Park e foi organizada pelo Christopher Street Liberation Day Committee. Simultâneas a essa marcha, aconteceram manifestações em Los Angeles e Chicago. Era o nascimento do que se tornaria o Mês do Orgulho, celebrado hoje em junho em todo o mundo. No ano seguinte, marchas aconteceram em Boston, Dallas, Milwaukee, Londres, Paris, Berlim Ocidental e Estocolmo.

A narrativa dominante sobre Stonewall tendeu, ao longo das décadas seguintes, a apagar as pessoas que mais arriscaram naquela madrugada. Mulheres trans negras e latinas, jovens sem teto, trabalhadores sexuais: eram eles que não tinham identidade para esconder, que não tinham emprego ou reputação a proteger, que reagiram primeiro justamente porque já viviam sob o peso mais pesado da perseguição. A Biblioteca do Congresso americano observa, em seu guia de recursos históricos sobre o levante, que Stonewall representou uma ruptura principalmente para pessoas brancas e cisgênero, porque pessoas negras e de gênero não-conforme nunca tiveram o privilégio de esconder suas identidades marginalizadas.

Marsha P. Johnson foi encontrada morta no Rio Hudson em 6 de julho de 1992, aos 46 anos. A morte foi inicialmente registrada como suicídio por afogamento. Em 2012, após pressão de ativistas, a investigação foi reaberta como homicídio. Permanece sem solução. Em 2020, o estado de Nova York renomeou o East River State Park como Marsha P. Johnson State Park, o primeiro parque estadual do estado a receber o nome de uma pessoa abertamente LGBT. O Stonewall Inn foi declarado monumento nacional pelos Estados Unidos em 2016, durante o governo Barack Obama, tornando-se o primeiro monumento nacional americano dedicado à história e à luta LGBT.

Fontes: Biblioteca do Congresso americano (LGBTQIA+ Studies Resource Guide); National Women’s History Museum; Smithsonian Institution; Encyclopaedia Britannica; History.com; National Geographic; David Carter, Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution; Marc Stein, The Stonewall Riots: A Documentary History (NYU Press, 2019); OutHistory.org; National Portrait Gallery, Smithsonian Institution; The 19th News; Wikipedia (versões em inglês com referências acadêmicas verificadas).

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