Quando é que o afeto chega para nós, mulheres negras?

Escrito por Beatriz Duarte

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Imagem: Instagram/Reprodução

Há um tempo atrás me deparei com um desabafo no Twitter que falava sobre a dor de mulheres pretas que nunca estiveram em um relacionamento. O assunto em questão, me acertou como um soco no estômago e, até hoje, eu sinto meu peito se fechando sempre que reflito o quanto este assunto está presente na vida de inúmeras mulheres negras, inclusive na minha.

Vejam só: Eu sou uma mulher negra e gorda, no auge dos meus 24 anos, que nunca esteve em um relacionamento sério. Assumir esta posição é o mesmo que divulgar os meus segredos mais íntimos em praça pública. O sentimento é de vergonha, decepção e, principalmente, culpa.

Por muitos anos, até entrar na faculdade, eu sempre achei que o problema fosse comigo, entende? Sei lá, talvez eu fosse feia demais, grande demais, desajeitada demais ou negra demais! Uma vida inteira tentando me encaixar dentro de um padrão inatingível onde o sistema racista escracha nossas diferenças todos os dias.

Ainda na adolescência, me lembro de nutrir um amor incondicional pelas comédias românticas dos anos 90. Julia Roberts, Sandra Bullock e todas as musas dos filmes antigos que fizeram crescer em mim uma obsessão em ser amada. Eu sempre tive a certeza que, em algum momento, a pessoa certa, o meu eleito, o escolhido que me amaria com todos meus defeitos, iria aparecer e nós teríamos o nosso “felizes para sempre”.

O problema é que este enredo perfeito não fecha quando você é uma mulher negra. Aos 16, eu vi minhas colegas da igreja começarem a namorar. Aos 20 praticamente todas as minhas conhecidas da escola já estavam casadas e com filhos. E agora, aos 24, vejo algumas das minhas amigas de faculdade iniciarem o projeto “noiva do ano”.

Só que no meu caso, o tal eleito não apareceu e os que chegaram nesse meio tempo nunca nem mesmo cogitaram me assumir – mesmo que logo depois eles surgissem namorando outra pessoa.

Nos últimos anos, o realmente me ajudou foi começar o meu processo de autoconhecimento. Compreender que a solidão da mulher negra é uma problemática real, presente na vida de muitas mulheres pretas, me na hora de não aceitar migalhas e cair em ciladas.

Digo isso porque nós, mulheres negras, que não estamos acostumadas a receber afeto, estamos sempre caindo na cilada do meio amor, do meio carinho e do meio relacionamento. Muitas vezes, a gente acaba aceitando o amor ruim por medo de não receber nenhum tipo de amor. E pior, às vezes, o relacionamento acontece somente na nossa cabeça com a esperança de que se estenda no coração do outro.

Hoje, no auge do meu autoconhecimento, consigo enxergar que o envolvimento que me permiti ter com algumas pessoas foi apenas por medo de não vivenciar nenhuma experiência. Em nenhuma das vezes, eu tive absoluta certeza ou me senti completamente desejada.

Muitas das vezes, eu só queria ter algo para contar na roda de amigas, já que nos primeiros anos da adolescência e vida adulta eu era apenas a pessoa que podia ouvir o que elas compartilhavam.

E infelizmente, se você é uma mulher negra em uma roda de amigas brancas, em algum momento você vai se deparar com as seguintes frases: tudo tem seu tempo, miga. mas relacionamento nem é tudo isso, viu? você tem sorte de estar solteira.

E eu sei que você vai se sentir como se ninguém mais entendesse a sua dor no mundo, mas olha, você não está sozinha! Estou aqui para te dizer que nesta vida, enquanto mulher negra, algumas dores a gente só divide com outra mulher negra.

Mas, por favor, entenda que não há nada de errado com você. Se estar solteira até hoje, significa não aceitar amores pela metade, que você possa continuar sendo inteira sozinha. Você nasceu digna de receber todo o amor que merece e todo afeto que necessita. A libertação vem quando você, eu e todas nós, mulheres negras, entendemos que não podemos nos contentar com a margem quando merecemos um oceano inteiro.

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