Stefan aposta na leveza e na alegria para falar de transmasculinidade negra: “o bem-viver é urgente”

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Stefan aposta na leveza e na alegria para falar de transmasculinidade negra: “o bem-viver é urgente”
Foto: Reprodução/Instagram

Afeto, celebração e cultura são como ferramentas de sobrevivência. É com essa fórmula que o criador de conteúdo Stefan Costa subverte a lógica da mídia tradicional para construir uma comunidade digital baseada com acolhimento mútuo. “Eu queria levar essa leveza e tranquilidade, porque a gente já é muito marcado com trauma, violência e escassez. Isso fica evidente na mídia, sempre tratando pessoas trans com um ponto negativo”, destacou o influenciador em entrevista à editora-chefe do Mundo Negro, Silvia Nascimento, no Mês do Orgulho.

Stefan reflete sobre a urgência de pautar a transição sob a ótica do afeto e da saúde mental. Para ele, o autocuidado é político: “A transição mexe muito com a nossa cabeça, com o nosso corpo, principalmente para quem faz uso de hormônios. Eu costumo dizer que o meu corpo é o meu templo, a minha casa, o meu lar. E a minha casa precisa estar bem arrumada e bem cuidada para que eu consiga ser uma pessoa trans feliz e saudável”, pontua.

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Mesmo sendo uma referência nas redes sociais, o creator traz à tona o recuo das marcas na pauta da diversidade e alerta outros transmasculinos negros que trabalham ou desejam trabalhar no ambiente digital. “Diversificar a renda é o que me permite continuar criando conteúdo de verdade, sem pirar a cabeça e sem deixar minha dignidade nas mãos de um mercado que funciona por conveniência.”

Foto: Reprodução/Instagram

Leia a entrevista completa abaixo:

1 – Você é um homem homem negro trans e a impressão que dá visitando seu perfil é que você tem uma grande leveza e alegria para lidar com os temas da sua rotina. Esse é um reflexo da sua personalidade ou é algo estratégico para lidar com pautas que nossa sociedade ainda vê de forma preconceituosa? O bem-viver é algo debatido na comunidade trans masculina?

A leveza dos meus conteúdos vem muito desde que eu comecei a criar. Eu queria levar literalmente essa leveza e tranquilidade, porque a gente já é muito marcado com trauma, violência e escassez, isso fica evidente na mídia, sempre tratando pessoas trans com um ponto negativo. Pensei: não é possível que a gente só tenha coisa negativa para apresentar. Comecei a criar conteúdos muito por essa necessidade, pela falta de ter pessoas trans negras, principalmente homens, e também para falar no sentido positivo: de que a gente tem afeto, celebração e outras expectativas para além da dor.

Sobre o bem-viver, é uma pergunta urgente e central. Muitas vezes o processo de transição empurra a gente para uma masculinidade um pouco mais rígida, performática e isolada. O bem-viver entra justamente para reivindicar esses direitos. Eu sou lido como homem, mas tenho direito à vulnerabilidade, à saúde mental, a uma construção de redes de afeto que me permitam existir, e não só sobreviver às barreiras sociais que são impostas às pessoas trans. Na comunidade transmasculina, o bem-viver vem no sentido de que queremos ser vistos e ouvidos como pessoas humanas, que precisam ter um descanso e que têm vulnerabilidades para além dos nossos corpos. Olham muito para o corpo da pessoa trans e não para o ser em si.

Foto: Reprodução/Instagram

2 – Você tem uma comunidade de homens trans muito engajada. Quem produz conteúdo ensina, mas também aprende. Consegue citar coisas que te marcaram nessa troca com sua audiência?

A minha comunidade tem muita proximidade e é muito engajada justamente porque eu mostro minhas fragilidades. Quando você mostra a sua fragilidade na internet, onde está todo mundo performando muito, fingindo estar bem o tempo todo. No caso de pessoas trans, parece que estão sempre tomando as melhores testosteronas e tendo as melhores barbas. Quando mostro que estou sofrendo com algo e pergunto se já aconteceu com eles, vem uma enxurrada de gente dizendo: ‘caraca, está acontecendo comigo também’ ou ‘eu resolvi assim’. Essa humanização dos nossos corpos traz a diferença. Eu me exponho pra eles e eles pra mim. É uma partilha e uma confiança louvável que depositam em mim, porque sou só um cara que liga o celular e fala sobre suas fragilidades e alegrias.

O que eu aprendi e vou levar para a vida toda é a existência de imaginar a masculinidade de forma plural. Aquela masculinidade rígida e performática se quebra com esse contato. Eu olho para vários meninos trans que me seguem e vejo que existem múltiplas maneiras de ser homem, não apenas uma. A transmasculinidade te leva a isso: não existe uma maneira certa, você pode ser homem do jeito que quiser. Eu sou esse homem formado pela internet, que descobriu coisas com os meus seguidores. Essa troca é super justa e válida também.

Foto: Reprodução/Instagram

3 – Em um dos seus reels você cita coisas nas rotinas que só homens trans conseguem reconhecer e o uso do banheiro é uma delas. Em espaços públicos essa questão gera muitos debates. Como lidar com isso sabendo dos seus direitos, mas também entendendo a sociedade que a gente vive?

Ir ao banheiro é das coisas mais básicas que existem, mas para nós, homens trans, se transforma em algo sufocante. A gente precisa de estratégia toda vez que sai de casa. Isso afeta o nosso corpo; há muitos relatos de homens trans que têm infecção urinária por segurar o xixi por medo e pânico do banheiro de rua. Esse medo adoece física e mentalmente. Recentemente, teve um “zumzumzum” na internet de uma mulher trans dizendo que homens trans não estão lutando para ir ao banheiro porque eles não precisam, porque pra eles é muito fácil, o que mostra a falta de conhecimento da nossa realidade. Não é fácil!

Os hormônios masculinos são caros, muitos não têm acesso ou não querem usar, e nem todo mundo chega na ‘passabilidade’ de ter uma barba, como eu tenho, ou um corpo lido como socialmente masculino. Para ir ao banheiro e se sentir minimamente seguro, infelizmente a ‘passabilidade’ acaba sendo necessária, mas ela não é garantia de segurança total 100%, inclusive mental. Você ainda fica refém da estrutura. Quando um lugar tem banheiro masculino, não significa que está apto para eu usar. A gente precisa analisar: tem mictório ou só cabine? Se tem cabine, tem tranca? Ela fecha direito ou tem aquela fresta de 5 cm onde quem está fora consegue ver? Isso pode ser perigoso ou não. A gente nunca sabe quem vai entrar; a pessoa pode não se importar, ou pode te agredir ali dentro. Isso acontece, já aconteceu. 

Tudo vira uma logística para sair de casa. Se vou a um lugar que não conheço, preciso me controlar. Pedir pra um amigo ir comigo fazer uma certa segurança. Várias vezes em shoppings eu me controlei para não ingerir líquidos porque não me sinto seguro para usar o banheiro lá. Já fui expulso de banheiro no início da minha transição por não aparentar ser masculino o suficiente, e também já fui expulso do feminino por não aparentar ser feminino o suficiente. Aí você se pergunta: que banheiro eu uso? E não estou falando que seria necessário um terceiro banheiro; para mim, um terceiro banheiro é sinônimo de exclusão, não de inclusão.

O que me impressiona é que entra ano e sai ano — já estamos em 2026 — e ainda estamos discutindo banheiro. É tão absurdo precisarmos que o STF garanta esse direito. É algo tão corriqueiro que nem deveria ser pauta, enquanto deveríamos estar dando atenção à saúde, ao acesso livre ao SUS e a garantir emprego formal ou informal para pessoas trans. O preconceito é tão enraizado que o Judiciário precisa intervir, e mesmo assim não garante total solução. Eu queria estar discutindo a saúde mental dos meus irmãos trans, e não se posso fazer xixi em uma cabine que só tem um vaso. A sociedade surtou com a discussão de banheiros unissex, sendo que todo mundo tem um banheiro unissex em casa. Banheiro tem muitas camadas que adoecem a gente.

Foto: Reprodução/Instagram

4 – Você também cita o SUS quando fala do seu processo transexualizador. Pode explicar para gente como funciona o tratamento por lá pensando em homens que queiram recorrer por não poderem arcar com um tratamento particular?

O processo transexualizador do SUS é uma conquista enorme e inegável, mas eu tenho críticas à eficiência do processo. Fazer a transição por clínicas particulares é extremamente caro. Uma consulta não sai por menos de R$ 400 ou R$ 500, fora o retorno, as receitas e os exames de sangue regulares para monitorar as taxas. A maioria esmagadora transmasculinas não consegue arcar com isso. Por outro lado, a minha crítica sobre a velocidade. É inadmissível que eu tenha ficado dois anos na fila de espera só para conseguir a primeira consulta.

Na prática, aqui no Rio de Janeiro, o caminho começa pela Clínica da Família ou pela Secretaria de Saúde do município. No meu caso, faço parte do Projeto Arco-Íris dentro da Clínica da Família, que dá um suporte básico de clínica geral. Quando decidi entrar no processo transexualizador, eles me inseriram no sistema de regulação (SISREG). Fui encaminhado para o IED (Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia), no centro do Rio, onde tem o AMIG (Ambulatório Multidisciplinar de Identidade de Gênero).

Lá, você passa primeiro pelo serviço social e tem acesso a uma equipe multidisciplinar completa: ginecologista, psiquiatra, psicólogo, assistente social, endocrinologista e fonoaudiólogo. Isso é perfeito e essencial. E eu faço muita questão de destacar, que o acompanhamento é fundamental inclusive para os homens trans que não querem tomar testosterona. Ser trans envolve muitas coisas; você ainda precisa ir ao ginecologista, cuidar da saúde mental e, quem sabe, fazer fonoaudiologia para a voz, mesmo não usando testosterona. 

Para os meninos que querem a terapia hormonal, precisamos tirar a ideia da cabeça de que é só ir lá e aplicar a testosterona e acabou. A transição precisa ser saudável. Eu costumo dizer que meu corpo é meu templo, minha casa, meu lar. E a minha casa precisa estar bem cuidada e arrumada para eu conseguir ser uma pessoa trans feliz e saudável. Se quero continuar aplicando testosterona daqui a 5 ou 10 anos, preciso de calma, carinho e responsabilidade hoje. Preciso fazer os exames regularmente, passar por todos esses profissionais, por mais que desconfortáveis sejam alguns. A fila do SUS é revoltante, mas é o caminho que garante que eu consiga me olhar no espelho, que minha casa está arrumada e faz eu me sentir bem. 

Foto: Reprodução/Instagram

5 –  Sobre rede de apoio, tão importantes para quem durante a transexualização lida com mudanças hormonais que impactam não só o corpo, mas também a mente. O que você diria para quem não tem o apoio familiar nesse momento?

A ruptura e a falta de aceitação da família de sangue dói demais e nos destrói mentalmente. Mas a mensagem principal que eu gostaria de deixar é que a falta desse apoio não define o seu futuro e nem quem você é. Se a sua família de origem não te dá acolhimento agora, você tem todo o direito do mundo de construir a sua própria família, que são seus amigos e outras redes de apoio que encontrar pelo caminho. É você quem escolhe.

A transição mexe muito com a cabeça e com o corpo, principalmente com os hormônios. Precisamos de pessoas ao lado que nos aconselhem, mas que também peguem no pé quando necessário. É fundamental ter uma rede de pessoas trans que saibam exatamente o que você está passando. Procure coletivos, grupos na internet, amigos de confiança. Crie o seu porto seguro fora de casa. O mundo é grandão e tem muita gente pronta para te acolher, te respeitar, pra te ver. Não deixe uma, duas ou três pessoas dizerem que você não pode ser visto. Você não está sozinho. Meu acesso à internet cresceu justamente por isso: por encontrar e criar uma rede de homens transmasculinos negros para mostrar que a gente tem um ao outro, passa por paradas semelhantes e a gente cria uma família sim. Por mais que pareça, a gente não está sozinho. 

Foto: Reprodução/Instagram

6 – Agora sobre o mercado de creator, assim como para comunidade negra, a comunidade LGBT+ sofreu com esses recuos de diversidade. Como se manter criativo apesar dessas dificuldades? Acha importante o creator ter outras fontes de renda?

A Creative Economy é um mercado cruel. Teve uma época em que todo mundo queria falar de diversidade, mas agora as empresas deram um passo atrás, isso contando que 60% das marcas recuaram nos patrocínios da Parada de SP. Mas na verdade, raramente pessoas trans negras fazem publicidade de forma consistente. Dá para contar nos dedos. E eu comparo sim pessoas trans negras com pessoas trans brancas, porque criadores trans brancos ainda têm muito mais acesso.

Eu sou a prova disso. Sempre fiz publicidade com marcas grandes: Disney, Vivo, Google e YouTube. Mas eu conto no dedo quantos meninos trans negros no Brasil têm essa oportunidade como a minha. Então, não dá para ter a internet como única fonte de renda. Este ano, por exemplo, eu ainda não fiz nenhuma publicidade relevante. Ninguém me procurou. Faz muito tempo que eu não faço uma campanha. Como eu me manteria? Por causa dessa volatilidade, entendi muito cedo que não dava para apostar todas as fichas no mesmo lugar. Sou um homem trans negro tentando pagar aluguel, cuidar dos meus cachorros e colocar comida na mesa. As contas não esperam o algoritmo melhorar ou as marcas lembrarem que existimos.

Por isso, fui para o trabalho formal, que hoje me sustenta e traz uma certa estabilidade. No cenário geral, a situação de pessoas trans no mercado de trabalho ainda é muito assustadora. Os dados mostram que apenas 25% conseguem emprego formal com carteira assinada no Brasil. É muito pouco. Ter outras fontes de renda não é uma escolha, é sobrevivência. Eu dou palestras, fico nos bastidores da comunicação, construindo a minha autonomia. O mercado de creator hoje em dia, também demora meses para pagar. Diversificar a renda é o que me permite continuar criando conteúdo de verdade, sem pirar a cabeça e sem deixar minha dignidade nas mãos de um mercado que funciona por conveniência.

Foto: Reprodução/Instagram

7 –  Como alguém que entende de cultura pop, recomenda para gente livros, filmes ou séries com representatividade transmasculina?

Eu sou uma pessoa muito ‘multi’, estou sempre lendo de tudo um pouco, então vou recomendar três livros:

  • Monstrans: Experimentando Horrormônios (Lino Arruda): É uma história em quadrinhos genial. O Lino usa o terror e o conceito de ‘monstros’ de um jeito muito subversivo para falar sobre transição e hormonoterapia. Tem uma cena marcante em que ele diz que a testosterona é o veneno e o antídoto. Isso me pegou forte, porque dialoga sobre o corpo ser a nossa casa: o hormônio nos transforma, assusta a sociedade que nos olha como monstros, mas é o que nos cura e nos faz bem.
  • O Mar Me Levou Até Você (Pedro Rhuas): Uma indicação bem mais leve e tranquila. É um livro fofinho que foge do caminho da tragédia que estamos acostumados a ver na mídia para pessoas trans. Conta a história de uma pessoa não-binária descobrindo o amor, construindo laços profundos e afeto. Mostra que a nossa vida não precisa ser só desgraça; existem caminhos bons. Te conquista nas primeiras páginas.
  • Transmasculinidades Negras: Narrativas Plurais (Org. Leonardo Peçanha): Uma leitura mais acadêmica e de vivência, organizada por um amigo meu. O livro traz exatamente o que o título diz: a pluralidade de homens trans negros no Brasil através de artigos e relatos que cruzam raça, gênero e classe social. É um livro maravilhoso para entender como essas identidades ocupam o mundo e que faz você ver que não está sozinho.”

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