Setembro Amarelo raramente fala de raça. Mas o sofrimento psíquico da população negra tem causa nomeada, e o cuidado que funciona para nós passa por escuta racializada e aquilombamento
Todo setembro o país se pinta de amarelo e repete que falar é a melhor solução. Mas há uma pergunta que a campanha raramente faz: falar com quem? E sobre o quê, quando a dor tem cor e história?
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Existe um tipo de sofrimento que não cabe no vocabulário padrão da saúde mental. Ele não começa numa perda, num acidente ou num desequilíbrio químico. Começa na rua, no mercado, no trabalho, no olhar atravessado, na bolsa que se aperta quando você passa. E não termina.
Essa é a diferença que a psicologia brasileira demorou a nomear. Um luto se elabora e, em algum momento, a pessoa vive uma nova relação. Um trauma de acidente se trata até que os sintomas cedam e ela volte a dirigir sem crise de ansiedade. Existe prognóstico. Com o racismo, não existe.
Quem formula assim é o psicólogo Lucas Veiga, mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que atende pessoas negras há treze anos. Em entrevista ao Mundo Negro, ele contou que o que há de comum entre pacientes muito diferentes entre si é justamente a repetição. Mesmo pessoas com identidade negra afirmada, fortalecidas, com repertório político, seguem chegando à sessão com um episódio novo.
“Mesmo quando os pacientes conquistam uma identidade afirmada e não submetida à discursividade racista, os episódios de racismo não param de acontecer.”
É por isso que o cuidado em saúde mental para pessoas negras não pode ser pensado como reparo de um evento passado. Ele precisa sustentar alguém que continua sendo exposto.
O corpo como primeira casa
O efeito mais conhecido do racismo sobre a subjetividade é a introjeção do discurso racista. A pessoa negra passa a acreditar que vale menos, que é inferior, que é feia. Frantz Fanon nomeou isso como complexo de inferioridade, ou auto-ódio: o ódio racial que se instala por dentro e faz alguém odiar os próprios traços.
Mas há uma camada mais funda, e é ela que explica por que estamos falando disso em setembro.
“O nosso corpo, que é a nossa primeira casa e o nosso primeiro território, pode ser experimentado como uma ameaça a nós mesmos, porque é exatamente por termos a cor da pele e os traços que temos que sofremos violência. Se a pessoa sofre violência pelo corpo que tem, no limite ela só se livraria disso livrando-se do próprio corpo através da morte.”
Daí, segundo Veiga, o índice considerável de suicídio entre a população negra jovem. Um número que não pode ser lido sem levar em conta o que o racismo faz com a relação de uma pessoa negra com o próprio corpo.
E não adianta apostar que a próxima geração resolve. Uma geração com mais acesso à informação, mais representatividade na mídia e uma relação mais amorosa com os próprios cabelos segue sendo atravessada pela violência racial.
A vida é maior do que o racismo
Aqui está a virada, e ela é o oposto do fatalismo.
Se é impossível o fim imediato do racismo, também é impossível sermos inteiramente capturados por ele. Pessoas negras seguem produzindo modos de vida que esse cenário não previa. Existir plenamente, no meio disso, já é uma criação improvável. E é essa criação que o cuidado precisa proteger.
“Por isso é muito importante sustentar a afirmação de que a vida é maior do que o racismo. Dizer isso é um convite para manter a conexão com a vida e com a ancestralidade, no sentido de que os princípios e tecnologias ancestrais que nos possibilitaram chegar até aqui são os que nos possibilitarão seguir adiante.”
Viver bem, segundo uma ética do bem viver, é descrito pelo psicólogo como nossa principal resposta, e também nossa maior vingança, ao contexto de opressão racial.
Aquilombar é cuidar
A saída não é individual, e é aí que a campanha tradicional erra o alvo. Não basta dizer “procure ajuda” para quem adoece por causa de algo estrutural.
Veiga pensa os quilombos como tecnologia ancestral. Eles foram erguidos no meio da colonização: enquanto a escravização acontecia, africanos em condição escrava criaram, pela fuga, um território existencial livre das engrenagens da opressão colonial. Fundar um espaço onde é possível respirar não é passado. É ferramenta.
No cotidiano, aquilombar é ter um lugar onde não é preciso explicar o racismo antes de falar da própria dor. O terreiro, a roda de amigas, o coletivo no trabalho, o grupo de mulheres negras, a terapia com profissional negro. É rede que sustenta a vida entre uma sessão e outra, e antes de qualquer sessão existir.
Uma clínica que sabe o que é racismo
Esse debate não é novo, ele só demorou a chegar aqui. A Psicologia Preta surgiu nos Estados Unidos no fim dos anos 1960, no calor da luta por direitos civis, e teve larga produção de artigos e livros ao longo dos anos 1970. Enquanto o movimento negro reivindicava direitos, intelectuais negros e negras da saúde mental construíam uma black psychology, depois chamada de African Psychology.
O ponto de partida foi um diagnóstico duro sobre o próprio campo: a psicologia disponível não tinha considerado a especificidade da experiência negra.
“A importação direta de saberes da psicologia ocidental, produzidos por pessoas brancas para pessoas brancas, seria insuficiente para uma escuta e um trabalho clínico qualificado com pessoas negras, por mais que trouxessem alguns insights importantes.”
A Psicologia Preta nasce com dois objetivos. Entender os impactos do racismo na saúde mental da população negra, para pensar a escuta e o cuidado. E, esse é o ponto menos comentado, compreender o que seria uma subjetividade negra saudável, definindo índices de saúde para a nossa população a partir das filosofias e cosmogonias africanas.
Ou seja: não é só medir o adoecimento. É nomear o florescimento. Saber como é uma vida negra que vai bem, e não apenas catalogar o que nos quebra.
O que nos conecta
Homens e mulheres negros são afetados de formas distintas, e orientação sexual, identidade de gênero e classe também atravessam a população negra. Olhar para a especificidade desses marcadores é exercício necessário.
Mas há algo que alcança toda e qualquer pessoa negra, e reconhecer isso tem função política: fortalece a coesão, a articulação e o vínculo enquanto comunidade. É a síntese mais precisa do que este Setembro Amarelo poderia aprender. Cuidado em saúde mental para pessoas negras não se faz no isolamento. Se faz em rede.
As falas de Lucas Veiga foram colhidas em entrevista ao Mundo Negro, publicada em junho de 2026.
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