Conforme anunciado pelo Mundo Negro, no último mês de agosto, foi lançado em Salvador o projeto ‘Salvador Capital Afro’. Desenvolvido pela prefeitura local, o programa foi descrito como um movimento que pretende posicionar a cidade como um grande destaque do turismo afro no mundo. 

A ação, contudo, foi questionada por membros do Coletivo pelo Afroturismo, um grupo com cerca de 6 profissionais negros, que trabalham há anos com o tema. “A nossa principal reivindicação é que a prefeitura coloque profissionais que estão ligados ao Afroturismo, pessoas negras que já trabalham isso há muito tempo para comandar, para liberar esse projeto”, disse Hubbler Clemente, Hoteleiro, Linkedin Creator e membro do Coletivo, em entrevista ao Mundo Negro. “Afinal de contas, nós já temos mapeados o que precisa fazer, essas demandas, o que precisa melhorar, já estamos inseridos dentro do movimento para fazer ele acontecer (…) Não queremos fazer parte do produto, queremos comandar essa ação, estar no comando desse investimento, afinal de contas somos pessoas especializadas no tema. Se não tem nenhum de nós do Afroturismo, queremos saber quem serão as pessoas no comando desse projeto. Se não tem nenhum de nós lá, do Afroturismo, queremos saber quem estará no comando desse projeto”.

O Mundo Negro entrou em contato com a Prefeitura de Salvador e buscou respostas sobre os questionamentos levantados pelo Coletivo Afroturismo. Em nota, os organizadores do projeto declararam que todos os contratos de implementação do Plano Afro solicitam um mínimo de 60% de profissionais negros na composição das equipes estratégicas. “Desde a fase de construção do Plano Afro, o poder público determinou uma metodologia participativa, onde fossem ouvidos os atores negros que compõem a cadeia de valor do Turismo: baianas, capoeiristas, artistas, trançadeiras, turbanteiras, guias, operadores e agências de turismo”, informou a prefeitura. “Os participantes foram reunidos em oficinas, seminários, grupo focal com especialistas, entrevistas coletivas e individuais de formadores de opinião do segmento”.

Museu Afro em Salvador. Foto: Fábio Marconi.

Ainda em nota, a prefeitura declarou que o chamamento desses atores e coletivos foi realizado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e Secretaria da Reparação, em conjunto com o consórcio vencedor que executou o trabalho. Segundo a organização, foram mais de 600 participantes da comunidade negra de Salvador nessa construção, com todos os produtos validados por esses atores. “Podemos citar alguns nomes de lideranças locais participantes do processo: Nadinho do Congo, Rita Santos, Presidente da ABAM (Associação Nacional das Baianas de Acarajé e Mingau), Nilzete dos Santos da Afrotours, Júlio Marques (Gestor e consultor especializado em sustentabilidade de empreendimentos criativos), Pai Hamilton (liderança do terreiro Haunkpame Savalu Vodun Zo), Tonho Matéria (artista e mestre capoeirista), Edson Costa (Fundador da Rede Emunde), Evilásio Bouzas (Presidente do Conselho Municipal de Comunidades Negras). A versão preliminar do Plano foi submetida, ainda, a um grupo focal de 10 especialistas composto por nomes como: Paulo Rogério (Vale do Dendê), Paulo Cambuí (morador e liderança do Curuzu), Gabriela Cruz (idealizadora do Afro Fashion Day)”, completou a nota.

O Mundo Negro também entrou em contato com Danielle Salles, proprietária da empresa Tem Dendê Gourmet, que fabrica quitutes da culinária baiana. Danielle participou de três ações do AfroBiz Salvador, iniciativa da prefeitura que buscava incentivar o afroturismo e o afroempreendedorismo local, apresentando seus produtos e serviços. 

“O AfroBiz Salvador, e agora, o Salvador Capital Afro, colocam a gente, empreendedor local, em um lugar de visibilidade. Nos ensinam como atender, como vender, como negociar, como nos posicionar”, continuou a profissional. “Quando eu participei da rodada de negócios do Afrobiz, eu solicitei a lista dos compradores e fui atrás deles. Fiz contato com muitas pessoas e hoje já estou colhendo os frutos. Uma das ações lá foi para exportação, e, agora, já estou em negociação para exportar uma tonelada dos meus quitutes. Posso dizer que os ensinamentos foram muitos.”

“A nossa cidade é riquíssima no turismo africano. Mas, infelizmente, muitas vezes isso não aparece, não é divulgado. Temos a chance de mudar esta realidade. Claro que precisa ter muitas conversas, envolver mais pessoas, para que o propósito do projeto seja alcançado como um todo”, disse Nadinho do Congo. “Acredito que se todos estiverem envolvidos, podemos gerar crescimento para a cidade, mais educação, geração de renda e emprego. Sempre digo que a Cultura de Salvador é valiosa, e Cultura é negócio. Por isso, a nossa Cultura não pode ter fronteiras”.

Foto: Amanda Tropicana.

Ainda em nota, a prefeitura de Salvador  informou que as contratações do ‘Salvador Capital Afro’ foram realizadas através de processos licitatórios de seleção baseada em qualidade e custo, seguindo as políticas do agente financiador (BID), que incluem ampla divulgação nacional e internacional, e executadas conforme a legislação nacional. “Especificamente sobre o Salvador Capital Afro, dentre as 74 pessoas que compõem a equipe com funções de liderança no projeto, temos 61 profissionais negros assumindo posições estratégicas como Líder executiva, Líder de comunicação, Especialista em assuntos étnico-afro, Coordenador de Eventos, Assessoras de Imprensa, Diretor Criativo, Diretor de Arte. Toda contratação pública segue o ritual das licitações”, disse o órgão público. “É importante que se explique isso para que esse tipo de queixa não tire a legitimidade de todo um coletivo que participou do processo e ajudou a construir as ações”.

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